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Acabou. A Alemanha conquistou a sua quarta estrela, o quarto Campeonato do Mundo. Walter Fritz lançou o mote em 1954, depois foi Beckenbauer em 1974. Dezasseis anos depois Klinsmann e companhia conseguiram o tri. Desta vez foi Lahm a levantar o orgulho de um país inteiro em forma de caneco. Apenas Alemanha, Brasil e Itália conseguiram vencer quatro torneios. As três seleções necessitaram precisamente de 24 anos para chegar ao tetra. Curioso. Mario Götze foi o herói da partida que saltou do banco para resolver. O médio do Bayern nem existia na última conquista germânica: nasceu em 1992.

Messi não é Maradona. Aos 27 anos, este 10 já ganhou 23 competições, numa odisseia que começou em 2005, com a conquista do Campeonato do Mundo de sub-20, curiosamente. Seis campeonatos, três Ligas dos Campeões, uns Jogos Olímpicos, dois Campeonatos do Mundo de Clubes, duas Supertaças Europeias, duas Taças do Rei e seis Supertaças de Espanha. Ah! E quatro Bolas de Ouro. É isto que nos diz o currículo de Messi. Parece muito, certo? Mas não é: falta um Campeonato do Mundo, o tal que colocaria Lionel ao nível de Diego, ou lá perto.

A Argentina começou a partida decidida em dar troco a uma Alemanha que prometia esconder a bola. A coragem foi refreando, acabando por se tornar numa batalha de estilos, de identidades: contra-ataque vs. posse de bola. No entanto, os alemães não pareciam tranquilos e serenos. Culpa do sargento Mascherano, que parecia um jovem de 18 anos com sabedoria de velhote. Fresco, ambicioso, com sede de marcar um encontro com a história e imitar as seleções das pampas de 1978 e 1986.

A primeira grande oportunidade de golo pertenceu à Argentina (20′). Toni Kroos decidiu fazer o que é raro — errar — e, com um atraso de cabeça mal medido, permitiu a Higuaín um encontro de primeiro grau com Manuel Neuer. O avançado do Nápoles tremeu e chutou ao lado. Os argentinos levaram as mãos à cabeça. O êxtase chegou dez minutos depois, mas por engano. Lavezzi, que seria o melhor neste primeiro tempo, cruzou da direita e Higuaín fez as pazes com a baliza inimiga e encostou com o pé esquerdo. O argentino começou a correr desenfreadamente e a gritar como se não houvesse amanhã. Afinal, era só ele e a glória lado a lado. Mas estava fora de jogo, e Sabella apercebeu-se um segundo depois da bola roubar um beijo à rede.

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Schürrle foi o primeiro alemão a assustar Romero. O avançado saltou do banco para substituir Kramer, que foi titular para ocupar a vaga de Khedira, que se lesionou no aquecimento. O avançado do Chelsea, Schürrle, já tinha marcado três golos como suplente em apenas 156 minutos e prometia não ficar por aí. A resposta chegou por Messi, que disse “olá boa noite, também estou aqui” a cinco minutos do intervalo. Arrancada incrível pela direita, entrada na área e oposição de Neuer. A bola pingou na pequena área mas Boateng teria serenidade para limpar para longe. Em tempo de desconto, Höwedes ainda cabeceou ao poste depois de um canto de Kroos. Que grande primeira parte. Intervalo.

A segunda parte seria aborrecida, mas começou logo com Messi isolado contra Neuer, depois de um excelente passe de Agüero. O canhoto acabaria por chutar a rasar o poste esquerdo da baliza alemã. Quase, quase. A profecia de Maradona — “vais marcar dois golos” — tardava a chegar. O grande candidato a momento mais emocionante/arrepiante da segunda parte foi o atropelamento de Neuer a Higuaín, a fazer lembrar Schumacher a Battiston em 1982. Até doeu só de ver… Mas doeu mais ao povo todo, que reclamou (com razão) um penálti.

Os quase 75 mil adeptos não teriam a fortuna de ver golos durante os 90 minutos. Pobre Maracanã. A dez minutos do fim era impossível não recordar que a última final entre ambas as seleções, em 1990, havia sido resolvida neste período: 85′, Brehme. Mas nada feito, teríamos mais um prolongamento. O momento mais especial foi mesmo a substituição de Miroslav Klose, que dizia adeus ao Campeonato do Mundo, o torneio onde se tornou o rei do golo, ultrapassando os 15 golos de Ronaldo Fenómeno.

A Alemanha perdera a única vez que disputou um prolongamento numa final (2-4 vs. Inglaterra, em 1966), enquanto a Argentina tinha boas memórias: 3-1 vs. Holanda, em 1978. Rola a bola no Maracanã: o jogo estava mastigado. Aborrecido. O prolongamento seria quase uma tortura, com exceção para duas páginas deste livro que mais parecia não ter fim. Primeiro foi Palacio, que surgiu isolado e tentou fazer um chapéu a Neuer. Sem sucesso, o toque, que parece ter metido canela à mistura, acabaria por sair ao lado. Os argentinos estavam desesperados. O troféu a piscar-lhes o olho e eles nada…

O mundo já se preparava para perder alguns anos de vida com os penáltis, algo que só acontecera em duas finais de Copas — Brasil-Itália, em 1994; França-Itália, em 2006. Mas Götze preferiu antecipar a festa (113′). A jogada começou e acabou pelo corredor esquerdo alemão, até que chegou ao supersónico Schürrle. Chegado à linha de fundo, cruzou com o pé esquerdo para Götze, que esperava na área para imortalizar o seu nome na história. O médio do Bayern, o tal que nasceu dois anos depois da última conquista alemã, dominou com o peito e, em desequilíbrio, desviou de Romero. Que belo golo.

O último suspiro da Argentina chegou pela canhota de Messi, de livre directo. Cansado, desinspirado, com o peso de um país inteiro nos ombros, o craque do Barça chutou por cima. Messi não é Maradona, lembra-se? Pouco depois o árbitro apitaria para o final. A Argentina voltava a perder uma final da Copa depois de 1930 (Uruguai) e 1990 (Alemanha).

Esta conquista alemã colocava bem no fundo do poço um mito: os europeus, afinal, sabem vencer na América. Finalmente. Entre 1930 e 2014 foi um instante, hein? Atenção a este dado: em 18 participações em Campeonatos do Mundo, a Alemanha terminou em terceiro ou melhor em 11 ocasiões — venceu quatro e perdeu outras quatro (1966, 1982, 1986 e 2002).

Ponto final na magia da Copa. Surpresas, histórias, golos sem fim, glória, desilusão, unhas roídas, nós no estômago, cabelos arrancados, corações mais fracos, apertados. Tudo isto só daqui a quatro anos. Contemos com a simpatia do relógio para fazer o tic-tac com pressa…