O currículo é todo na área da justiça. Poucas foram as vezes que falou em público ou que deu entrevistas e quando o fez foi, em algumas vezes, para defender o “bom nome” ou explicar polémicas. Em 2009 demitiu-se do Centro de Estudos Judiciários e um ano depois viu o seu nome ser rejeitado para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Aos 60 anos é a nova ministra da Administração Interna, a primeira mulher no cargo e é no topo que quer as mulheres a mandar.

“Acho que o mundo está a mudar, quando as mulheres chegarem aos tribunais superiores numa percentagem igual ou maioritária em relação à dos homens, a justiça sofrerá uma evolução, será necessariamente diferente”, disse Anabela Rodrigues numa das poucas entrevistas que deu quando assumiu o cargo de diretora do Centro de Estudos Judiciais (CEJ). Na mesma entrevista ao Público, a ministra acrescentava ainda que não tinha a ver com a formação entre mulheres e homens, mas sim com uma visão e sensibilidades diferentes. “A forma de olhar para a vida e de interpretar a realidade social é diferente. O homem e a mulher são diferentes na sua forma de abordar a vida e a aplicação do direito é uma forma de abordar a vida”, disse.

De resto, a ministra que vai ser esta quarta-feira empossada, travou guerras enquanto diretora do CEJ. Quando chegou à instituição queria alargar o tempo e as áreas de formação dos futuros magistrados. Mais tarde propôs também alterações no ingresso na carreira de magistrado.

Mas o início da carreira à frente do CEJ não começou bem. Quando foi nomeada por Aguiar-Branco, de quem é amiga e a partir de agora colega de Governo, Anabela Rodrigues provocou uma onda de demissão de juízes formadores por não ser magistrada. Na altura, desvalorizou a polémica dizendo que a posição dos formadores tinha sido tomada pelo facto de ela não ser magistrada e não por uma posição pessoal. Ficou por lá cinco anos e saiu a uma semana das eleições de 2009 devido a uma guerra com o ministro da Justiça do PS, Alberto Costa. A relação nunca foi das melhores e a rutura deu-se por causa de um curso especial de apenas 10 meses para formação de magistrados. Na altura, Anabela Rodrigues garantiu que não se tratava de nenhum “equívoco”, mas sim do facto de já ter cumprido “os objetivos” à frente do CEJ.

Quase dez anos depois, volta a ser nomeada para um cargo, desta vez para ministra da Administração Interna, mas todo o currículo que tem é na área da Justiça.

Mas antes disso, Anabela Rodrigues viu-se a braços com outra polémica. A lista com os nomes propostos por Portugal para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), da qual fazia parte, foi rejeitada pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, por “falta de qualidade”. Anabela não gostou e convocou uma conferência de imprensa onde disse estar “indisponível” e que o facto de a decisão ter sido tomada “em bloco” e não “pessoalizada” colocou em causa “o bom nome e reputação profissionais”.

Com esta nega para seguir para o TEDH, Anabela Rodrigues ficou em Coimbra onde acabou a dirigir a Faculdade de Direito. No currículo, a jurista tem ainda outra medalha: a de ser a primeira mulher a doutorar-se, em 1995, na Faculdade de Direito em Coimbra.