Um aviso prévio: talvez seja melhor colocar as caneleiras para ler este artigo. E capacete, já agora, que Roy Keane está a disparar em todas as direções. José Mourinho foi o último visado, por um gesto que teima em repetir há anos: abandonar o relvado antes do final da partida. E foi exatamente isso que fez no sábado passado, dia 27 de setembro, em Stamford Brige. O adversário era o Aston Villa de Paul Lambert e do adjunto Roy Keane, o antigo capitão do Manchester United.
Oscar, Diego Costa e Willian já tinham derrubado o impotente Villa e selado os três pontos. Era impossível haver surpresas. Muito perto do apito final de Phil Dowd, Mourinho deslocou-se uns metros e foi despedir-se de Lambert, que quase estendeu a mão mas lá se arrependeu, apontando para o relógio, como quem diz “ainda não acabou”. O português aceitou e fez uma carícia no ombro de Keane, à espera de troco. Nada. O antigo médio estava de braços cruzados e assim ficou. Os olhos não desviaram da bola nem por uma fração de segundo. Gélido, implacável e imperturbável, como tantas vezes foi, enquanto jogador, na hora de cortar um lance ou virar do avesso o rival.
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“O jogo ainda estava a decorrer. É uma vergonha. Eu vi-o fazer isso a outros treinadores, é uma vergonha. Não faria aquilo a um domingo de manhã ou então seria esmurrado”, afirmou Keane durante esta semana. Desconfiamos que alguém não é lá muito fã da música “Easy like Sunday morning”…
Se o bom humor do irlandês é algo velhinho, velhinho e com barbas, agora junta-se um outro fator que o ajuda a estar no centro da atenção mediática. Falamos da autobiografia do ex-jogador, “Roy Keane, The Second Half”, que já está à venda e que, como não podia deixar de ser, está a dar que falar.
Antes de Mourinho, e da sorte de não ser domingo de manhã, um outro português esteve perto de sentir o calor do punho de Keane. A história remonta a 2002/03, quando Carlos Queiroz assumiu o cargo de braço direito de Alex Ferguson. Essa aventura não duraria muito, pois acabaria por receber um convite para treinar o Real Madrid. A estadia na capital espanhola não duraria mais do que um ano, acabando por voltar a Old Trafford para junto de Ferguson.
“Ele [Queiroz] estava atrás de mim, nem sei como não lhe bati. Estávamos numa vila em Portugal e ele, subitamente, além de não me tratar bem nos treinos, veio falar-me na palavra ‘lealdade’. Eu disse-lhe: ‘Não venhas falar de lealdade. Deixaste o clube há uns anos atrás para ir para o Real Madrid. Não questiones a minha lealdade. Tive oportunidade de ir para a Juventus e para o Bayern Munique’.”, conta Keane, na sua autobiografia.
Se até aqui ninguém tocou em ninguém, a cantiga muda de tom com Peter Schmeichel, o guarda-redes dinamarquês com quem jogou vários anos em Manchester. Numa pré-temporada, em 1998, na Ásia, os dois jogadores trocaram agressões. Segundo o ex-médio, foi em Hong Kong e meteu algum álcool pelo meio. “Ele disse-me: ‘Estou farto de ti, está na hora de resolvermos isto’. Eu concordei e começámos à pancada. Pareceram dez minutos! (…) Lembro-me que acordei no dia seguinte e mal me recordava da pancadaria. A minha mão ainda me doía e um dos meus dedos estava torcido”, recordou Keane no livro.
Outra polémica aconteceu com o ex-treinador Alex Ferguson, que chegou a dizer que a parte mais dura do corpo do antigo médio era a língua. “Pode debilitar a pessoa mais confiante do mundo em segundos com a língua”, pode ler-se na autobiografia do escocês — “Alex Ferguson: My Autobiography”, lançada em 2013. Nesse livro, acusava ainda o antigo capitão do United de não saber o que era lealdade. O ex-jogador não gostou e acusou-o de mentir e de ser ingrato com quem o ajudou a chegar ao topo.
“Se o vou perdoar? Não sei. O futebol é um mundo pequeno e eventualmente poderás cruzar os caminhos novamente. Tivemos os nossos desentendimentos… mas o problema vem depois quando começam a dizer coisas sem sentido. Tivemos uma grande equipa que entreteve muita gente. (…) Fez milhões, teve a sua estátua, uma bancada recebeu o seu nome, mas criticar aqueles que o ajudaram a chegar ao sucesso é errado”, disse Keane, esta semana.