Ela era só uma fã que ia aos concertos todos, mas “revelou-se muito mais que isso”, conta António Manuel Ribeiro. Corria o ano de 2003 e, na altura, o vocalista e líder da banda rock UHF estava a gravar um disco. “Saía dos estúdios e passava na Fnac do Fórum Almada para espairecer. Comecei a reparar que estava sempre lá a mesma pessoa. Um dia apanhou-me num espetáculo, foi atrás do meu carro e descobriu onde eu vivia. No dia a seguir, começou a traçar o plano da minha vida”.

A perseguidora alimentou “a ideia de que todas as minhas músicas eram escritas para ela, de que tudo aquilo que eu fazia era para ela”, revela o músico. “Dizia que havia uma relação entre nós. Eu recebia, no mínimo, 30 sms por hora. Assinava ‘Cristina 82′”. O conteúdo? “Primeiro começou com tentativas de sedução. Dizia que nós éramos únicos, tínhamos de ficar juntos, o nosso destino estava traçado nas estrelas. Depois, foi até à ofensa mais grave, ameaças, do pior que se possa imaginar. Mais do que ordinário”. António Manuel Ribeiro tentou desincentivar o comportamento da fã, mas sem sucesso.

“Cheguei a dizer-lhe: por favor, pare com isto.” A seguir, tudo piorou.

A história é contada na primeira pessoa. António Manuel Ribeiro quer que se saiba da história que o atormentou durante anos a fio: “Comecei a reconhecer sempre o mesmo carro em frente à minha casa. Eu chegava à noite depois de um espetáculo e ela já estava lá. Era um Renault Clio cinzento”, prossegue o vocalista dos UHF.

“Tive, durante seis anos, uma perseguição à porta. Ela ligava o alarme do carro, um barulho ensurdecedor, não tinha forma de conseguir dormir. Eu chamava a GNR e ela desligava o alarme, e eles não podiam fazer nada porque era só uma senhora dentro de um carro na via pública”.

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De madrugada, a “stalker” “ia-se embora de táxi para casa e o carro ficava lá. No dia seguinte, voltava e o ciclo repetia-se. Fazia uma enorme gritaria, atirava-me coisas”.

A família já conhecia o carro, porque, a partir de certa altura, também começou a ser perseguida. “A minha filha mais velha e a minha mãe chegaram a apanhar o carro à porta de casa delas. Ela conhecia a minha vida toda. Sabia quando a minha filha tinha nascido e até sabia quando comprei o meu primeiro carro, em 1989. Relatava tudo nos emails que me enviava”.

Como é que a fã sabia estes pormenores? “Não sei. Só contribuiu ainda mais para eu achar que ela já me perseguia há muito mais do que seis anos”, confessa António Manuel Ribeiro.

Perseguição termina aos 160 km/hora

Os impactos na vida do músico começaram a fazer-se sentir. “Deixei de sair à noite, fechei-me na minha vivenda. Isto estoirou com duas relações minhas”, lamenta. “Para ir jantar com a minha namorada, tinha de, primeiro, entrar na estrada para Setúbal, nunca a menos de 160 quilómetros por hora, porque era a partir dessa velocidade que deixava de a ver”.

O vocalista dos UHF compara a sua vida durante este período à de um “agente secreto”. Estava no Algarve “a descansar e ela estava lá, dava concertos pelo país todo e ela estava lá. Sabia o restaurante a que eu ia, o meu banco, o café, tudo”. Numa tentativa de superar os problemas, chegou a responder-lhe às mensagens. “Dizia para ela ganhar juízo e pedia para não me incomodar mais. Os meus amigos diziam-me: ‘Se fosse comigo, eu sei bem como resolvia isso'”. Mas António Manuel Ribeiro nunca partiu para a violência. “Se um dia lhe tivesse levantado um dedo, eu é que ficava como bandido”.

