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▲Avião da Flydubai

Anadolu via Getty Images

▲Avião da Flydubai

Anadolu via Getty Images

Agressões no cockpit e "heroísmo" dos passageiros: o dia em que se evitou uma "terrível tragédia" no avião da Flydubai

Após "altercação a bordo" no cockpit, passageiros evitaram que copiloto com nacionalidade do Omã despenhasse avião da Flydubai, que fazia a viagem entre Dubai e Telavive. Autoridades investigam.

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O primeiro-ministro de Israel fez o aviso esta terça-feira, numa visita a uma base aérea. Antes das eleições legislativas marcadas para dia 27 de outubro, Benjamin Netanyahu alertou que havia “indicações” de que os “inimigos vão tentar atacar” o país. O líder israelita não deu grandes detalhes sobre que tipo de ameaça pairava sobre o Estado judaico. Mas, nem 24 horas depois, registava-se uma “altercação a bordo” num voo da Flydubai que ligava o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a Telavive. Um copiloto terá tentado esfaquear com um canivete o comandante do Boeing 737 MAX, para assumir o controlo da aeronave.

Em resultado das alegadas agressões no cockpit, o comandante, natural da Índia, Smit Machchhar, ficou ferido e a aeronave entrou numa queda abrupta de altitude: verificou-se uma descida de 14 mil pés em menos de um minuto. O copiloto acabou imobilizado. Mais tarde, confirmou-se que o suposto agressor tinha nacionalidade de Omã, um país que não mantém relações diplomáticas com Israel. A rápida reação de passageiros e tripulantes a bordo permitiu conter o alegado agressor e assegurar que o avião recuperava a estabilidade. De emergência, a aeronave acabou por aterrar no aeroporto de Tabuk, na Arábia Saudita.

Neste momento, estão em curso investigações para apurar o que aconteceu a bordo do Boeing 737. De qualquer forma, com base em informações preliminares, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, classificou o sucedido como uma “tentativa de ataque terrorista jihadista”. Porém, várias fontes israelitas contaram ao New York Times que muito em redor deste episódio “ainda está em aberto”: “As autoridades israelitas estão a investigar se se trata de uma tentativa de ataque contra israelitas ou de uma tentativa de suicídio”.

epa11157907 Israeli Foreign Minister Israel Katz speaks during a press statement at a side event of the 60th Munich Security Conference (MSC), in Munich, Germany, 16 February 2024. More than 500 high-level international decision-makers meet at the 60th Munich Security Conference in Munich during their annual meeting from 16 to 18 February 2024 to discuss global security issues.  EPA/RONALD WITTEK

▲ Israel Katz atribuiu ataque ao terrorismo jihadista

RONALD WITTEK/EPA

O primeiro-ministro de Israel assinalou que o cidadão de Omã está a ser interrogado pelas autoridades sauditas. Benjamin Netanyahu enfatizou que — durante o voo — o piloto “aparentemente” tentou que o avião caísse “com toda a gente a bordo”. Ao jornal britânico Telegraph, fontes de segurança israelitas estão a indicar que se tratará de um “cenário” bastante idêntico ao 11 de Setembro, em que “os copilotos mataram o piloto”.

O importante papel dos passageiros no voo: “Heroísmo”

No aeroporto, Yaniv Hayun, um dos passageiros do voo, relatou ao primeiro-ministro israelita o que aconteceu a bordo, após ter chegado a Telavive num voo vindo da Arábia Saudita. Dentro do cockpit, o comandante de nacionalidade emiradense e o copiloto omani ter-se-ão agredido, tendo o primeiro sido alegadamente esfaqueado com um canivete.

Os passageiros aperceberam-se de que o avião estava a perder altitude e aproximaram-se do cockpit, tentando abrir a porta. Quando o conseguiram, viram, segundo Yaniv Hayun, que o copiloto “estava a tentar destruir os botões de forma a desestabilizar o avião”. O passageiro acredita que foi o comandante, mesmo ferido e a sangrar, após ter sido alegadamente esfaqueado, quem ajudou a abrir a porta por dentro: “Ele estava muito perto da porta. Isso tornou difícil que a abríssemos. A minha conclusão é que ele conseguiu abri-la antes de colapsar”.

