Portugal “conseguiu uma coisa extraordinária”: criar a CPLP, depois de uma guerra colonial de 13 anos, considerou o professor, especialista em relações internacionais, que foi ouvido terça-feira pela comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, sobre o tema “A renovação do conceito estratégico nacional e o mar”.

Apesar de a ideia da criação desta organização lusófona ter sido portuguesa, “quem organizou a CPLP foi o Brasil, não foi Portugal”, disse, acrescentando que o organismo merece “uma grande atenção”. “Aquilo que reúne a CPLP é a língua e a comunhão de afetos”, disse Adriano Moreira, que lembrou que foi também por iniciativa do Brasil que foi criado, no âmbito da CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa. O académico considerou ser evidente uma postura típica de Portugal, que disse ser o “descaso, o deixa-andar”.

A deputada do PSD Ângela Guerra, membro da Assembleia Parlamentar da CPLP, lamentou que hoje “uma das maiores dificuldades” deste órgão seja “a não participação do Brasil”, o que “causa enormes dificuldades”.

“Tenho reparado que nos últimos tempos há um certo afastamento do Brasil em relação a Portugal, mas Portugal não tem tomado medidas quanto a isso”, comentou Adriano Moreira. O professor recordou que “a delegação portuguesa, de que faziam parte o Presidente da República, o primeiro-ministro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o embaixador, foi a Timor [à cimeira da CPLP, em Díli] e sentou-se o representante da república da Guiné Equatorial”, país que aderiu como membro de pleno direito do bloco lusófono nessa reunião.

“Eles não sabiam, já tinha sido eleito. Mas não vi ninguém alarmado com isso. Eu estou, porque significa mais uma vez que o ‘descaso’ é aquilo que mais domina a atenção portuguesa em relação a problemas vitais. Isto não pode acontecer e quando acontece não pode ficar sem uma palavra, perguntar como é que é. Não pode continuar assim”, criticou.

Sobre a posição do Brasil, Adriano Moreira afirmou que “há uma diretiva da presidente [Dilma Rousseff] para que os estudantes não venham aqui fazer as pós-graduações, ela quer que eles vão aos Estados Unidos”. “A tendência do atual governo brasileiro não é para deixar fortalecer a posição portuguesa”, acrescentou.

Sobre a CPLP, o professor disse mesmo que, depois de conversas com senadores brasileiros, ter ficado com a impressão de que “o projeto não é só para a república da Guiné [Equatorial]”, mas “é muitíssimo mais vasto”. “Quanto mais vasto for, mais a nossa posição é diminuída, sobretudo se continuarmos descuidadamente a olhar para a evolução deste problema”, defendeu.

Adriano Moreira defendeu ainda que Portugal, “um país fraco”, precisa de “um instrumento diplomático muito forte”. “Precisamos de prestar uma grande atenção ao reforço do instrumento diplomático. Tivemos sempre muito bons diplomatas, provavelmente a articulação faltou”, referiu.

Durante a sua intervenção, o professor considerou que Portugal não tem conceito estratégico, tal como a União Europeia (UE). “Ficámos a pensar que a Europa é que era, exclusivamente, o objetivo. Esquecemo-nos que Portugal não tem obrigações apenas com a UE. Tem também com as Nações Unidas, com a Organização Internacional do Trabalho”, exemplificou.