“Enquanto há extremistas que fazem coisas malucas, nós aqui servimos sopa para todos.” Estas foram algumas das palavras do Imã Sheik David Munir da Mesquita Central de Lisboa, durante a Salatujummah (sermão semanal), lembrou Kareem Saleh, 19 anos, nesta sexta-feira. A sala estava apinhada, como é costume.

Esta noite há “sopa dos pobres”, uma iniciativa da comunidade para com a população necessitada que mora nas redondezas da mesquita. Não importa a religião. Está um frio cortante e o sol está prestes a desaparecer do horizonte, por volta da seis da tarde. Kareem leva as mãos à boca e tenta aquecê-las com a respiração. A porta da Mesquita está brilhante do verniz, apesar da pouca luz, mas notam-se algumas pequenas manchas azuis.

A Mesquita Central de Lisboa, em São Sebastião, foi nesta sexta-feira alvo de um ato de vandalismo, com os agressores a pintarem 1143 em números grandes na porta principal e numa parede lateral da fachada da mesquita – o ano em que D. Afonso Henriques assinou o Tratado de Zamora com o seu primo D. Afonso VII, a data da independência de Portugal. O ato terá acontecido entre as 07h00 e as 08h00 da manhã e foi a própria polícia a alertar os responsáveis da Mesquita.

A pintura 1143, segundo terá dito a polícia aos responsáveis da Mesquita, pode ser um código utilizado por grupos neonazis. “A PSP é que nos disse que é de um xenófobo, um grupo neonazi, mais que isso não sabemos. O agente da PSP é que disse que é o número que os neonazis utilizam”, disse David Munir ao Observador.

A última oração do dia, às 19h30, é da responsabilidade do Sheik Fouhad. “Há muito tempo, encontrávamos mensagens contra muçulmanos nas entradas do metro”, conta. Quanto ao que se passou no dia de hoje, não dá qualquer importância. “Malucos.”

Depois da Salatujummah, às 14 horas, muitos dos crentes vão-se embora para as suas casas. “A maioria mora longe do centro de Lisboa”, explica Kareem. Por isso, quando chegamos à mesquita já só encontramos umas 30 pessoas que ficaram para a última oração do dia. E como os números foram logo apagados após o ato de vandalismo, muitos dos que chegaram depois do sermão de sexta-feira nem sabem do que se passou, como foi o caso de Mustafa. “Isso aconteceu por causa de França. Mas as pessoas esquecem-se que eles [terroristas] não são o Islão”, afirma.

Tanto Kareem como para Mustafa os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo serem franceses é algo intrigante, sem sentido. Ainda assim, aproveitam para lembrar que no Islão, “é pecado” desenhar Maomé. “As imagens são algo que o Homem faz, mas Deus não pode ter forma física”, explica Kareem, olhando para o amigo mais velho, procurando aprovação. Fazer piadas sobre Maomé? “Nunca. Nem sobre qualquer outra religião.”

Entusiasmam-se com a conversa e, rapidamente, entram num debate quase conceptual do que é ser muçulmano. “Os terroristas [da mercearia] não podem ser muçulmanos, porque, durante o dia, não pararam para as orações”, argumenta Kareem.

Apesar de todas as confusões que possam vir a surgir destes ataques terroristas e atos de vandalismo, Mustafa e Kareem mostram-se otimistas. “Há uns tempos vi um tweet que dizia: Li o Alcorão para saber mais sobre os terroristas e acabei convertida ao Islão”, diz.

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