O Papa Francisco admitiu, na viagem de regresso da Coreia do Sul, a possibilidade de renunciar ao pontificado se vier a considerar que não tem forças para continuar. Francisco foi eleito em março do ano passado e, com 77 anos, afirmou que terá um pontificado curto: “mais dois ou três anos”, disse, numa conferência de imprensa onde ainda houve tempo para falar da sua vida quotidiana, das suas férias, do seu estado de saúde e dos planos de viagens.

Falando para um conjunto de jornalistas a bordo do avião que o trazia de volta ao Vaticano, vindo da sua primeira visita à Coreia do Sul, o Papa falou pela primeira vez abertamente sobre a sua popularidade – que voltou a estar em evidência durante a visita de cinco dias ao continente asiático. Admitiu que, no início, o “assustou um pouco”, mas aprendeu a lidar com ela, sendo agora “mais natural”.

“Vivo-a [à popularidade] como uma generosidade do povo de Deus. Interiormente procuro pensar nos meus pecados e nos meus erros para não enlouquecer, porque sei que vai durar pouco tempo”, disse, e aproveitou o tema para estipular um prazo hipotético: “Dois ou três anos”, precisou. “Depois, a Casa do Pai”, disse.

De acordo com a AFP, apesar de esta ser a primeira vez que Francisco fala publicamente sobre o assunto, fontes do Vaticano confirmam que o Papa argentino já tinha falado antes da sua própria morte com pessoas que lhe são próximas.

E recordando a demissão do seu antecessor, Bento XVI, aproveitou para abrir a porta a mais uma possível resignação papal. “Mesmo que não seja do gosto de alguns teólogos”, Francisco irá certamente fazer o mesmo do que Bento XVI caso não se sinta capaz de continuar no cargo. Bento XVI “abriu uma porta”, explicou, lembrando que há 60 anos era praticamente impossível os bispos católicos se reformarem e agora é prática comum.

“Podem-me perguntar: se um dia não se sentir capaz de seguir em frente, faria o mesmo? Sim. Rezaria e faria o mesmo”, disse prontamente o Papa Francisco.

“Eu penso que Papa emérito é já uma instituição. Porque a nossa vida é maior e numa certa idade já não temos capacidade de governar bem, porque o nosso corpo está cansado. Podemos ter saúde, mas não temos força para continuar a governar a Igreja”, afirmou, elogiando a atitude do anterior pontífice.

O estado de saúde do Papa tem sido questionado uma vez que nos últimos meses tem vindo a cancelar vários eventos em cima da hora devido a pequenos problemas de saúde. Segundo o The Guardian, o Papa admitiu mesmo na conversa com os jornalistas que iam a bordo do avião que tinha de “abrandar o ritmo”. E que já o tinha começado a fazer durante o verão, estando mais focado em ler, dormir mais e ouvir música.

“Tiro férias como sempre o fiz: em casa”, disse o Papa, brincando com o facto de ter um problema de “nervos”, que ajuda a solucionar com “um mate por dia” (bebida tipicamente argentina feita com água quente e ervas). E uma dessas neuroses, diz, “é ser uma pessoa muito caseira”. “A última vez que fiz férias fora de Buenos Aires [de onde é natural] foi em 1975 com a comunidade jesuíta”, lembrou, bem disposto.

A conversa de uma hora com os jornalistas a bordo do avião deu ainda para abordar, além da diplomacia internacional e de uma possível intervenção no Iraque para travar os jihadistas, assim como o seu estado de saúde, os seus planos de viagens futuras.

Os EUA deverão ser um dos próximos destinos do líder da Igreja Católica, numa viagem marcada para o ano de 2015. E iria à China comunista “já amanhã”, se fosse convidado, disse.