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São histórias de terror e de coragem as que marcam a última sexta-feira, 26 de junho, quando um estudante universitário de 23 anos assassinou 38 pessoas, a maior parte delas vindas do Reino Unido (há uma portuguesa entre as vítimas). Dos muitos relatos já divulgados pela imprensa internacional, selecionamos três histórias que ajudam a perceber o que realmente aconteceu.

O Galês que serviu de escudo humano

Matthew James, 30 anos, foi alvejado três vezes. No ombro, no peito e na anca. Só assim conseguiu evitar que a noiva, de 26 anos, fosse atingida. Num gesto heróico e, provavelmente, instantâneo, o engenheiro de Gales, no Reino Unido, fez de escudo humano para proteger a mãe dos seus dois filhos, de 2 anos e 12 meses.

“Ele estava coberto de sangue por causa dos tiros e, mesmo assim, disse-me para correr.” Saera Wilson, a noiva, correu, passou pelos corpos estendidos na areia sem tempo para pensar no caos em redor. Correu, mas não sem antes ouvir um pedido final: “Amo-te. Mas vai — diz aos nossos filhos que o pai os ama”.

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A história de contornos dramáticos — à semelhança de tantas outras — acabaria por ter um final feliz. Ou quase. De momento, Matthew James está sob cuidados hospitalares. “Ele levou uma bala por mim. Devo-lhe a minha vida porque ele atirou-se para a minha frente quando o tiroteio começou.”

Frente a frente com o atirador

Tom Richards, 22 anos, e a mãe estavam na piscina quando o tiroteio começou. Ambos correram em direção ao interior do hotel à procura de um esconderijo. Mas o atirador fez exatamente o mesmo trajeto e, de um momento para o outro, o britânico estava frente a frente com o terrorista. “Ele olhou diretamente para mim. Pensei, estou morto… Ele tinha cabelo preto comprido e barba”, contou ao Guardian.

Era o fim. Não havia para onde fugir. Mas, sem que nada o pudesse prever, o atacante acabaria por disparar para o chão — feriu o jovem britânico e a sua mãe, entre outras pessoas à volta, com fragmentos de mármore resultantes do tiro.

Posteriormente, os dois conseguiram esconder-se numa casa de banho, onde trataram dos ferimentos da melhor forma possível e com o que tinham à disposição. Do outro lado da porta, mãe e filho ainda ouviram tiros e pessoas a gritar. “Mas não podíamos sair para ir ver”, disse Richards.

“Pai, amo-te”

Olivia Leathley, 24 anos, passou duas horas barricada num escritório, na tentativa de escapar aos tiros do atacante. Leathley estava de férias com o namorado quando tudo aconteceu: “Todos nós ouvimos umas batidas mas pensámos que poderia ser fogo-de-artifício. (…) Olhámos a partir da varanda e vimos todas aquelas pessoas a gritar a fugir da praia”, contou ao Telegraph.

Foi precisamente nessa altura que começou a perceber que o terrorista estava cada vez mais perto. “Alguém disse ‘eles estão cá dentro’ e um dos representantes do hotel gritou ‘corram’. Corremos literalmente pelas nossas vidas. Nunca tive tanto medo.” No meio da correria, a jovem fez um telefonema para o pai — do outro lado da linha ele ouviu a filha a gritar “pai, amo-te”.

Leathley e o namorado finalmente encontraram um sítio ideal para se esconderem — um escritório num edifício vizinho da unidade hoteleira. Aí ficaram durante cerca de duas horas: “Ainda conseguíamos ouvir o barulho da metralhadora. Quando tudo acabou, voltámos para o hotel”.