Durante mais de três anos de Governo, Miguel Macedo foi um ministro político, a tentar gerir equilíbrios num tempo de austeridade. Esteve muitas vezes do lado de Paulo Portas e outros ministros, contra as medidas que julgava geométricas (e pouco políticas) impostas por Vítor Gaspar. Também fez o contrário, telefonando incessantemente a Paulo Portas na crise política de 2013, para segurar o então MNE e, de caminho, tentar evitar a queda do Governo.

Fiel a Passos, mostrou-se sempre mais social-democrata. Mas não desalinhou nunca da voz oficial: dizia que a austeridade imposta tinha sido fruto de uma circunstância, a falta de financiamento do Estado, aceitando os cortes, alguns (nem tantos como outros ministérios) que as Finanças lhe iam impondo.

Mas negociou sempre. Foi assim com os polícias, que tinham suspenso desde os tempos de Sócrates uma subida de categoria (e, portanto, de salários), que conseguiu ir repondo. Depois também na revisão dos suplementos, que o secretário de Estado da Administração Pública tentou incluir no Regime Geral e a que o MAI conseguiu atribuir um estatuto especial – que ainda não está fechado. Foi assim também com a extinção da Empresa de Meios Aéreos, que Macedo foi fazendo – e que acabou por só formalizar no fim deste verão, depois de mais uma época de combate aos incêndios particularmente tranquila.

Também com a oposição, a palavra de ordem era negociar. Macedo teve até António José Seguro ao seu lado, no início da época de fogos, na sede da proteção civil. Dois anos seguidos, para evitar críticas posteriores.

A maior crise que teve que gerir foi, aliás, a dos polícias que vieram protestar contra os cortes, à frente da Assembleia. Aí teve que mostrar mão dura: autorizou uma carga policial contra a invasão das escadarias da Assembleia. O caso deu polémica, com instauração de processos disciplinares – mas Macedo nunca deixou sequer os relatórios virem a público, para evitar agitação nas forças policiais. Depois teve outra luta, com a CGTP, que marcou uma manifestação na Ponte 25 de abril contra a austeridade. Macedo encontrou maneira de o proibir, pedindo pareceres vários, até da Lusoponte, para ter maneira de o justificar. A manif acabou por não se fazer ali.

Na última quinta-feira, vieram notícias a público sobre uma divergência com a sua amiga Paula Teixeira da Cruz. A ministra da Justiça tentou levar a Conselho de Ministros um diploma que concentrava na PJ as escutas judiciais, mas a oposição de Macedo terá adiado o diploma.

Influente, discreto q.b., Macedo ia dizendo nos corredores que já tinha feito o que era preciso para estabilizar o MAI. Nunca, porém, terá pedido para sair do Governo até esta semana, quando apareceu o caso dos vistos Gold.

Antes deste Governo, Macedo já tinha sido líder parlamentar (quando Passos chegou ao PSD), onde liderou uma bancada cansada de José Sócrates. Antes disso, tinha estado com o amigo Marques Mendes na direção do partido. Antes ainda, foi secretário de Estado da Juventude e da Justiça, ao lado de Aguiar Branco. Foi também autarca, na assembleia municipal de Braga. Agora, sai do Governo, com vários amigos envolvidos no caso dos vistos Gold. Marques Mendes, um dos seus mais próximos, quase o anunciara no sábado na SIC: ele não está apegado ao poder”.