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O primeiro-ministro de Israel fez o aviso esta terça-feira, numa visita a uma base aérea. Antes das eleições legislativas marcadas para dia 27 de outubro, Benjamin Netanyahu alertou que havia “indicações” de que os “inimigos vão tentar atacar” o país. O líder israelita não deu grandes detalhes sobre que tipo de ameaça pairava sobre o Estado judaico. Mas, nem 24 horas depois, registava-se uma “altercação a bordo” num voo da Flydubai que ligava o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a Telavive. Um copiloto terá tentado esfaquear com um canivete o comandante do Boeing 737 MAX, para assumir o controlo da aeronave.
Em resultado das alegadas agressões no cockpit, o comandante, natural da Índia, Smit Machchhar, ficou ferido e a aeronave entrou numa queda abrupta de altitude: verificou-se uma descida de 14 mil pés em menos de um minuto. O copiloto acabou imobilizado. Mais tarde, confirmou-se que o suposto agressor tinha nacionalidade de Omã, um país que não mantém relações diplomáticas com Israel. A rápida reação de passageiros e tripulantes a bordo permitiu conter o alegado agressor e assegurar que o avião recuperava a estabilidade. De emergência, a aeronave acabou por aterrar no aeroporto de Tabuk, na Arábia Saudita.
Neste momento, estão em curso investigações para apurar o que aconteceu a bordo do Boeing 737. De qualquer forma, com base em informações preliminares, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, classificou o sucedido como uma “tentativa de ataque terrorista jihadista”. Porém, várias fontes israelitas contaram ao New York Times que muito em redor deste episódio “ainda está em aberto”: “As autoridades israelitas estão a investigar se se trata de uma tentativa de ataque contra israelitas ou de uma tentativa de suicídio”.
▲ Israel Katz atribuiu ataque ao terrorismo jihadista
RONALD WITTEK/EPA
O primeiro-ministro de Israel assinalou que o cidadão de Omã está a ser interrogado pelas autoridades sauditas. Benjamin Netanyahu enfatizou que — durante o voo — o piloto “aparentemente” tentou que o avião caísse “com toda a gente a bordo”. Ao jornal britânico Telegraph, fontes de segurança israelitas estão a indicar que se tratará de um “cenário” bastante idêntico ao 11 de Setembro, em que “os copilotos mataram o piloto”.
O importante papel dos passageiros no voo: “Heroísmo”
No aeroporto, Yaniv Hayun, um dos passageiros do voo, relatou ao primeiro-ministro israelita o que aconteceu a bordo, após ter chegado a Telavive num voo vindo da Arábia Saudita. Dentro do cockpit, o comandante de nacionalidade emiradense e o copiloto omani ter-se-ão agredido, tendo o primeiro sido alegadamente esfaqueado com um canivete.
Os passageiros aperceberam-se de que o avião estava a perder altitude e aproximaram-se do cockpit, tentando abrir a porta. Quando o conseguiram, viram, segundo Yaniv Hayun, que o copiloto “estava a tentar destruir os botões de forma a desestabilizar o avião”. O passageiro acredita que foi o comandante, mesmo ferido e a sangrar, após ter sido alegadamente esfaqueado, quem ajudou a abrir a porta por dentro: “Ele estava muito perto da porta. Isso tornou difícil que a abríssemos. A minha conclusão é que ele conseguiu abri-la antes de colapsar”.
Yaniv Hayun relatou também o momento em que agiu contra o copiloto: “Agarrei o agressor, fiz-lhe um mata-leão e afastei-o. Chamei os outros israelitas e comecei a mexer nos controlos”. O passageiro explicou que tinha “experiência na área da aviação” e que, nesse momento, se lembrou da série canadiana Air Crash Investigation, que retrata investigações a acidentes aéreos em todo o mundo.
