O selim é feito de cortiça. O guiador foi pensado por uma empresa de jardinagem. E a dar uma ajuda está um motor “no limite” de obrigar a ter uma carta de condução no bolso. É tudo isto e mais: é uma bicicleta. Melhor, uma tricicleta. Culpa das três rodas que o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) arriscou colocar num “veículo que não perdesse o fascínio de uma boa pedalada”.

Não perdeu mesmo. E ainda conseguiu promover o equilíbrio, segurança e transporte de mercadorias. Quem o garante é Ermanno Aparo, diretor do projeto que criou uma bicicleta, com três rodas, pensada para, nas cidades, oferecer “novas maneiras de pensar o espaço urbano”.

E novidades são coisa que não faltam à ‘RAIOOO’. Nome de batismo, assim escolhido após uma reunião entre a diretora da Unidade Orgânica do projeto e Rui Sousa, ciclista profissional do Boavista que apadrinhou o projeto. Não é o definitivo: esse será escolhido entre Wicla e Beca, “nomes que estão a ser votados na Internet”, revelou ao Observador o também coordenador do mestrado em Design Integrado da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPVC.

Definitivos são os materiais que Ermanno Aparo e 19 alunos optaram por colocar na “tricicleta”, como lhe preferiu chamar. Entre madeira, alumínio, borracha e cortiça, o projeto “desafiou várias empresas a trabalharem nas suas áreas de especialidade, mas fora da sua área de mercado”. Ou seja? O professor, italiano de origem, ajudou a explicar. O guiador foi pedido “a uma empresa de cabos de madeira, para ferramentas de jardinagem, que começou há pouco tempo a fazer guiadores”, esclareceu, dando o primeiro de vários exemplos que até chegam à Amorim, empresa líder mundial de cortiça.

Sim, à líder mundial no setor da cortiça. “Conseguimos fazer um selim feito de cortiça, fornecida pela Amorim, que agora está a ser muito cobiçado” pela empresa, contou Ermanno Aparo, antes de referir o “artesão de couro, que normalmente produz solas”, a quem pediram para “fazer as malas que seriam transportadas pela bicicleta”.

A isto juntou-se um motor “de 13 amperes e 36 volts” — o limite, indicou o docente, para “ser conduzida sem carta de condução” — e três rodas. Na balança, o resultado final ficou nos 38 quilos. “O que é muito pesado”, admitiu Ermanno Aparo, ressalvando, porém, que “não retira nenhum prazer à pedalada”. E há mais, garantiu, ao acrescentar que a ‘RAIOOO’ se porta “fantasticamente em subidas”.

Agora, as contas. Questionado pelo Observador acerca de custos, o docente respondeu que “seria sempre falso qualquer preço que dissesse”. E explicou porquê. “Não lhe sei dizer ao certo. É um protótipo e tivemos um forte desconto em muitos dos componentes”, esclareceu, dizendo ainda que “as peças até foram oferecidas por empresas parceiras”. Quanto ao tempo, já há certezas. “Demorou seis meses, um semestre inteiro, até [a tricicleta] ser terminada”, concluiu.

A ‘RAIOOO’ será apresentada ao público na sexta-feira, às 21h, no espaço da Oficina Cultural do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. E o futuro? Primeiro, contou o coordenador do projeto, o IPVC vai “patentear a bicicleta”. Depois, o objetivo é que o projeto “crie emprego para os alunos” do politécnico e que “estimule o empreendorismo”.

Chegar às lojas é coisa que não está nos planos. “A bicicleta não é para ser vendida”, sublinhou Ermanno Aparo, realçando que o objetivo passa por a tornar numa “sharing bike“, partilhada pelos cidadãos. “Mas isso já depende de vontades políticas ou de empresas em construir uma bicicleta bonita e que possa servir numa cidade”, lembrou. Ficamos à espera.