Esta é uma das possibilidades avançadas por esta professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), autora do capítulo “O Ártico no século XXI – Geopolítica e Guerra”, do livro “Em Caso de Guerra”, que vai ser apresentado hoje, em Lisboa.

“Raramente equacionamos a nossa importância geoestratégia, a não ser no quadro da NATO”, a qual está com problemas, como se vê pelo caso das Laje, disse. Porém, “esta perspetiva é errada, porque se se olhar para o mapa, vê-se que Portugal está muito próximo do Ártico e, tanto Açores como Madeira, têm importantes ativos que podem ser potenciados, se houver vontade política efetiva”, comparou.

Capacidades de investigação e desenvolvimento nas ilhas atlânticas, transportes turísticos e portos, designadamente o de Sines, são alguns dos ativos portugueses que poderiam beneficiar com a abertura de novas rotas pelo Ártico. Mas a consideração do longo prazo deveria levar os Estados a limitarem as suas pretensões de domínio e exploração da região.

“É por isso que há quem defenda a classificação do Ártico como ‘global common’. Significa que seria considerada património comum da humanidade, como a Antártida, onde só poderiam ser desenvolvidas atividades de investigação científica”, declarou. Isto “limitaria substancialmente o próprio processo de alterações climáticas e do degelo e salvaguardaria a região de experiências, como a exploração [de petróleo e gás] a grandes profundidades”, adiantou.

Sandra Balão especificou que “o grande temor de parte significativa da comunidade internacional tem a ver com a possibilidade de os objetivos [económicos e geopolíticos] de curto prazo colocarem em causa o equilíbrio do planeta”, sacrificando de caminho zonas como a do Ártico. Neste cenário, ganha relevo o eventual choque de interesses na região, onde “nenhum Estado ribeirinho equaciona a possibilidade da transformação da região num ‘global common’”.

Apesar de o Conselho do Ártico, que reúne estes Estados, estar a ganhar relevo internacional – em 2013 obtiveram o estatuto de observador permanente países como Japão, Índia, China, Coreia do Sul ou Singapura, por exemplo –, também se intensificam as afirmações de prioridades estatais.

A investigadora do ISCSP realçou que “a Rússia está com um discurso muito assertivo”, que o Pentágono divulgou uma estratégia em 2013 – até então era secreta –, que reafirma o interesse regional dos EUA, e que a NATO, que tem desenvolvido exercícios militares na região, prevê um grande exercício em 2015, a convite da Noruega, e tem investido em cenários de guerra no Ártico.

A importância da construção do Canal da Nicarágua

Outra novidade no Atlântico que pode ter impacto em Portugal é a anunciada construção do Canal da Nicarágua. “Se do ponto de vista geoestratégico, [o canal] coloca um desafio extraordinário aos EUA”, pelos países envolvidos (Rússia, China e Brasil) e por os norte-americanos “ficarem ‘às cegas’ relativamente ao que se irá passar relativamente a navios, mercadorias e atividade comercial, este novo canal, em articulação com o que se prevê virem a ser as novas rotas pelo Ártico, pode trazer novas desafios ao Atlântico Norte.

Para já, Sandra Balão considerou que “a aproximação dos EUA a Cuba e todo este novo cenário tem a ver com isto”.