Ana Magalhães nunca tinha partido uma pinhata, nunca tinha sequer estado numa festa com uma pinhata, mas quando fez 31 anos teve a certeza: queria ter um gelado gigante feito de cartão e recheado de guloseimas no piquenique de aniversário. Juntamente com a colega de casa, Helena Carvalho, também designer, fez um cone com uma bola para partir de olhos vendados, como nos filmes americanos, mas antes disso tirou uma fotografia e escreveu no Facebook: “aceitam-se encomendas”. Mal sabia que, com a brincadeira, ia fazer nascer um negócio.

As encomendas chegaram e, “dois ou três meses depois”, foi criada a marca Piñata Colada. Gelados, corações, nuvens, frutas, um R2-D2 da Guerra das Estrelas, um piano ou até uns ténis Nike Air Jordan — desde meados de abril de 2014 já foram construídas cerca de 60 pinhatas com as formas mais originais que se possa imaginar, porque essa é a ideia do projeto: personalizar as encomendas e transformar tudo o que se quiser numa pinhata, seja para festas de aniversário, despedidas de solteiro ou produções de moda.

As duas designers: Helena Carvalho, 33 anos, e Ana Magalhães, 31, com duas das suas criações.

“No início vimos dois ou três tutoriais do it yourself, mas a verdade é que quisemos fazer as nossas próprias figuras e começámos a cruzar técnicas e a guardar caixas de sapatos e rolos de papel higiénico em casa”, conta Ana, que faz parte da direção de arte de uma agência de publicidade. Quase sempre, e depois da encomenda, o processo começa por um esboço que leva à estrutura de cartão, mais tarde forrada com papel crepe colorido cortado aos quadradinhos. “É como uma ilustração em 3D que fica com aquele aspeto de pixel art“, diz Ana, que faz questão de fotografar todas as pinhatas em ambientes diferentes, e pedir aos clientes para fazerem um vídeo do momento da destruição. “Somos nós que cortamos os papéis todos”, acrescenta Helena. Tirando um desumidificador que ajuda a secar a pasta de papel e já é o novo eletrodoméstico favorito, “as únicas máquinas por trás das pinhatas”, dizem, “somos nós”.

Como ambas têm outros trabalhos durante o dia, e a casa que dividem ainda vai fazendo as vezes de atelier, isto significa que às vezes as designers jantam com pinhatas sentadas no sofá. “Há pouco tempo tivemos uma encomenda grande da Sisley e demos por nós com 16 pinhatas em casa. Até tivemos de desmanchar a porta da cozinha para servir de bancada.”

Essa encomenda está agora numa montra em Florença, Itália, para mostrar a coleção de primavera verão da marca. “Eles estavam à procura de um fornecedor de pinhatas na Europa e encontraram-nos a nós”, diz Ana. “Costumávamos dizer, na brincadeira, que éramos as melhores pinhatas da Península Ibérica, agora já podemos dizer que somos as melhores da Europa.”

3 fotos

Com a Sisley mas também a Melissa, que encomendou um gelado e uma boca XL para dar ainda mais cor ao calçado exposto na loja Mau Feitio, em Coimbra, as designers perceberam que “podiam profissionalizar o negócio e ir para além das festas de anos, trabalhando cada vez mais para clientes comerciais, produções de moda e agentes culturais”. “Queremos maior dimensão e visibilidade, na linha da construção de cenários e adereços”, diz Ana, não escondendo os grandes objetivos para este ano: “arranjar um espaço físico e fazermos isto a tempo inteiro.”

Por enquanto, e como este ainda é um trabalho pós-laboral, o tempo que demora a responder a cada encomenda é variável, sendo que o mínimo são cinco dias. “Há formas que já temos muito sistematizadas e outras são mais difíceis de concretizar”, explica Helena. O Perna de Pau, por exemplo, é dos que saem depressa, ou não tivesse sido o bestseller do ano passado.

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Os preços também variam consoante o pedido, mas para particulares têm oscilado entre os 45 e os 85 euros, com envio para todo o país mas sem guloseimas lá dentro. “Os doces ficam por conta do cliente”, diz Helena, “nós só pomos os confetis. Deixamos uma portinha camuflada e as pessoas podem colocar o que quiserem.”

Feitas para partir com um pau e de olhos vendados, como nas celebrações mexicanas, estas pinhatas têm como maior elogio, na verdade, o facto de não serem destruídas. “Muita gente acaba por ter pena e não as parte, ou parte com muito jeitinho para guardar os restos mortais”, brinca Ana. Com jeitinho também, é usar a pinhata para o que ela serve e depois voltar a entrar em contacto com a dupla. Porque, dizem as designers, também já fazem restauro de pinhatas.

Nome: Piñata Colada
Data: 2014
Pontos de venda: encomendas pela página de Facebook
Preço: mediante orçamento, geralmente varia entre os 45 e os 85€ para particulares