“Lesões nos ombros, nos cotovelos ou mãos, tem?” Não. “Jura, sob pena de cometer perjúrio, que a informação é verdadeira?” Juro. Isto foi o que Manny Pacquiao assumiu perante a Comissão Atlética do Estado do Nevada (NSAC). E assumiu-o num questionário escrito. O problema é que, à parte ter perdido o “Combate do Século” para Floyd Mayweather Jr. na madrugada de domingo, o boxeur filipino veio terça-feira dizer que tinha uma rotura total dos tendões do ombro direito. Agora, há milhões de apostadores desportivos online, outros tantos espectadores da HBO e da Showtime (as duas cadeias televisivas que venderam o pay-per-view do combate nos EUA) e quase 16 mil espectadores pagantes (e a peso de ouro! – o mais barato custava à volta de 1.400 euros) do MGM Hotel & Casino, que querem “a cabeça” de Pacquiao.

Mas ele não estava bem? A Comissão Atlética diz que ele disse que sim. O advogado de Pacquiao diz que não e que a Agência Anti-Doping dos Estados Unidos tem “documentos que demonstram de forma explícita quais os medicamentos que Manny estava a tomar” para debelar a lesão no ombro. Ah, mas afinal sempre tinha a lesão! Calma. A Agência Anti-Doping contradiz o advogado, refuta que tenha recebido tais informações, e se sim, se recebeu, por que razão haveria Pacquiao de mentir à Comissão Atlética?! Pois…

Há quem tenha visto neste jogo-do-empurra um crime de perjúrio, e exigido uma indemnização de 5 milhões de dólares a Manny Pacquiao – que até pode ir preso, se for considerado culpado. Entretanto, como é seu apanágio, e só para incendiar mais os ânimos, Floyd Mayweather Jr. já veio declarar que aceita voltar a combater com Pacquiao daqui por um ano, logo que este regresse à competição. O problema é que Mayweather assinou um contrato milionário com a empresa Showtime para fazer o derradeiro combate da sua carreira… em setembro.

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“Se o treinador o deixou ir, é simples: não tem caráter. Está a vender carne.”

António Ramalho, ou mestre António, como é respeitosamente tratado pelos seus atletas, deu tudo ao boxe e tudo o boxe lhe deu. Tinha franzinos 14 anos quando ingressou na secção de boxe do Clube Atlético de Algés. Foi o seu primeiro clube. Hoje, com 53 anos, é treinador na Escola de Boxe da Outurela, em Carnaxide. À sala onde hoje treina diariamente perto de trinta boxeurs – uns são-no de ocasião, outros há que são profissionais do boxe à séria; mas é sobretudo a garotada lá do bairro que António se orgulha de tirar da rua e levar para o boxe – foi-lhe atribuída o seu nome em 2012.

Confessa-nos, sem mágoa, que é melhor treinador do que foi boxeur. Quem o viu jogar [sim, na terminologia tão própria do boxe, não há cá lutar nem outros belicismos que tal, mas jogar ao boxe, como naquela canção do Sérgio Godinho, recorda-se? “Já joguei ao boxe, já toquei bateria (trápum) / P’ra ver se me livrava desta energia / Nada feito, que arrelia”] diz que foi um dos atletas mais talentosos da sua geração. Jogou boxe até aos 26 anos. Subiu mais de 100 vezes ao ringue. E ganhou até uma medalha de prata num torneio de apuramento para os Jogos Olímpicos, conta-nos.

Mas foi (e ainda é!) do canto do ringue, curvado, a puxar pelo grave da voz e de sobrolho franzido, que mais campeões viu nascer. Como o algarvio António Bento, um super-pluma, que venceu, por knockout, o título de campeão do mundo da TWBA. “Sabe quem é que é também já foi campeão da TWBA? O Evander Holyfield. Pois é. O Evander Holyfield foi campeão da TWBA.”, relembra, naturalmente orgulho.

– António, já sabe que o Pacquiao jogou lesionado?

– Jogou, jogou. Já li para aí que sim. Eu logo vi que aquele não era o Pacquiao que eu estou habituado a ver. O boxe é que ficou a perder…

Como treinador, diz que nunca autorizaria que um atleta seu subisse ao ringue lesionado. E critica Freddie Roach, o treinador de Manny Pacquiao: “As regras são iguais lá como cá: ninguém joga lesionado. Ponto. Se o treinador o deixou ir, é simples: não tem caráter. Está a vender carne. E o manager dele a mesma coisa. Tu podes ganhar e podes perder, mas tens que lutar sempre com verdade. É a verdade que faz do boxe a modalidade que é. Se o Pacquiao não o fez, não é um campeão, não tem caráter.”

Mas poderá ter o filipino escondido a lesão do próprio treinador? “Não… Se sim, pior. Uma coisa é ser-se um bom treinador. Outra é ser um bom condutor de homens. Ele até pode ser bom treinador, mas se não sabia da lesão, como condutor de homens é zero.”

Mas se foi muito o alvoraço (e os milhões de dólares) em torno do “Combate do Século”, maior promete vir a ser a especulação em torno do seu desfecho. Quem sabe do ofício, diz que o espetáculo foi fraco e não correspondeu às expectativas. Mas há também quem venha dizer que pode ter havido um acordo dos dois pugilistas para que a lesão de Manny Pacquiao não sobressaísse no ringue. “Há quem goste mais do Mayweather. Há quem goste mais do Pacquiao. Eu respeito. O Mayweather é um pugilista mais cerebral. O outro é o que no boxe nós chamamos de ‘pegador’. Tem um estilo de boxe mais ativo, que até é mais do meu gosto. Se o Mayweather fez o suficiente para vencer? Fez. O Pacquiao é que tinha de correr atrás dele e não correu. ‘Mas ele está à espera de quê?’, pensei eu até ao quarto ou ao quinto assalto. E nada. Se foi combinado? Não acredito. O Mayweather foi o que é sempre. O Pacquiao, não. Quem perdeu não foi ele, foi o boxe.”, lamenta António Ramalho.

