Os hospitais e as farmácias já voltaram a ter antibiótico com a substância ativa benzilpenicilina, da família da penicilina, depois de mais de cinco meses de interregno na distribuição dos três medicamentos com penicilina G que existem em Portugal. De 20 de abril até esta segunda-feira, a farmacêutica Laboratórios Atral colocou no mercado 82.394 unidades de Lentocilin S1200, Lentocilin S2400 e Lentoclin 6.3.3, bem acima da média de consumo mensal a nível nacional. Ainda assim, as necessidades do mercado podem não estar a ser completamente satisfeitas.

“Começámos a reabastecer o mercado a 20 de abril, de forma transversal. Acontece que, como houve uma grande rutura de stock, todo o produto que tem entrado sai de imediato”, começou por dizer ao Observador fonte oficial da Atral, que é a única farmacêutica em Portugal a produzir e comercializar suspensões injetáveis que têm a penicilina G como substância ativa.

A farmacêutica tem distribuído o produto pelos hospitais e farmácias, de acordo com os históricos de consumos de cada um, admitindo que “naturalmente, as quantidades até agora disponibilizadas dos produtos poderão ainda não ter respondido por completo às necessidades do mercado”. Em 2014, a média de consumo mensal foi de 24.624 unidades.

Este antibiótico é usado para o tratamento de infeções do trato respiratório superior, amigdalites bacterianas, sífilis, febre reumática ou difteria, entre outras doenças, e pode ser administrado através de uma injeção de dose única ou em mais doses. Mas desde o final do ano passado que muitos doentes acabaram por ser tratados com alternativas terapêuticas, muitas vezes mais demoradas e, por vezes, menos eficazes.

Só há uma farmacêutica em Portugal a produzir esta penicilina

Mas qual foi afinal o problema? O fabricante autorizado para a substância ativa penicilina G benzatínica descontinuou o fornecimento da matéria-prima específica empregue na produção dos medicamentos Lentocilin S1200, Lentocilin S2400 e Lentoclin 6.3.3 e “houve assim necessidade de selecionar, qualificar e fazer autorizar um novo fabricante da matéria-prima em causa, processo que normalmente é moroso, incerto e complexo”, explicou a mesma fonte da Atral. Já com um novo fornecedor de matéria-prima, e o pedido feito e autorizado no Infarmed, a Atral voltou à produção destes fármacos que têm um ciclo de produção de, pelo menos, 15 dias.

“Todo este processo levou a que os medicamentos contendo a substância ativa benzilpenicilina benzatínica estivessem temporariamente indisponíveis no mercado até 19 de abril de 2015”, concluiu a mesma fonte farmacêutica.

A penicilina é um antibiótico de primeira linha com um custo final acessível. Atualmente, em Portugal a Laboratórios Atral é a única farmacêutica a produzir e comercializar suspensões injetáveis contendo penicilina G como substância ativa. As multinacionais que chegaram a fornecer formulações similares desses medicamentos descontinuaram a respetiva comercialização.

Logo em janeiro, numa comunicação dirigida aos profissionais de saúde, com indicação de alternativas terapêuticas, o Infarmed afirmava que “não se encontra em causa a salvaguarda da saúde pública dado existirem alternativas, para todas as indicações terapêuticas”.

Penicilina é cada vez menos indicada

Fernando Maltez, diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital de Curry Cabral, garantiu ao Observador que não sentiu falta da penicilina no hospital durante este período, pois foram gerindo os stocks, frisando ainda que “há cada vez menos indicações [para prescrever penicilina] como primeira linha”. “Não se pode dizer que haja uma necessidade diária do recurso à penicilina”, acrescentou o infecciologista.

Contudo, “a penicilina, comparativamente a outros antibióticos, tem um espetro mais reduzido e, por isso mesmo, numa política de prevenção da infeção e de criação de resistências, é preferível usá-la”, explicou Fernando Maltez, acrescentando que as “alternativas obrigam a tratamentos mais demorados” e por vezes com “eficácia até inferior”.