Prestígio. O dicionário conta-nos que o seu significado está na “importância decorrente de algo ou alguém tido como admirável”. E mais, porque até pode ser “o valor associado às qualidades de algo ou alguém”. E o contrário? Aí, o resumo parece ser mais fácil. Desprestígio: “perda de influência, de autoridade.” Assim chegamos ao fenómeno que Jorge Jesus, técnico do Benfica, diz acontecer a qualquer homem depois de pegar no volante da seleção nacional — “Quem treina Portugal sai de lá desprestigiado.”

A frase surgiu cinco dias após Paulo Bento e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decidirem separar as águas. Ao fim de três anos e 355 dias a mandar, o treinador saiu e para trás deixou uma história com as meias-finais de um Europeu (2012) e a fase de grupos de um Mundial (2014). “Hoje está demonstrado que quem for treinar a seleção, quando sair de lá, sai pela negativa. É um dado que todos temos de registar”, defendeu Jesus. Mas será mesmo?

Na opinião pública, talvez. Mas, nos últimos 20 anos, o percurso que os treinadores seguiram depois do adeus à seleção dirá que não. Com ou sem feridas no prestígio, apenas um entre os sete homens que orientaram a seleção desde 1994 não prosseguiu a carreira numa seleção ou clube de primeira liga. E foi por opção. Aconteceu em 2002 com António Oliveira, que após conduzir a trapalhada asiática no Mundial resolveu não mais voltar a treinar. De resto, não se pode dizer que a profissão de treinador tenha roubado o sorriso aos homens que deixaram de ser selecionadores.

Pelo menos à primeira experiência que tiveram após saírem da seleção nacional. Comece-se por Nelo Vingada, a quem, em 1994, foi pedido que servisse de remendo. Carlos Queiroz abandonara o cargo no final de dezembro de 1993 e a FPF pediu ao seu anterior adjunto para segurar no leme enquanto as águas não acalmavam. Nelo Vingada assim o fez e não deixou o barco abanar — em dois amigáveis somou um par de empates (2-2 frente à Espanha e um 0-0 contra a Noruega).

24 Jan 1996:  Antonio Oliveira the Manager of Portugal during the friendly international game against France. France went on to win the game 3-2.

António Oliveira: 22 jogos, 13 vitórias, cinco empates e quatro derrotas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Até que chegou um substituto e o técnico passou para selecionador dos sub-20, cargo que lhe valeu o papel de condutor da equipa que participaria nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta. Seguiu-se a tal primeira experiência de António Oliveira na seleção. A aventura durou dois anos, dividiu-se por 22 jogos (11 vitórias, cinco empates e quatro derrotas) e terminou com a queda de Portugal nos quartos de final do Europeu de 1996 — no tal golo de Karel Poborsky, lembra-se?

Saído da seleção, António Oliveira não demoraria a encontrar clube. “Entendi dever sair da seleção e ir buscar títulos a outro lado”, disse em 2000, numa entrevista ao Record. Dito e feito. Nesse verão chegaria ao FC Porto, o então campeão nacional que o treinador transformaria em tricampeão, ao conquistar a liga nas duas temporadas em que lá esteve. Na seleção nacional foi sucedido por Artur Jorge. Sem sucesso.

6 Sep 1997:  A portrait of Artur Jorge, the Portugal manager watching his side during the World Cup Qualifier match against Germany at the Olympic Stadium in Berlin, Germany. The match was drawn 1-1.  Mandatory Credit: Phil Cole /Allsport

Artur Jorge: 12 jogos, cinco vitórias, cinco empates e duas derrotas.

Ao fim de 12 partidas com Portugal, o então ex-campeão nacional pelo Benfica e antigo selecionador da Suíça foi embora. A culpa esteve no falhanço em garantir a qualificação para o Mundial de 1998, ao deixar a seleção no 3.º posto do grupo, atrás da Ucrânia e da Alemanha.

Nada que o tenha impedido de aterrar, em novembro de 1997, no Tenerife, clube da primeira liga espanhola — para substituir Victor Fernández, que em 2005 viria a passar pelo FC Porto. Por lá já andavam nomes como o brasileiro Emerson, o holandês Roy Makaay ou o português Domingos Paciência, mas Artur Jorge só aguentaria 14 jogos e, em fevereiro de 1998, sairia do clube.

29 Mar 2000:  Portrait of Portugal coach Humberto Coelho during the International Friendly against Denmark at the Dr Magalhaes Pessoa Stadium in Leiria, Portugal. Portugal won 2-1.  Mandatory Credit:  Nuno Correia  /Allsport

Humberto Coelho: 24 jogos, 16 vitórias, quatro empates e quatro derrotas.

Seguiu-se Humberto Coelho. E bem. Entre 1997 e 200, o treinador que não pegava numa equipa há 11 anos conseguiu apurar a seleção para um Europeu e de lá sair apenas nas meias-finais. Perdeu com a França, a então campeã mundial, depois da mão de Abel Xavier dar um penálti para Zidane marcar. Assim que a partida terminou, Humberto acenou com o adeus. “Vem aí a fase de qualificação para o Mundial 2002 e a Federação precisa começar a trabalhar nesse objetivo, pelo que tem de haver tempo para escolher o novo selecionador”, disse, na conferência de imprensa.