Copiloto "estava a tentar destruir os botões de forma a desestabilizar o avião"
Yaniv Hayun, passageiro

Yaniv Hayun relatou também o momento em que agiu contra o copiloto: “Agarrei o agressor, fiz-lhe um mata-leão e afastei-o. Chamei os outros israelitas e comecei a mexer nos controlos”. O passageiro explicou que tinha “experiência na área da aviação” e que, nesse momento, se lembrou da série canadiana Air Crash Investigation, que retrata investigações a acidentes aéreos em todo o mundo.

“O avião começou a subir um pouco mais e outro piloto disse-me que ia controlar o voo a partir daí”, contou Yaniv Hayun. Ao canal estatal israelita KAN, outro passageiro, Zvika Meness, sublinhou que o atacante foi imobilizado com o recurso a braçadeiras plásticas e auscultadores. “Houve crianças e famílias que viveram um evento severo e altamente traumático.”

Oficialmente, o primeiro-ministro de Israel confirmou que alguns tripulantes “imobilizaram o piloto que tinha cometido o esfaqueamento enquanto tentava sabotar os sistemas da aeronave”. “Outro membro da tripulação entrou na cabina de pilotagem e conseguiu estabilizar o avião”, continuou, prestando a sua “homenagem aos heróis” que evitaram um “terrível desastre”. “Foi um incidente de segurança extremamente grave”, definiu Benjamin Netanyahu, numa conferência de imprensa a meio da tarde.

Além dos pilotos, nenhum outro elemento da tripulação ou passageiro ficou ferido com gravidade, assegurou Benjamin Netanyahu. A imagem que circulou nas redes sociais de Yaniv Hayun com a t-shirt branca ensanguentada tornou-se uma das provas da violência e das agressões que ocorreram no cockpit. Aliás, quando chegou a Telavive, o homem conversou com o chefe do Executivo com a mesma roupa.

A Flydubai emitiu um comunicado em que confirmou uma “altercação a bordo” do avião. “A aeronave foi controlada pela tripulação da Flydubai que estava de serviço”, referiu um porta-voz da companhia aérea sediada nos Emirados Árabes Unidos. A empresa pediu ainda que se evitasse a especulação: “Nesta fase inicial, as razões e motivações deste acidente são desconhecidas e permanecem sujeitas a uma investigação formal. Pedimos a todas as partes para evitarem especulação prematura, enquanto as autoridades apuram os factos”.

Sendo monarquias absolutas que controlam a informação que é divulgada ao milímetro, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos não emitiram qualquer nota sobre o assunto. Os canais diplomáticos de Riade e Abu Dhabi mantiveram-se em silêncio sobre o incidente. As únicas informações partiram da Flydubai — companhia aérea que pertence ao Governo do Dubai, um dos sete emirados que integram o país.

epa10576797 A Flydubai Airlines passenger plane prepares to land at Dubai International Airport, United Arab Emirates, 17 April 2023. An announcement by Emirates Airlines and Ffydubai extended the cancellation of their flights to and from Sudan until 30 April 'due to a deteriorating situation of civil unrest in Khartoum'. Heavy gunfire and explosions were reported in Sudan's capital Khartoum on 15 April between the army and a paramilitary group following days of tension centering around the country's proposed transition to civilian rule.  EPA/ALI HAIDER

▲ Avião da companhia Flydubai

ALI HAIDER/EPA

Como as questões diplomáticas influenciaram o acidente

Os Emirados Árabes Unidos estabeleceram relações diplomáticas com Israel em 2020, com a assinatura dos Acordos de Abraão. No Golfo Pérsico, juntamente com o Bahrein, o emirado reconheceu diplomaticamente o Estado judaico. A partir desse momento, Abu Dhabi e Telavive aproximaram-se gradualmente. Um desses passos ocorreu em 2021, quando se tornou possível viajar diretamente de avião entre os dois países.

