Esta quarta-feira, João Reis e Ana Nave sobem ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, para darem voz a O’Neill. Mas, na peça que estará em cena até dia 1 de março, os dois atores não interpretarão Alexandre, nem Nora Mitrani, a surrealista francesa considerada um dos grandes amores da vida do poeta e musa de “Um Adeus Português”, nem Noémia Delgado, a sua primeira mulher.

Isto porque, Portugal, Meu Remorso, não é uma adaptação da obra Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária (Dom Quixote), apesar de a sua autora ser a responsável pela dramaturgia da peça que estreia amanhã em Lisboa. “Pôr um O’Neill em palco seria muito complicado”, disse ao Observador Maria Antónia Oliveira, que em 2007 escreveu a primeira grande biografia do poeta português, sendo depois desafiada pela atriz Ana Nave para criar um espetáculo teatral partindo da poesia, da prosa e das cartas de O’Neill. Maria Antónia Oliveira aceitou e tentou “escapar ao lado biográfico”. O resultado é, nas palavras da própria, “uma peça que só se define pelo que não é. Não é uma narrativa. Não é uma biografia. Não é um recital de poesia”.

O ator João Reis, que tinha um projeto para encenar O’Neill na gaveta, foi também contactado pela atriz Ana Nave e juntos construíram o espetáculo baseado na seleção de Maria Antónia Oliveira e na admiração conjunta pelo poeta. “Esta coincidência maravilhosa permitiu-nos juntar duas pessoas que tinham o mesmo desejo de fazer um espetáculo a partir da obra do O’Neill“, disse João Reis ao Observador.

O espetáculo Portugal, Meu Remorso não obedece a uma ordem cronológica ou narrativa. Nem mesmo a ordem dos versos foi mantida. “Permiti-me a liberdade de cortar poemas e intercalá-los com cartas”, explicou Maria Antónia Oliveira. Mas vários elementos poderão servir de fio condutor a uma peça onde não existe cenário e onde as palavras de O’Neill “comunicam” com linguagens como o vídeo, a música e a luz, disse João Reis. “Uma narrativa invisível”, nas palavras do ator, “quase impercetível”, segundo Ana Nave. De acordo com Maria Antónia Oliveira, há “ideias que se prolongam de um poema para o outro”.

Talvez a chave da coesão da peça resida, precisamente, na voz de O’Neill. “Somos contaminados pelo espírito da criatura”, disse João Reis, referindo-se ao “espírito de liberdade, de insubmissão e de cavaleiro solitário” que encontrou no poeta e que lhe permitiu desenvolver uma “grande empatia e identificação”. Essa contaminação traduziu-se num “desejo enorme de liberdade”, ponto de partida para a criação. Beber os valores de O’Neill para interpretá-lo com o distanciamento devido. Nas palavras de João Reis: “Sem expectativas do que pode ser a cabeça do O’Neill. Dar o nosso cunho pessoal. Interpretá-lo com a nossa visão e o nosso olhar”. E é a existência dessa empatia e dessa subjetividade que permite, segundo o ator, pôr em cena poesia, contrariando o conceito de um recital.

Também o amor de O’Neill pelo país – essa questão que o poeta tem com ele próprio – contaminou Ana Nave e João Reis e transbordou para a peça que utiliza como título o penúltimo verso do poema “Portugal” de O’Neill. Assim, e apesar de tanto os atores como a dramaturga rejeitarem a existência de uma mensagem subliminar por detrás de Portugal, Meu Remorso, a peça está cheia, segundo Ana Nave, desse “amor não retribuído por Portugal” que O’Neill soube pôr em versos que “nos juntam a todos”, e que continuam atuais. Versos como “esta pequena dor à portuguesa/tão mansa quase vegetal” que “fazem muito sentido neste Portugal pequeno e cheio de remorsos sobre si próprio, parado quase”, explicou a atriz. Para João Reis, “pôr O’Neill em cena”, sentir com ele “empatia e cumplicidade” é, na verdade, “uma atitude política” ao traduzir a “relação de amor/ódio” que os portugueses mantêm com Portugal.

O’Neill apaixonado em cartas inéditas

Quem assistir à peça poderá ouvir ler excertos de cartas inéditas escritas pelo poeta “moreno português, cabelo asa de corvo”. Depois de escrever a biografia de Alexandre O’Neill, a autora foi contactada por muitas pessoas que lhe entregaram material sobre o poeta. No meio desse material estavam algumas cartas não publicadas e que Maria Antónia Oliveira gostaria “muito de ver editadas em Portugal”.

Sobre estas cartas, Maria Antónia Oliveira sublinhou que não se tratam de “poemas, nem prosa”, mas de correspondência não publicada. A autora não quer, para já, revelar o destinatário dessas cartas, dizendo apenas que nelas encontrou O’Neill a escrever a várias mulheres. Um O’Neill “muito apaixonado”, “que se entrega muito” e que “é capaz de tudo”, disse ao Observador a escritora.