Morcegos que se alimentavam de insetos que viviam numa árvore oca numa aldeia remota na Guiné-Conacri podem ter sido a fonte da maior epidemia de sempre do vírus do Ébola, disseram esta terça-feira cientistas.

Mais de 20.000 casos de Ébola, com pelo menos 7.800 mortes, foram registados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde a morte de um rapaz de dois anos, na aldeia de Meliandou, em dezembro do ano passado.

Em declarações ao jornal EMBO Molecular Medicine, uma equipa de cientistas liderada por Fabian Leendertz, do Instituto Robert Koch, em Berlim, investigaram as circunstâncias relacionadas com a morte da criança.

As suspeitas apontam para morcegos insetívoros sem cauda – ‘Mops condylurus’, em latim – que viviam numa árvore oca a 50 metros de distância da casa do rapaz.

“A proximidade de uma grande colónia de morcegos sem cauda criou uma oportunidade para a infeção. As crianças apanhavam e brincavam frequentemente com morcegos nesta árvore”, disse a equipa, depois de um inquérito exaustivo de quatro semanas realizado em abril.

O vírus do Ébola aloja-se num ambiente natural, também chamado de reservatório, entre animais selvagens, sem afetá-los.

O virus pode infetar humanos que entrem em contacto com esta fonte diretamente ou indiretamente através de contacto com animais que tenham adoecido.

Altamente contagioso, o vírus é transmitido entre humanos através de contacto com fluídos corporais.

Um reservatório conhecido é o morcego que se alimenta de fruta (‘Epomophorus wahlbergi’), uma espécie amplamente disseminada na África tropical amplamente disseminada, que em alguns países é morto para servir de alimento, transmitindo infeções aos caçadores e carniceiros deste mamífero.

No entanto, o papel desta espécie de morcegos na epidemia atual nunca foi confirmado, segundo os cientistas.

Pelo contrário, testes em laboratório demonstraram que os morcegos sem cauda, uma espécie prima, podem transportar o vírus sem adoecer, o que os tornaria também reservatórios, mas nunca foi encontrada qualquer prova disto na natureza.

A equipa alemã afirmou que as provas de que esta espécie ajudou a espalhar o atual surto eram fortes, mas não a 100 por cento.

Além de brincarem com os morcegos na árvore, as crianças locais também caçavam estes animais e grelhavam-nos em casa para se alimentar.

Os investigadores não encontraram na região provas de qualquer mortandade entre mamíferos maiores, que poderiam ter sido uma fonte secundária de infeção para as pessoas.

Por outro lado, não foi encontrado qualquer vestígio de vírus do Ébola em nenhum dos morcegos que os cientistas capturaram e cujo sangue foi analisado.