Ao longo dos últimos anos, principalmente desde o início da guerra no Irão, os Emirados Árabes Unidos e Israel tornaram-se cada vez mais próximos. Os voos entre as cidades emiradenses e israelitas são diários. Ainda este fim de semana, Benjamin Netanyahu esteve no país do Golfo Pérsico e encontrou-se com o Presidente, Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Os dois líderes voltaram a falar ao telefone esta quarta-feira após o acidente do avião da Flydubai.

Em Israel, nos primeiros momentos terá havido um desentendimento interno, segundo avançou o Canal 12 israelita. A ministra dos Transportes israelita, Miri Regev, terá querido suspender todos os voos da Flydubai de imediato. No entanto, na altura, os serviços secretos internos — Shin Bet — insistiram que tal medida não seria necessária. Na noite desta quarta-feira, a Flydubai avançou mesmo com a “suspensão temporária” dos voos saídos dos Emirados Árabes Unidos para Israel. “Isso vai permitir”, segundo a companhia aérea, que as “autoridades relevantes continuem o seu trabalho e estabeleçam todos os factos em redor do acidente.”

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▲ Ministra dos Transportes israelita, Miri Regev, apoio suspensão dos voos da Flydubai

Bloomberg via Getty Images

Perdendo altitude de repente, o Boeing 737 teve de ser desviado para a Arábia Saudita, país com o qual Israel não mantém relações diplomáticas formais. À porta fechada, a situação é distinta: os dois países são dos maiores aliados dos Estados Unidos no Médio Oriente e têm um inimigo em comum, o regime do Irão. Neste contexto, um dos grandes desejos de Benjamin Netanyahu é ver Riade juntar-se aos Acordos de Abraão.

Fruto de não haver um reconhecimento diplomático, a monarquia saudita não permite que nenhum avião que parta de Israel ou que tenha como destino o país aterre nos seus aeroportos. A única exceção acontece em situações de emergência, tal como a desta quarta-feira, cumprindo as normas da Organização da Aviação Civil Internacional. O avião da Flydubai conseguiu aterrar e os passageiros — 174, na sua maioria israelitas — foram recebidos pelas autoridades da Arábia Saudita.

Rota do avião da FlyDubai que tinha Telavive como destino e acabou na Arábia Saudita

▲ O mapa do voo desviado

Anadolu via Getty Images

Ainda assim, Benjamin Netanyahu chegou a acionar a Força Aérea israelita, em concreto uma aeronave militar Super Hercules, para resgatar os passageiros israelitas, alguns dos quais receavam voltar a embarcar noutro avião da Flydubai. Contudo, esta operação exigia a aterragem em solo saudita e uma autorização especial — pedido que a Arábia Saudita acabou por recusar, segundo avançou a agência Reuters.

Israel estaria confiante de que a Arábia Saudita daria a autorização, principalmente num momento de crise. Isso não aconteceu, ainda assim. Em declarações ao Jerusalem Post, fonte próxima da família real saudita atirou que “Israel precisa de entender que a normalização não pode ser forçada”. 

Com os Emirados Árabes Unidos, a reação foi distinta. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, teve, na noite desta quarta-feira, uma conversa telefónica “cândida” com o seu homólogo, Abdullah bin Zayed Al Nahyan. Os chefes da diplomacia expressaram uma “determinação mútua para fortalecer as relações entre os países a todos os níveis e cooperar contra elementos extremistas que procurem prejudicar a segurança e minar a estabilidade na região”.

A identidade do comandante ferido e o cidadão omani

Foi a imprensa indiana a avançar que o comandante que ficou ferido com gravidade na sequência da altercação com o alegado agressor se chama Smit Machchhar e é natural da Índia, tendo nacionalidade indiana e emiradense. É capitão na Flydubai desde junho de 2022 e tem 13 anos de experiência no mundo da aviação.

A embaixada da Índia na Arábia Saudita confirmou a sua identidade na noite desta quarta-feira, destacando que Smit Machchhar foi um “piloto corajoso”. O comandante encontra-se atualmente num hospital em Tabuk a receber cuidados médicos, tendo a diplomacia de Nova Deli referido que está a recuperar dos “ferimentos”: “Estamos em contacto com a sua família e garantimos-lhes que vamos continuar a acompanhar o seu estado de saúde junto das autoridades sauditas”.

