Em mais de 100 anos de futebol, já se viram das bancadas camisolões de lã, t-shirts lustrosas, padrões ousados, cores vibrantes. Já se viu quase tudo e ainda assim os adeptos continuam a surpreender-se. Ao mesmo tempo, apesar deste “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, quer manter-se a história e identidade dos clubes.
Nos fóruns e blogues da especialidade, os adeptos enervam-se ainda as camisolas não passeiam nos relvados. Basta que haja a mínima informação a circular, propostas do que podem vir a ser os equipamentos, e produzem-se páginas na web com os mais fiéis fãs de qualquer um dos três grandes a lembrar que cores como rosa ou laranja não pertencem ao seu clube e o descaracterizam.
“Para um clube, o maior embaixador é a camisola”, diz ao Observador Hélder Gomes, responsável pelo branding do Futebol Clube do Porto: “Gera discussão ao nível da contratação de um grande jogador.” No equipamento principal do Porto há coisas que “são sagradas”, e por isso nos uniformes principais não há grandes surpresas: o logótipo, “que mudou umas três ou quatro vezes desde a fundação”, as listas azuis e o mote “a vencer desde 1893”. “Espero que isto seja transportado para sempre”, diz o portista.
A introdução dos equipamentos alternativos permitiu alguma criatividade no design das camisolas, sendo que é nos anos 80 que o segundo e terceiro equipamentos se tornam marcadamente diferentes dos principais. Exigências da UEFA a pensar na praticidade do jogo.
Para os clubes, é também uma oportunidade de fazer dinheiro e disseminar a sua marca. “[O equipamento alternativo] tem uma grande vertente comercial: as pessoas têm mais opção de escolha para além da camisola principal”, explica Hélder, lembrando que mesmo as opções controversas são muitas vezes sucessos de vendas. O rosa da temporada passada significou um aumento de 27% das vendas e não foram só mulheres que compraram, diz o portista.
Se se medirem estes números pela polémica, a camisola alternativa deste ano está num bom caminho. “Estávamos com uma paleta de laranjas e rosas esgotada. O vermelho é completamente impossível, por razões óbvias. Este castanho ou se adora ou se odeia. Mas é ótimo que se fale.”
As camisolas de futebol não querem ser bonitas, querem ver-se ao longe
Xana Guerra, consultora de moda especializada na área masculina e sportinguista ferrenha, lembra o equipamento alternativo cor-de-rosa do Benfica, 2007/08, como exemplo de um equipamento inovador e bonito porque “conseguiu uma tonalidade de rosa muito feliz”. Destaca ainda o novo alternativo da seleção nacional, por causa do preto total: “é mais interessante quando tem esta densidade de cor, com os calções e a camisola da mesma cor. O efeito no campo fica muito mais bonito. Tal como acontece com o Real Madrid que tem o branco total como imagem de marca. Muito simples mas bonito.” A stylist lembra que a moda dos equipamentos não é igual à que está na rua. O que interessa é o efeito em campo: muitas cores num só equipamento ou padrões não tornam o jogo tão claro para os espetadores e para os próprios jogadores.
“Um jogador tem que ser distinguível rapidamente. Quando um defesa tem de passar para um avançado não pode ter dúvidas e tem de pensar rapidamente. Daí as cores fortes, fluorescentes e que se destacam no relvado”, explica a especialista em moda, dando o exemplo dos laranjas, amarelos e brancos vivos muitas vezes escolhidos para equipamentos alternativos com esta vantagem ótica.
Tendências ou tecnologia?
Houve traços das tendências da moda que passaram para dentro das quatro linhas: nos anos 60 e 70, os tecidos pesados, os cordões e as golas — “desconfortáveis para os jogadores, sempre a bater no pescoço”, lembra Hélder –; nos anos 80 e 90, os padrões e tecidos brilhantes. Contudo, Xana Guerra diz que o contrário é mais significativo: as inovações nos equipamentos a transbordarem para a moda.
“O lado tecnológico tem evoluído imenso. A camisola que antigamente transpirava, já não transpira; há mais proteção contra a chuva; e a moda foi aprender isto com as grandes marcas que financiam esta investigação: a Nike, a Adidas e a Puma — os três grandes a nível mundial.”
São estas as marcas que, na Primeira Liga, num mundial ou europeu, qualquer adepto sabe identificar melhor do que um fora de jogo — os seus equipamentos são frequentemente iguais e mudam apenas as cores. “Interessa-lhes ter uma imagem forte para a marca, um ADN. Apresentam normalmente três propostas aos clubes e nós não podemos dar muito input,” explica Hélder. “Para estas marcas é bom, mas os clubes têm histórias e identidades próprias.” Uma das razões porque adeptos e profissionais apoiaram a regulamentação da Liga em relação à publicidade nas camisolas, que no final dos anos 90 estava a ganhar espaço aos emblemas dos clubes.
Hélder Gomes resume o construir de uma camisola com o balanço entre a tecnologia — é essencial que o jogador esteja confortável e que a roupa sirva o jogo e não o contrário — e os valores de um clube, não menos importante. Especialmente para os adeptos. Para os jogadores, que se tornaram ícones de imagem, lembra Xana Guerra, uma camisola que esteja na moda é uma vantagem, mais do que a sua carga simbólica. “Hoje já não há jogadores que façam carreira numa casa, estão dois ou três anos e saem. Gostam de ter um equipamento bonito, gostam dos detalhes. É mais a parte estética que lhes interessa”, resume Hélder.