“O avião começou a subir um pouco mais e outro piloto disse-me que ia controlar o voo a partir daí”, contou Yaniv Hayun. Ao canal estatal israelita KAN, outro passageiro, Zvika Meness, sublinhou que o atacante foi imobilizado com o recurso a braçadeiras plásticas e auscultadores. “Houve crianças e famílias que viveram um evento severo e altamente traumático.”
Oficialmente, o primeiro-ministro de Israel confirmou que alguns tripulantes “imobilizaram o piloto que tinha cometido o esfaqueamento enquanto tentava sabotar os sistemas da aeronave”. “Outro membro da tripulação entrou na cabina de pilotagem e conseguiu estabilizar o avião”, continuou, prestando a sua “homenagem aos heróis” que evitaram um “terrível desastre”. “Foi um incidente de segurança extremamente grave”, definiu Benjamin Netanyahu, numa conferência de imprensa a meio da tarde.
Yaniv, who neutralized the terrorist pilot, told Netanyahu:
“I pulled the yoke up and stopped the plane’s dive. It’s lucky I had some aviation experience from @MaydayAirCrash series pic.twitter.com/pnInfbxol2— Amichai Stein (@AmichaiStein1) September 30, 2026
Além dos pilotos, nenhum outro elemento da tripulação ou passageiro ficou ferido com gravidade, assegurou Benjamin Netanyahu. A imagem que circulou nas redes sociais de Yaniv Hayun com a t-shirt branca ensanguentada tornou-se uma das provas da violência e das agressões que ocorreram no cockpit. Aliás, quando chegou a Telavive, o homem conversou com o chefe do Executivo com a mesma roupa.
A Flydubai emitiu um comunicado em que confirmou uma “altercação a bordo” do avião. “A aeronave foi controlada pela tripulação da Flydubai que estava de serviço”, referiu um porta-voz da companhia aérea sediada nos Emirados Árabes Unidos. A empresa pediu ainda que se evitasse a especulação: “Nesta fase inicial, as razões e motivações deste acidente são desconhecidas e permanecem sujeitas a uma investigação formal. Pedimos a todas as partes para evitarem especulação prematura, enquanto as autoridades apuram os factos”.
Sendo monarquias absolutas que controlam a informação que é divulgada ao milímetro, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos não emitiram qualquer nota sobre o assunto. Os canais diplomáticos de Riade e Abu Dhabi mantiveram-se em silêncio sobre o incidente. As únicas informações partiram da Flydubai — companhia aérea que pertence ao Governo do Dubai, um dos sete emirados que integram o país.
▲ Avião da companhia Flydubai
ALI HAIDER/EPA
Como as questões diplomáticas influenciaram o acidente
Os Emirados Árabes Unidos estabeleceram relações diplomáticas com Israel em 2020, com a assinatura dos Acordos de Abraão. No Golfo Pérsico, juntamente com o Bahrein, o emirado reconheceu diplomaticamente o Estado judaico. A partir desse momento, Abu Dhabi e Telavive aproximaram-se gradualmente. Um desses passos ocorreu em 2021, quando se tornou possível viajar diretamente de avião entre os dois países.
Ao longo dos últimos anos, principalmente desde o início da guerra no Irão, os Emirados Árabes Unidos e Israel tornaram-se cada vez mais próximos. Os voos entre as cidades emiradenses e israelitas são diários. Ainda este fim de semana, Benjamin Netanyahu esteve no país do Golfo Pérsico e encontrou-se com o Presidente, Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Os dois líderes voltaram a falar ao telefone esta quarta-feira após o acidente do avião da Flydubai.
Em Israel, nos primeiros momentos terá havido um desentendimento interno, segundo avançou o Canal 12 israelita. A ministra dos Transportes israelita, Miri Regev, terá querido suspender todos os voos da Flydubai de imediato. No entanto, na altura, os serviços secretos internos — Shin Bet — insistiram que tal medida não seria necessária. Na noite desta quarta-feira, a Flydubai avançou mesmo com a “suspensão temporária” dos voos saídos dos Emirados Árabes Unidos para Israel. “Isso vai permitir”, segundo a companhia aérea, que as “autoridades relevantes continuem o seu trabalho e estabeleçam todos os factos em redor do acidente.”