As consequências começaram a manifestar-se a nível da saúde. “Fiquei com um problema gástrico. Chegava a casa depois de um jantar e vomitava tudo. O meu médico explicou-me que a carga nervosa se concentrava toda no estômago e rejeitava tudo. Tinha insónias enormes. Fui a uma consulta psiquiátrica porque achava que já estava a ficar completamente maluco”, explica.

A indiferença da polícia

Por fim, o fundador dos UHF decidiu pedir a intervenção das autoridades, mas ainda teria de enfrentar uma surpresa. “Lembro-me que na primeira vez que fui à polícia, riram-se e disseram: ‘Isso é amor’. Não faziam nada”. António Manuel Ribero afirma que “a lei não é ativa, não há nenhuma especificidade jurídica para as vítimas de ‘stalking’. Nem eu nem as pessoas à minha volta tínhamos proteção”.

O autor de canções como “Cavalos de Corrida” e “Rua do Carmo” chegou a pedir “uma avaliação das capacidades psíquicas da senhora e ela nunca foi convocada para tal. Um dia, completamente irritado com a situação, cheguei a perguntar a um agente: ‘Mas será que eu vou ter de sair do país para isto acabar?'”. A resposta foi elucidativa: “Não sei, se calhar”. O músico descreve a perturbação que a indiferença da polícia lhe causava: aquela “impotência matava-me”.

Felizmente, “ou infelizmente”, o líder dos UHF tinha “muitas testemunhas” do seu lado. “Todo o processo estava documentado, tive de fazer um relatório de tudo o que se passou. A minha advogada disse-me que, no máximo, em duas sessões o caso resolvia-se. Acabaram por ser oito. Lembro-me de, durante os dias de julgamento, ir almoçar com as minhas testemunhas e só o cheiro da comida já me fazia vómitos”, recorda.

Durante o julgamento, “havia datas e momentos que eu já não conseguia precisar. Às tantas estava baralhado no meio de tantos anos”. A “stalker” “usava isso a favor dela” e acusava António Manuel Ribeiro de a perseguir. “Usava a confusão na minha cabeça como uma forma de defesa. Eu só pensava: ‘Quero a minha vida de volta, quero os meus direitos de volta, quero a minha liberdade'”.

Quando o tribunal emitiu o veredicto sobre o caso, a fã foi condenada a pena suspensa de dois anos e a pagar 25 mil euros. “Como não existe legislação específica, o tema é tratado sob várias ‘nuances’. No meu caso, a condenação foi por crimes de ameaça agravada, perturbação da vida privada e um crime de injúria”, conclui António Manuel Ribeiro.

Um dedo “apontado à justiça”

A experiência levou o músico a decidir escrever um livro em que pretende contar o seu caso e denunciar a forma deficiente como, do seu ponto de vista, se lida com este tema em Portugal. “É uma denúncia da forma como isto se trata neste país”.

O músico começou a redigir a obra, que terá 325 páginas, em 2010 e a decisão ajudou-o a superar os traumas. “Serviu para expulsar isto mas, sobretudo, é um dedo apontado à justiça portuguesa”. A partir do momento em que o assunto chegou à opinião pública, “comecei a receber pedidos de ajuda de várias vítimas de ‘stalking’, através do Facebook”, revela António Manuel Ribeiro. “O meu conselho foi sempre para levarem o caso para a justiça, para se fazer mais pressão”.

A “stalker” ainda hoje “nega tudo, diz que é uma cabala contra ela”, afirma o músico. “Eu ainda hoje sofro de ‘stress’ pós traumático. Mudei uma série de coisas na minha vida. Não falo com praticamente ninguém sobre as minhas relações, por exemplo. Lembro-me de estar no ano passado em Paris com um amigo meu, estávamos a passear e pára um carro cinzento ao pé de nós. A minha reação foi a de fugir. E era só um casal a pedir-nos informações”, comenta.

“Antes, ficava gelado sempre que olhava pelo retrovisor e via um carro cinzento. Agora, estou a tentar não olhar mais para trás”.