Golos, vitórias e pontos. É uma questão de ir acumulando. E, claro, parar apenas se tiver o suficiente para, ao fim de meses a correr atrás da bola, haver uma boa desculpa para rebentar a festa. Em Lens, houve mesmo: 38 jogos depois, o Racing Club, equipa da cidade perdida lá bem no norte de França, somava 65 pontos à última jornada da segunda liga gaulesa. Os que bastavam para ser vice-campeão — e uma das rodas do triciclo de clubes promovidos à Ligue 1.

Enfim, de volta. Era o suspiro de um clube que em 1998 e 2002 até andara na Liga dos Campeões, mas que, em 2011, não se conseguiu manter na primeira divisão francesa. Festa em Lens, portanto. E no Azerbeijão, também. Como? Sim, houve um azeri que celebrou o feito mais do que outro qualquer.

Era Hafiz Mammadov, o milionário que, em novembro de 2013, comprou o clube e o tornou no seu novo brinquedo. “A ambição é ser o melhor, e para isso é necessário investir”, dizia, na altura, o magnata que, alegadamente, é detentor de ações nas SADs do Porto e Atlético de Madrid.

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Dito e feito. Mas só agora. Garantida a subida de divisão, o clube anunciou que, para a temporada 2014/15, teria um orçamento de 45 milhões de euros. Ouimounsieur. Agora sim, uma aposta recheada de euros. E mal o RC Lens apresentou o orçamento, a Direção Nacional de Controlo e Gestão (DNCG) bateu-lhe à porta — é a entidade que, a junho de cada ano, supervisiona as contas dos clubes das cinco principais divisões do futebol francês. E bateu com estrondo.

Dia 27, à primeira espreitadela, a DNCG não gostou do que viu e decidiu suspender a licença do RC Lens para participar na Ligue 1. Era o primeiro aviso, e eis o porquê — alegadamente, o clube não dera garantias financeiras para cobrir uma quantia de 10 milhões de euros. “Enviámos uma garantia de 18 milhões, à qual faltavam os famosos 10 milhões. Recebemos na sexta-feira [11 de julho] uma ordem de transferência com esse valor, mas ele ainda não está em nosso poder”, explicou Gervais Martel, presidente do clube, ao La Voix du Nord.

Um atraso. Ou melhor, um feriado. O problema foi este. Isto porque Hafiz Mammadov, o proprietário do RC Lens, estava em Baku, capital do Azerbeijão, quando efetuou a transferência que deu boleia aos 10 milhões de euros. E calhou no dia em que se celebrava um feriado no país. Logo, o movimento bancário foi processado apenas um dia depois do previsto.

O RC Lens resolveu apelar contra a decisão e esperar pela resposta, que chegou na terça-feira. Em comunicado, o clube explicou que ainda não tinha “na conta bancária” o valor que os responsáveis da Federação Francesa de Futebol (FFF) exigiram receber “em mão”. Ou seja, nada feito. A DNCG podia ter aplicado uma multa, interdito a contratação de jogadores ou simplesmente advertido o clube, mas não — a entidade optou por barrar o acesso do clube à primeira divisão gaulesa. E alegou ainda que o Félix Bollaert, estádio do clube, não cumpre os regulamentos estipulados pela FFF.

E agora, o que resta? Ao clube, ainda lhe sobra uma hipótese: apelar da decisão no Comité Olímpico Francês (CNOSF, na sigla francesa), único órgão com poder para tudo remediar e alterar a decisão do DNCG.

E agora, há que ser prudente — Gervais Martel, que deverá ser recebido CNOSF na sexta ou segunda-feira, poderá apresentar um orçamento de apenas 35 milhões de euros, como prevenção caso às contas do RC Lens continuam a não chegar a tempo os tais 10 milhões que ‘vêm’ do Azerbeijão. “Se pudermos tentar convencer [o comité olímpico], levaremos todas as peças necessárias”, assegurou o presidente do clube.

Esperar para ver. Neste momento, o RC Lens não tem escolha. “Temos mais que uma carta na manga, mas tenho confiança de que estaremos na Ligue 1“, revelou Martel. Caso nada se resolva, os sorrisos irão todos para o Sochaux — o clube, despromovido da primeira divisão na temporada passada, que ocupará a vaga da equipa que foi (?) tramada por um feriado no Azerbeijão.