A escritora e artista plástica Ana Hatherly, um dos nomes da vanguarda da poesia experimental, morreu esta quarta-feira aos 86 anos num hospital em Lisboa, disse à agência Lusa fonte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nascida no Porto em 1929, Ana Hatherly teve um percurso transversal no cinema, artes plásticas, poesia e prosa, cruzando quase sempre as diferentes expressões artísticas. Tem o nome inscrito na vanguarda da poesia e na forma como o poema é escrito no papel, tornando-se numa obra visual.

Em 1976, representou Portugal na Bienal de Veneza com o seu filme “Revolução” sobre os cartazes e graffitis da revolução de Abril.

Licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, Ana Hatherly tem ainda formação em cinema e música e foi professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde cofundou o Instituto de Estudos Portugueses. A autora foi ainda uma das fundadoras do PEN Clube Português e tem o nome inscrito na criação das revistas “Claro-Escuro” e “Incidências”.

Ana Hatherly iniciou a carreira literária em 1958 – celebrou 50 anos em 2008 -, tendo publicado nos primeiros anos as obras “Um ritmo perdido” e “As aparências”. Integrou o grupo da revista “Poesia Experimental” (1964, 1966), sendo autora ou coautora de alguns dos textos programáticos do movimento.

A imaginação
ergue-se do arrepio da sombra
guerrilha entre parênteses
ergue-se da constante chacina
procurando outra coisa
outra causa
o outro lado do ver.

Ana Hatherly, O Pavão Negro (2003)

“Eros frenético” (1968), “Anagramas” (1969), “A dama e o cavaleiro” (1960), a série “Tisanas”, “Rilkeana”, “A mão inteligente” e “O cisne intacto: Outras metáforas – Notas para uma teoria do poema-ensaio” são algumas obras publicadas por Ana Hatherly, distinguida ao longo da carreira pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo PEN Clube.

A Sociedade Brasileira de Língua e Literatura distinguiu-a em 1978. Em 2009 foi distinguida como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

O espólio da autora está à guarda da Biblioteca Nacional, no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, e parte da biblioteca pessoal está na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nas artes visuais, tem obra presente em várias coleções, nomeadamente na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. No museu portuense encontram-se, por exemplo, os desenhos “A Revolução”, de 1977.

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“A Revolução”, 1977

Numa nota de pesar enviada às redações, o Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, lembrou a “criadora multifacetada e inovadora, que muito contribuiu para a renovação da literatura e das artes visuais em Portugal”. “Ao longo de uma vida pautada pela coerência e dedicação, Ana Hatherly encontrou o seu lugar entre os grandes vultos da cultura portuguesa”, pode ler-se.