João van Zeller está há muitos anos ligado à Escócia por razões familiares e por ter a paixão do golfe. Encontra-se por estes dias na região, em St. Andrews, e tem seguido com interesse e paixão as campanhas para os dois referendos de dia 18: o sobre a independência da Escócia e o que está a dilacerar os sócios do mais antigo e prestigiado clube do golfe do mundo, o Royal & Ancient Golf Club of St. Andrews (R&A), que terão de decidir se vão ou não permitir que mulheres possam entrar para sócias. Tem vindo a escrever um diário cujas últimas páginas está a partilhar com os leitores do Observador. Penúltima entrada, a 24 horas do referendo:

 

Terça-feira foi de nevoeiro e chuvinha miúda em St Andrews, um dia em que, à ida para o campo, os golfistas comentavam, impressionados, o dramático apoio de última hora dado ao NO por Bill Clinton. Ao mesmo tempo, alguns dos sócios canadianos do R&A, vindos expressamente de Toronto e Montreal para este torneio, exibiam páginas do principal jornal do seu País, o Globe and Mail, com tiragem de um milhão de exemplares, em que o editorial é um apelo emotivo e pungente aos primos escoceses para que votem NO.

Mas, uma vez em jogo, os jogadores do R&A que estão a disputar o Medal no Old Course, não puderam pensar mais nem nas mulheres, nem no YES ou NO, mas apenas na bola de golfe e no swing. De outro modo arriscariam resultados deprimentes que iriam afectar a clarividência nos YES e NO com que têm de lidar amanhã em duas frentes.

A brisa de sudoeste era suave, e os primeiros a sair completaram os 18 buracos em apenas três horas e quinze minutos. Neste quase Inverno, frio e cinzento, viu-se uma senhora a atravessar o campo de golfe em fato de banho, para ir dar umas braçadas a um mar eriçado. Os jogadores em campo ficaram imperturbáveis, mas perplexos, com a visão da avis rara. Lá no topo do telhado do Clubhouse do R&A vi outra avis, neste caso um corvo, a experimentar todos os braços do catavento, Norte, Sul, Leste e Oeste, certamente para ver a direção para onde lhe calha melhor voar no furacão que pode soprar amanhã. E durante o jogo, uma gaivota roubou a sanduíche que o meu parceiro pousara no saco de golfe, enquanto esperávamos para sair do buraco nº10. Historietas do Old Course, hoje numa bonança, antes da possível tormenta de amanhã.

Tormentosa foi a ida a Edinburgo de Ed Miliband, líder do partido trabalhista que, tal como Nick Clegg, liberal, e o primeiro ministro conservador David Cameron, estão a fazer os últimos 100 metros a dar tudo por tudo para manter a União. Miliband viu o lado negro da campanha ao ser corrido e obrigado por uma multidão hostil e a favor do YES a desaparecer para parte incerta.

Os escoceses, que são gente com mais veludo no tratamento com estrangeiros do que os ingleses, na realidade podem transformar-se em feras desembestadas, num exército esfarrapado, “à la Braveheart”, em que a doçura não é a tónica. Por exemplo, o movimento Siol nan Gaidheal (pode-se traduzir como “semente gaélica”), que está ligado à campanha do Yes, interrompe violentamente campanhas do No, considerando-se como parte da verdadeira e única etnicidade escocesa, ultra-nacionalista, e criticando ferozmente os colonos brancos (os ingleses).

Nestes nacionalismos exacerbados é interessante ver como a palavra Pátria se tornou num anátema para tantos seres bem pensantes, dizimados por PRECs de diversa natureza, que obrigam tanta gente a pedir desculpa por suspeitar que “Pátria” ainda é um valor, e que a história da Pátria é uma vergonha, um reaccionarismo, um quase fascismo. Ora, apesar dos tons radicais e progressistas dos escoceses envolvidos na empolgada e emotiva campanha pelo YES, eles afirmam-se enfaticamente como parte de uma Pátria nacionalista, e orgulhosos da sua história.

Num tom mais suave, o Scottish National Party, o SNP de Salmond, tem claramente usado do bullying em relação aos partidários do NO, em muitas circunstâncias. Nunca se pensou que Salmond se atrevesse a tentar “torcer o braço” à reitora da Universidade de St Andrews, que verbalizara os impactos adversos da independência da Escócia. Não contente, Salmond tentou posteriormente, com ameaças veladas, obter dela declarações favoráveis ao YES. Apesar de se conhecer o peixe escorregadio que é Salmond, nunca ninguém esperara que ele fosse capaz deste golpe à sua Alma Mater, onde estudou economia e história medieval. As relações da Universidade de St Andrews com o R&A são excelentes, havendo distintos professores (excelentes golfistas, claro) que participam nos órgãos de governação do clube. Mantêm-se distâncias, evidentemente. Mas este tiro de canhão nos veneráveis 603 anos de vida daquela Instituição, causou um levantar de sobrancelhas.

Os YES, que contavam nestes dias ver Sean Connery por estas bandas, ficaram decepcionados. James Bond, que de nada tem receio, e obviamente quer mulheres no R&A, é prudente com o resultado financeiro de uma carreira brilhante que lhe acumulou tesouros longe da sua amada Escócia com a ajuda da denominada “eficácia fiscal”. Sendo um exilado fiscal nas Bahamas, sabe existirem por isso riscos se aparecer por aqui. A menor credibilidade moral que a circunstância lhe acarreta torna-o prudente, e fá-lo ficar longe da campanha e de uma causa que lhe é cara. E os partidários do NO clamam que Sean Connery, para se manifestar como manifestou a favor do YES, devia ter pago dívidas fiscais sobre os milhões que tem adormecidas pelos calores tropicais.

Parece que 91% dos votantes vão acorrer às urnas, sendo que apenas 1% se irão abster voluntariamente. Ontem as sondagens davam ao NO 52%, e ao YES 48%. Cerca de 8% dos votantes mantinham-se ainda indecisos. Mas os sinais são de que o peso do voto das mulheres pode fazer inclinar a balança. Entre elas, 58% estavam ontem a favor do NO, 42% a favor do YES. Se assim for, talvez os sócios do R&A lhes tenham de mostrar a sua gratidão.

E o baile anual dos empregados do Palácio de Balmoral, onde a Rainha passa normalmente parte do Verão, foi adiado de quinta-feira – há anos que é na penúltima quinta-feira do mês de Setembro – para sexta, 19. A causa nada tem de dramático. A mudança da data tem unicamente por fim não desviar as atenções dos participantes do baile do dever do voto no dia 18.

 St Andrews, na Escócia, 17 de Setembro 2014

João van Zeller é advogado e empresário