Em três anos e 24 jogos a dar ordens, o selecionador conseguiu vencer 16 encontros, empatar quatro e perder outros quatro. Um pecúlio que, em outubro, o fez chegar à seleção de Marrocos, então uma das mais fortes do continente africano — e com a qual falharia a qualificação para o Mundial de 2002. Para o substituir, a FPF foi pouco original — chamou de volta António Oliveira.

6 Jun 2001:  Portugal coach Antonio Oliveira looks on during the World Cup 2002 Group Two Qualifying match against Cyprus played at the Estadio Jose Alvalade, in Lisbon, Portugal. Portugal won the match 6-0.  Picture taken by Nuno Correia  Mandatory Credit: Allsport UK /Allsport

António Oliveira: 22 jogos, 13 vitórias, cinco empates e quatro derrotas.

Em dois anos, o técnico levou a equipa até ao Campeonato do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, onde Portugal não passou da fase de grupos. Resultado: o treinador saiu. E despediu-se de vez, pois não mais voltou a orientar qualquer equipa. E desta vez a solução foi ambiciosa. A federação seduziu Luis Felipe Scolari, um recém-sagrado campeão do Mundo pelo Brasil, para também tentar guiar Portugal até aos títulos.

Enquanto o Sargentão não chegou, contudo, foi o ex-adjunto de António Oliveira que tomou as decisões na seleção. Fê-lo durante pouco mais de dois meses, entre setembro e novembro de 2002 e, tal como Nelo Vingada em 1994, também não perdeu. Dos quatro encontros amigáveis que passaram pelo seu comando, a seleção somou duas vitórias (2-0 à Escócia e 2-3 contra a Suécia) e dois empates (1-1 diante da Inglaterra e outro 1-1 com a Tunisia). Assim que Scolari chegou, Agostinho passou a tomar conta dos sub-21, equipa que orientou até 2006.

The coach of the Portuguese national football team Luiz Felipe Scolari gestures during a training session on June 18, 2008 in Basel on the eve of the Euro 2008 football championships quarter-final match Portugal against Germany. Portugal will revert to the line-up that beat Turkey and the Czech Republic in their first two matches at Euro 2008 for Wednesday's quarter-final against Germany, coach Luiz Felipe Scolari revealed on the eve of the match.  AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI (Photo credit should read FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images)

Luiz Felipe Scolari: 74 jogos, 42 vitórias, 18 empates e 14 derrotas.

E com o brasileiro no comando, a seleção cheirou os títulos. No Europeu de 2004 chegou à final e viu a Grécia fazer a desfeita a um país na final da prova. Dois anos volvivos e saiu do Mundial da Alemanha no quarto lugar, antes de se ficar pelos oitavos de final do Euro 2008. Foram seis anos feitos com 74 jogos, 42 vitórias, 18 empates e 14 derrotas. Após a despedida do brasileiro, a FPF pegou pela segunda vez em Agostinho Oliveira para tapar um buraco.

E, desta vez, o técnico até apareceu nos primeiros dois encontros da qualificação para o Mundial de 2010 — um empate (4-4) caseiro com o Chipre e uma derrota forasteira (1-0) frente à Noruega. Depois, quando a seleção arranjou outra companhia, Agostinho seria apontado como coordenador técnico da formação do Sporting de Braga, cargo é seu até hoje. Seguiu-se a era de Carlos Queiroz, que já orientara Portugal entre 1991 e 1993. O treinador conseguiria puxar a equipa para a Copa da África do Sul, onde a seleção aguentou até se encontrar com a Espanha, nos oitavos de final. Finda a participação no Mundial, Queiroz saiu para Paulo Bento chegar.

Portugal's coach Carlos Queiroz yells instructions at his players during the Group G first round 2010 World Cup football match Portugal vs. Brazil on June 25, 2010 at Moses Mabhida stadium in Durban. NO PUSH TO MOBILE / MOBILE USE SOLELY WITHIN EDITORIAL         AFP PHOTO / ANTONIO SCORZA (Photo credit should read ANTONIO SCORZA/AFP/Getty Images)

Carlos Queiroz: 26 jogos, 15 vitórias, oito empates e três derrotas.

E foi para a seleção do Irão, talvez a mais forte da Ásia. Pediram-lhe a qualificação para o Mundial de 2014 e o português cumpriu. Ficou-se pela fase de grupos, o suficiente para continuar no cargo. Paulo Bento, entretanto, já não está no que ocupava desde a saída de Queiroz. A 11 de setembro a FPF revelou que, por “decisão conjunta”, o treinador já não era o selecionador. “O Paulo Bento levou tiros de todos os lados”, lamentou na segunda-feira Jorge Jesus, ao falar do tal desprestígio que diz acompanhar cada homem que sai do comando da seleção nacional.

Agora é esperar e ver qual o clube (ou a seleção) que acolherá Paulo Bento.