Também o primeiro-ministro de Israel prestou homenagem a Smit Machchhar. “Apesar de ter sido esfaqueado e estar ferido com gravidade, lutou, resistiu e abriu a porta do cockpit. Permitiu que os passageiros e a tripulação conseguissem dominar o atacante — e preveniram uma catástrofe. Ele salvou a vida de 174 pessoas, incluindo cidadãos israelitas”, frisou Benjamin Netanyahu, classificando-o como um “herói”.

Sobre o copiloto com nacionalidade de Omã, as informações mantêm-se escassas. Não é ainda claro se tinha ligações a grupos extremistas ou se agiu isoladamente, apesar de o ministro da Defesa o ter associado a movimentos jihadistas. O Canal 16 de Israel avançou que um dos pilotos que trabalhou com ele o descreveu como um “extremista religioso”, ainda que essa descrição não tenha sido corroborada por nenhuma fonte oficial. Uma das únicas informações confirmadas é que o homem trabalhava na Flydubai há oito meses.

Como o Governo israelita e a oposição reagiram ao acidente

A menos de um mês de os israelitas irem a votos, já existe uma pré-campanha em curso em Israel. Num país que controla rigorosamente a sua segurança aeroportuária, estão a surgir várias interrogações: como foi possível um piloto de nacionalidade de Omã — país sem relações com Telavive — estar ao comando de um voo com destino a Israel?

“Gaza vai rebentar na vossa cara”. Revelações de avisos deixados a Netanyahu sobre 7 de Outubro pairam sobre as eleições

Como lembra o Times of Israel, o Estado judaico “estabelece frequentemente acordos com outros países para impedir que pilotos de determinadas nações voem para território israelita; no entanto, por razões que ainda não foram reveladas, tal não parece ter impedido um copiloto de Omã de pilotar uma aeronave repleta de israelitas em direção a Telavive”.

O caso está a ser investigado. No Governo, algumas vozes estão a apontar para o terrorismo como a causa mais provável do acidente. Alguns ministros, como o da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, escalaram a retórica. Israel deve aumentar a intensidade dos conflitos no Médio Oriente, até “alcançar a vitória total no Irão, Líbano, Gaza, Judeia e Samaria”. Um dos líderes da extrema-direita israelita considera que é “ingénuo” pensar que os “inimigos” de Israel “valorizam a vida”. “Este é outro lembrete de que um terrorista tentou que um avião caísse para assassinar 180 israelitas. Os terroristas são um diabo com o qual nunca se deve fazer acordos.”

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▲ Passageiros da Flydubai chegam a Telavive

AFP via Getty Images

Na oposição, a reação foi mista. O centrista Gadi Eisenkot — um dos principais rivais de Netanyahu nas legislativas de 27 de outubro — sublinhou o “heroísmo e a solidariedade” dos israelitas. Por sua vez, o líder da oposição e chefe do partido Yesh Atid, Yair Lapid, denunciou que o briefing de segurança feito por Benjamin Netanyahu na manhã de quarta-feira não continha qualquer menção — nem mesmo implícita — ao incidente aéreo, levantando sérias dúvidas sobre uma eventual omissão de informação.

Para tranquilizar a opinião pública, o porta-voz de Netanyahu, Doron Spielman, garantiu à agência Reuters que Israel irá reforçar as exigências de segurança na aviação após o episódio no avião da Flydubai. “Como resultado, passaremos a exigir o conhecimento prévio da identidade de todos os pilotos que voem para Israel, sujeitando-os a uma verificação de segurança”, afirmou.

"Como resultado, passaremos a exigir o conhecimento prévio da identidade de todos os pilotos que voem para Israel, sujeitando-os a uma verificação de segurança."
Doron Spielman, porta-voz do primeiro-ministro israelita

“O nosso dever é fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, mesmo quando não se trata de companhias aéreas israelitas. Queremos garantir que os padrões de segurança são levados ao nível mais elevado”, concluiu o porta-voz, assegurando que o incidente será “objeto de um inquérito rigoroso”. Até lá, ainda sobram muitas dúvidas sobre o que se passou neste voo.

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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