▲ Ministra dos Transportes israelita, Miri Regev, apoio suspensão dos voos da Flydubai
Bloomberg via Getty Images
Perdendo altitude de repente, o Boeing 737 teve de ser desviado para a Arábia Saudita, país com o qual Israel não mantém relações diplomáticas formais. À porta fechada, a situação é distinta: os dois países são dos maiores aliados dos Estados Unidos no Médio Oriente e têm um inimigo em comum, o regime do Irão. Neste contexto, um dos grandes desejos de Benjamin Netanyahu é ver Riade juntar-se aos Acordos de Abraão.
Fruto de não haver um reconhecimento diplomático, a monarquia saudita não permite que nenhum avião que parta de Israel ou que tenha como destino o país aterre nos seus aeroportos. A única exceção acontece em situações de emergência, tal como a desta quarta-feira, cumprindo as normas da Organização da Aviação Civil Internacional. O avião da Flydubai conseguiu aterrar e os passageiros — 174, na sua maioria israelitas — foram recebidos pelas autoridades da Arábia Saudita.
▲ O mapa do voo desviado
Anadolu via Getty Images
Ainda assim, Benjamin Netanyahu chegou a acionar a Força Aérea israelita, em concreto uma aeronave militar Super Hercules, para resgatar os passageiros israelitas, alguns dos quais receavam voltar a embarcar noutro avião da Flydubai. Contudo, esta operação exigia a aterragem em solo saudita e uma autorização especial — pedido que a Arábia Saudita acabou por recusar, segundo avançou a agência Reuters.
Israel estaria confiante de que a Arábia Saudita daria a autorização, principalmente num momento de crise. Isso não aconteceu, ainda assim. Em declarações ao Jerusalem Post, fonte próxima da família real saudita atirou que “Israel precisa de entender que a normalização não pode ser forçada”.
Com os Emirados Árabes Unidos, a reação foi distinta. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, teve, na noite desta quarta-feira, uma conversa telefónica “cândida” com o seu homólogo, Abdullah bin Zayed Al Nahyan. Os chefes da diplomacia expressaram uma “determinação mútua para fortalecer as relações entre os países a todos os níveis e cooperar contra elementos extremistas que procurem prejudicar a segurança e minar a estabilidade na região”.
I spoke just an hour ago with my friend, the Foreign Minister of the United Arab Emirates, Abdullah bin Zayed Al Nahyan, @ABZayed.
During our warm conversation, we expressed our mutual determination to strengthen the relations between our countries at all levels and to work…
— Gideon Sa'ar | גדעון סער (@gidonsaar) September 30, 2026
A identidade do comandante ferido e o cidadão omani
Foi a imprensa indiana a avançar que o comandante que ficou ferido com gravidade na sequência da altercação com o alegado agressor se chama Smit Machchhar e é natural da Índia, tendo nacionalidade indiana e emiradense. É capitão na Flydubai desde junho de 2022 e tem 13 anos de experiência no mundo da aviação.
A embaixada da Índia na Arábia Saudita confirmou a sua identidade na noite desta quarta-feira, destacando que Smit Machchhar foi um “piloto corajoso”. O comandante encontra-se atualmente num hospital em Tabuk a receber cuidados médicos, tendo a diplomacia de Nova Deli referido que está a recuperar dos “ferimentos”: “Estamos em contacto com a sua família e garantimos-lhes que vamos continuar a acompanhar o seu estado de saúde junto das autoridades sauditas”.
