O ex-vice-presidente do Sporting e ex-inspetor da PJ, Paulo Pereira Cristóvão, foi detido na manhã desta terça-feira por suspeitas de envolvimento em assaltos à mão armada nas zonas de Lisboa e Setúbal. Segundo apurou o Observador junto de fonte da Polícia Judiciária, Pereira Cristóvão não participaria diretamente nos assaltos, mas tinha um papel de informador.

Na sequência da investigação da Unidade Nacional Contra Terrorismo (UNCT) foram também detidos dois outros homens, entre os 37 e os 49 anos, por suspeitas dos crimes de associação criminosa, sequestro, roubo qualificado, usurpação de funções, abuso de poderes e detenção de armas proibidas, segundo refere a PJ em comunicado. Um dos detidos integrava a claque Juveleo.

Fonte da PJ disse ao Observador que Pereira Cristóvão e ‘Mustafa’, da Juveleo, passavam informações aos assaltantes de possíveis alvos: pessoas com muito dinheiro e muitos bens em casa.

Na sequência da mesma investigação, tinham já sido detidos 12 outros suspeitos no verão de 2014, alguns deles pertencentes a uma força policial que se dedicava a fazer roubos em interiores de residências. Os suspeitos simulavam tratar-se de uma operação policial, munidos de um suposto mandado de busca domiciliária. Nalguns casos chegavam mesmo a usar as fardas de trabalho. Há registo de assaltos nos distritos de Lisboa e Setúbal.

Na operação que decorreu esta manhã de terça-feira, foram feitas oito buscas domiciliárias e não domiciliárias, “tendo sido apreendidos relevantes elementos de prova”, diz a PJ.

O juiz Carlos Alexandre deverá ouvir esta quarta-feira o antigo polícia e os dois coarguidos.

Outros processos que envolvem Pereira Cristóvão

Não é a primeira vez que o ex-inspetor da PJ, Paulo Cristóvão, cai nas malhas da justiça. Naquele que ficou conhecido como o processo “Cardinal”, o ex-inspetor da PJ é acusado de um crime de burla qualificada, outro de branqueamento de capitais, dois de peculato, um de devassa por meio informático, um de acesso ilegítimo e, por fim, um de denúncia caluniosa agravada.

O caso nasceu de uma carta anónima que denunciava um alegado suborno ao árbitro assistente José Cardinal, no jogo entre o Sporting e o Marítimo em abril de 2012. O documento foi entregue pelo próprio presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, à PJ. Na sequência da investigação da PJ, foram constituídos arguidos Paulo Pereira Cristóvão, um ex-funcionário seu Rui Martins, que terá feito o depósito de dois mil euros na conta do árbitro e a secretária do dirigente leonino, Liliana Caldeira (que acabou por não ser formalmente acusada).

Paulo Pereira Cristóvão ainda pediu a abertura de instrução do processo, mas o juiz confirmou que tinha que ser julgado. Na sequência deste processo, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol decidiu, em outubro de 2014, suspender Pereira Cristóvão de toda a atividade desportiva por um período de 15 meses e multando-o em três mil euros. O Sporting foi punido com uma pena de dois mil euros. Na altura, o ex-polícia reagiu à sanção, considerando-a “apressada” por se adiantar às “decisões dos tribunais”.

Em maio de 2009, Pereira Cristóvão e dois colegas da PJ foram absolvidos do crime de tortura por um tribunal de júri. Os três eram suspeitos de ter espancado Leonor Cipriano, a mãe de uma criança desaparecida no Algarve em 2004. Ficou provado que a mãe de Joana sofreu lesões infligidas na diretoria de Faro da PJ, mas o tribunal não conseguiu provar a forma como estas foram provocadas.

Neste processo, o ex-inspetor Gonçalo Amaral foi absolvido do crime de omissão de denúncia, mas condenado a um ano e seis meses de prisão com pena suspensa por igual período pelo crime de falso depoimento. E António Cardoso, que elaborou o relatório onde era descrita a alegada tentativa de suicídio de Leonor, foi condenado a dois anos e três meses de prisão com pena suspensa por igual período pelo crime de falsificação de documento.

O caso Joana levou Pereira Cristóvão a escrever um livro onde descreve a sua versão dos factos, “A Estrela de Joana”. Seguiram-se outras publicações, depois de ter saído da PJ para abrir uma empresa de business intelligence, como foi o caso do livro “A Estrela de Madeleine” – que também levou o casal McCann a mover um processo contra o ex-polícia.