As reuniões entre o primeiro-ministro francês e os principais partidos, realizadas num contexto de contestação social, terminaram esta quinta-feira sem avanços, com a esquerda e a direita a manifestarem frustração com a falta de progressos e de disponibilidade do Governo.
O coordenador-geral do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), Manuel Bompard, acusou Sébastien Lecornu de “fazer o país perder tempo” e que “em nenhum momento entrou no debate específico sobre as reivindicações dos jovens, sobre as reivindicações do país, sobre a ira ou sobre o sofrimento social”.
À saída da sede do gabinete do primeiro-ministro, a deputada do partido de extrema-direita União Nacional (RN, na sigla em francês), Edwige Díaz, acusou Lecornu e o ministro do Interior, Laurent Nuñez, de passarem “três horas a esquivar-se às responsabilidades”.
O primeiro-ministro tinha-se reunido na quarta-feira com os sindicatos franceses e foi acusado também pelos mesmos de ignorar as suas reivindicações.
No passado fim de semana, protestos contra o aumento do custo de vida e a situação do setor da educação acabaram por ficar marcados por atos de violência em várias cidades francesas, incluindo danos em edifícios públicos e pilhagens em estabelecimentos comerciais.
Para o próximo sábado, Paris e outras cidades estão a preparar-se para uma nova mobilização dos “coletes amarelos”, movimento cuja contestação aos preços dos combustíveis abalou França em 2018 e 2019.
As autoridades decretaram, esta quinta-feira, a prorrogação do recolher obrigatório em certas zonas de Paris, nomeadamente na Praça da República e no bairro histórico de Les Halles, todas as noites, das 23h00 às 06h00 locais (entre as 22h00 e as 05h00, hora de Lisboa), até segunda-feira de manhã.
A polícia acompanhou também, mais uma vez, este decreto com uma proibição que visa “qualquer concentração não declarada” durante a noite de quinta-feira para sexta-feira, nomeadamente nas imediações da Presidência da República (Palácio do Eliseu), da Assembleia Nacional (parlamento), da avenida dos Campos Elísios ou ainda das estações ferroviárias.
Após a reunião com Lecornu, a secretária-geral dos Ecologistas, Marine Tondelier, criticou igualmente o resultado final do encontro que se revelou “muito pior do que o previsto”.
“Já não nos compreendemos”, disse Tondelier, acrescentando que a reunião nem sequer resultou “numa análise interessante da situação”.
Já o secretário-geral do Partido Comunista francês, Fabien Roussel, disse sentir-se enganado, porque o que tinha sido comunicado como um encontro para debater a crise acabou por ser “uma explicação das políticas de manutenção da ordem”, em vez de propor “medidas contundentes a favor dos franceses”.
Por sua vez, o candidato presidencial socialista, Raphaël Glucksmann, argumentou que, pelo menos, o Governo tem propostas em cima da mesa e que o que é necessário agora é que as analise para formular um plano concreto.
“Quando se enfrenta um movimento social desta magnitude, é preciso dar respostas políticas às reivindicações. Temos de ouvir a ira dos jovens, as preocupações e as ansiedades da população francesa”, acrescentou.
Enquanto os partidos procuram um entendimento político para responder às exigências dos manifestantes que voltaram esta quinta-feira às ruas, o departamento Bouches-du-Rhône (sul) anunciou que serão proibidas todas as manifestações para sábado em Marselha, declaradas ou não.
“Por razões óbvias de segurança e de disponibilidade das forças de segurança interna”, anunciou o departamento.
Lembrando “os saques, danos e atos de vandalismo” ocorridos no fim de semana passado, as autoridades da região anunciaram também num comunicado que os transportes públicos serão suspensos das 05h00 de sábado (04h00 em Lisboa) até às 05h00 de domingo (04h00 em Lisboa) na área metropolitana de Marselha.
Além disso, o recolher obrigatório atualmente em vigor para menores no centro da cidade e em certas zonas comerciais será alargado aos maiores de idade nas noites de sábado para domingo e de domingo para segunda-feira.
Ainda na capital francesa, os museus parisienses do Louvre, d’Orsay, Picasso e o Grand Palais estarão encerrados no sábado devido às manifestações previstas, anunciou o Ministério da Cultura num comunicado.
Tendo em vista este novo dia de mobilização nacional, o ministério apelou também a “todas as instituições sob a sua tutela” para que tomem todas as medidas necessárias para garantir “a segurança dos visitantes”, “a proteção dos funcionários” e “a preservação das obras”.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, anunciou esta quinta-feira que 217 pessoas foram encarceradas, de entre as 2.700 detidas pela polícia após a onda de violência e pilhagens do fim de semana em França.
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