Também o primeiro-ministro de Israel prestou homenagem a Smit Machchhar. “Apesar de ter sido esfaqueado e estar ferido com gravidade, lutou, resistiu e abriu a porta do cockpit. Permitiu que os passageiros e a tripulação conseguissem dominar o atacante — e preveniram uma catástrofe. Ele salvou a vida de 174 pessoas, incluindo cidadãos israelitas”, frisou Benjamin Netanyahu, classificando-o como um “herói”.
This man is a hero.
Captain Smit Machchhar, the Indian captain of flydubai Flight 1073, fought back after being stabbed in the cockpit.
Despite being severely injured, he managed to unlock the cockpit door – allowing Israeli passengers and the Emirati crew to intervene and save… pic.twitter.com/x4W3mtQkag
— Israel Foreign Ministry (@IsraelMFA) September 30, 2026
Sobre o copiloto com nacionalidade de Omã, as informações mantêm-se escassas. Não é ainda claro se tinha ligações a grupos extremistas ou se agiu isoladamente, apesar de o ministro da Defesa o ter associado a movimentos jihadistas. O Canal 16 de Israel avançou que um dos pilotos que trabalhou com ele o descreveu como um “extremista religioso”, ainda que essa descrição não tenha sido corroborada por nenhuma fonte oficial. Uma das únicas informações confirmadas é que o homem trabalhava na Flydubai há oito meses.
Como o Governo israelita e a oposição reagiram ao acidente
A menos de um mês de os israelitas irem a votos, já existe uma pré-campanha em curso em Israel. Num país que controla rigorosamente a sua segurança aeroportuária, estão a surgir várias interrogações: como foi possível um piloto de nacionalidade de Omã — país sem relações com Telavive — estar ao comando de um voo com destino a Israel?
Como lembra o Times of Israel, o Estado judaico “estabelece frequentemente acordos com outros países para impedir que pilotos de determinadas nações voem para território israelita; no entanto, por razões que ainda não foram reveladas, tal não parece ter impedido um copiloto de Omã de pilotar uma aeronave repleta de israelitas em direção a Telavive”.
O caso está a ser investigado. No Governo, algumas vozes estão a apontar para o terrorismo como a causa mais provável do acidente. Alguns ministros, como o da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, escalaram a retórica. Israel deve aumentar a intensidade dos conflitos no Médio Oriente, até “alcançar a vitória total no Irão, Líbano, Gaza, Judeia e Samaria”. Um dos líderes da extrema-direita israelita considera que é “ingénuo” pensar que os “inimigos” de Israel “valorizam a vida”. “Este é outro lembrete de que um terrorista tentou que um avião caísse para assassinar 180 israelitas. Os terroristas são um diabo com o qual nunca se deve fazer acordos.”
▲ Passageiros da Flydubai chegam a Telavive
AFP via Getty Images
Na oposição, a reação foi mista. O centrista Gadi Eisenkot — um dos principais rivais de Netanyahu nas legislativas de 27 de outubro — sublinhou o “heroísmo e a solidariedade” dos israelitas. Por sua vez, o líder da oposição e chefe do partido Yesh Atid, Yair Lapid, denunciou que o briefing de segurança feito por Benjamin Netanyahu na manhã de quarta-feira não continha qualquer menção — nem mesmo implícita — ao incidente aéreo, levantando sérias dúvidas sobre uma eventual omissão de informação.
Para tranquilizar a opinião pública, o porta-voz de Netanyahu, Doron Spielman, garantiu à agência Reuters que Israel irá reforçar as exigências de segurança na aviação após o episódio no avião da Flydubai. “Como resultado, passaremos a exigir o conhecimento prévio da identidade de todos os pilotos que voem para Israel, sujeitando-os a uma verificação de segurança”, afirmou.
“O nosso dever é fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, mesmo quando não se trata de companhias aéreas israelitas. Queremos garantir que os padrões de segurança são levados ao nível mais elevado”, concluiu o porta-voz, assegurando que o incidente será “objeto de um inquérito rigoroso”. Até lá, ainda sobram muitas dúvidas sobre o que se passou neste voo.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]