O desafio, para Manny Pacquiao, não é só o de recuperar da grave lesão. Há que recuperar a credibilidade do pugilista. E isso é bem mais difícil. “Honestamente? Com a idade [faz 37 anos em dezembro] que ele já tem, e sendo um ‘pegador’, só muito dificilmente é que volta a competir àquele nível. E é se voltar. Um atleta que é um herói do povo, que diz que dá dinheiro ao povo, não pode ser uma fraude. Pergunto: Como é que vai ser se ele volta e perde? Quem é que vai acreditar nele? Ninguém.”

Quer o seu dinheiro de volta? “Olhe, temos pena!”

O Observador falou com um português que apostou no “Combate do Século”. Pedro Silva tem 30 anos e é jogador profissional de póquer. Nunca antes fizera uma aposta online num jogo de boxe. Nem é de acompanhar a modalidade, confessa. Fá-lo sobretudo no basquetebol. “Por que é que apostei? Se ia ver o combate e se queria torcer à séria por algum deles, achei que o mais interessante era ganhar dinheiro com isso. Mas não apostei muito. Apostei 25 dólares na vitória do Mayweather e outro tanto em como ele não vencia por knockout. E ganhei.”, explica. E por que é que não apostou em Manny Pacquiao? “Não sei… Eu li que ele tinha sofrido um knockout fortíssimo há dois ou três anos. E também li que um pugilista dificilmente recupera disso. Não é fisicamente, é psicologicamente. A confiança nunca mais é a mesma. Não pode ser. E vai lutar contra o melhor do mundo? Pior ainda. Eu diria que foi mais por isso.”

A propósito da lesão do boxeur filipino – e da suspeita que se lhe seguiu –, Pedro Silva vê-a como “uma situação normal” no dia-a-dia dos apostadores desportivos online e faz uma comparação entre o boxe e o desporto que mais segue e em que mais aposta: “Ontem [terça-feira], por exemplo, voltei a apostar. E o melhor basquetebolista não jogou. O tipo não jogou e eu só soube em cima do começo do jogo que ele não jogava. A aposta já estava feita. A lesão também me foi ‘escondida’, vá. Acho que isso faz parte do jogo. Infelizmente. O que é que se pode fazer? Nada. Até podes enviar-lhes um e-mail, aos tipos lá dos sites de aposta, mas eles vão certamente responder-te: ‘Olhe, temos pena!’”.

É crime ou não é crime?

José Manuel Meirim é especialista em direito desportivo. Não é de ver boxe na TV. E não viu o “Combate do Século” que pôs frente-a-frente Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao. Mas diz que há razões para crer que o pugilista filipino cometeu um crime ao ocultar a lesão. “Pese embora eu não conheça aprofundadamente o caso, eu diria que se pode falar em crime de perjúrio. É disso que se fala. Ele [Manny Pacquiao] declarou perante a Comissão Atlética do Estado do Nevada que não tinha a lesão, mas, alegadamente, até tinha. Fez uma falsa declaração. Fazer um falso testemunho em tribunal, por exemplo, é crime, sim. É perjúrio. E é grave.”

Mas para que o boxeur filipino seja formalmente acusado do que quer que seja, não basta que se prove, na Comissão Atlética, que mentiu sobre a lesão. É necessário que a mesma Comissão seja considerada como Autoridade Pública no Estado do Nevada. “É preciso compreender o que o Código Penal do Estado [do Nevada] prevê. Há duas dimensões a ter em consideração. Se a Comissão Atlética for, no caso português, suponhamos, semelhante a uma Federação, seja de boxe, seja de futebol, seja de tiro com arco, seja de pesca desportiva, seja do que for, e se se vier a provar que o atleta mentiu, o atleta é suspenso. A Comissão pode fazê-lo. Por outro lado, se a Comissão Atlética é uma Autoridade Pública – e eu não sei se é –, aí já estamos no plano do direito penal e do direito criminal. E aí o atleta pode ser condenado, sim.”

Que lesão é esta?

Contacto pelo Observador, Henrique Jones, que é especialista em medicina desportiva, e que coordenou o departamento médico do Federação Portuguesa de Futebol durante mais de 15 anos, diz que é “absolutamente desaconselhável” que um atleta vá competir tendo uma lesão como a que Manny Pacquiao tem: “Esta é uma mera especulação, mas, havendo uma lesão parcial do tendão [do ombro direito], e se se sabe que pode agravar-se, o atleta, se não está em condições físicas, e depois de uma triagem, é dispensado. Foi isso que sempre fiz. Não se deve arriscar. Mais a mais, envolvendo tendões fragilizados. O risco de contrair uma lesão aguda grave é muito alta. A regra é esta: há que proteger o atleta. Sempre. E isso pode não ter sido feito, não sei.”

Mas é possível que Pacquiao tenha subido ao ringue já debilitado? “Havendo uma rotura completa dos dois tendões mais importante do ombro, o tendão supra-espinhoso e o tendão sub-escapular, eu diria que é praticamente impossível um boxeur combater. A não que seja infiltrado com anestésico. E mesmo assim é difícil. Esta é uma modalidade com alguma especificidade, eu diria. É uma modalidade onde as articulações dos membros superiores são fundamenteis à sua prática. Uma lesão tendinosa no ombro está para o boxeur como uma lesão no tendão de Aquiles está para o futebolista. É possível ir para o ringue infiltrado? Se o foi, não dignificou o boxe, nem o médico foi eticamente digno.”, concluiu o especialista em medicina desportiva.