A proximidade do pico da chuva de meteoros das Perseidas, no dia 13 de manhã, com a Lua nova de dia 14 forma uma boa combinação para se poderem observar muitas “estrelas cadentes” no céu noturno da semana que agora se inicia. Reúna a família ou um grupo de amigos, afaste-se das cidades e deite-se no chão a contar os meteoros que cruzam o céu.

Os melhores dias serão 12, 13 e 14, mas espera-se que o fenómeno ainda possa ser facilmente observado durante o fim de semana. Na verdade, a chuva de meteoros dura de 17 de julho a 24 de agosto. Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico (OAL) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, conta, com surpresa, que já no fim de semana passado, “cinco dias antes do pico da chuva de meteoros”, foi possível observar muitas destas estrelas cadentes.

Nas cidades a observação do céu noturno é dificultada porque o excesso de luz não permite ver os objetos menos brilhantes no céu e porque os prédios não deixam ver o céu na sua plenitude – é praticamente impossível ver o horizonte. Rui Agostinho diz que numa cidade como Lisboa, por causa da poluição luminosa, só será possível ver os meteoros maiores e mais brilhantes. “E esses são muito poucos. No sábado passado, em duas horas, observámos apenas seis.” Já os meteoros mais pequenos e menos brilhantes podem observar-se num céu mais escuro, como o do Lousal (próximo de Grândola e Santiago do Cacém).

O OAL em parceria com o Centro Ciência Viva do Lousal, situado na antiga mina de pirites da localidade, organizou para este sábado uma atividade, no âmbito do programa Astronomia no Verão, destinada a famílias. O desafio é marcarem num mapa do céu noturno os rastos dos meteoros que atravessam a atmosfera.

As Perseidas parecem sair de um ponto junto à constelação de Perseu. Esquema com a disposição das constelações no Céu - Science@NASA

As Perseidas parecem sair de um ponto junto à constelação de Perseu. Esquema com a disposição das constelações no Céu – Science@NASA

As estrelas cadentes podem aparecer em qualquer ponto do céu, lembra Máximo Ferreira, coordenador do Centro Ciência Viva de Constância, portanto é mais fácil contá-los em grupo. Para os dias 12, 13 e 14 este centro organizou sessões, a partir da meia-noite (quando é mais provável ver os meteoros), em Constância e na Covilhã para a observação da chuva de estrelas – os participantes deitam-se no chão em sacos cama, num círculo com as cabeças para o centro. Para estes dias Máximo Ferreira desaconselha o uso de binóculos ou telescópios, os nossos olhos conseguem abarcar uma área de céu maior do que aquela que é restrita pelas lentes.

“Admitindo que as pessoas possam ver o céu todo, podem ver 40 ou 50 meteoros por hora”, refere o coordenador do Centro Ciência Viva. “Mas não podem ter a expectativa de ver um fogo-de-artifício de passagem de ano”, diz, em jeito de brincadeira, para lembrar que alguns dos meteoros são “muito fraquinhos” e pouco brilhantes. Se a sorte brindar os observadores noturnos a quantidade de meteoros pode ser bem maior – uma média de 100 meteoros por hora, como refere o OAL.

Fuja das cidades… e do litoral centro e norte

Outro fator a considerar é a nebulosidade. Nuvens baixas, como as que vão dominar o litoral centro e norte durante as noites de 12 e 13, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, não permitem observar o céu. Parece, portanto, que as melhores praias para observar as estrelas cadentes serão as do Alentejo e Algarve. A nebulosidade também vai afetar o centro e norte mais interior no dia 13 e no Minho espera-se precipitação fraca nos dias 12 e 13.

Escape dos locais de observação reduzida ou aproveite as atividades que se vão desenvolver no continente e nas ilhas para contar com o apoio de astrónomos e monitores. Além das já referidas no Lousal, Constância e Covilhã, terá também no Porto, em Braga, na ilha de São Miguel e perto do Funchal.

Fotografia tirada ao cometa 109P/Swift-Tuttle em novembro de 1992 - Gerald Rhemann/NASA

Fotografia tirada ao cometa 109P/Swift-Tuttle em novembro de 1992 – Gerald Rhemann/NASA

Aproveitando que a chuva de estrelas calha na segunda quinta-feira do mês, o Planetário do Porto desenvolverá a atividade “Mais perto das estrelas” que decorre mensalmente. Começa no planetário, às 21 horas, mas termina com a observação das estrelas no exterior. Já a Orion-Sociedade Científica de Astronomia do Minho, em Braga, tem uma atividade no âmbito do programa Astronomia no Verão na praia da Apúlia, no dia 14.

“Os astrónomos presentes, irão em conjunto com os participantes, aproveitar a escuridão do areal da praia fazer a observação deste evento que acontece anualmente e é causada pela passagem regular do cometa periódico 109P/Swift–Tuttle“, conta João Vieira, diretor do Observatório Astronómico de Gualtar da Orion. À medida que vão observando o fenómeno, os monitores vão explicando qual a origem e as causas.

Tanto nos Açores, na Ilha de São Miguel, como na Madeira, em Chão da Lagoa (Caniço), haverá observação da chuva de meteoros na quarta-feira. Pedro Garcia, técnico de divulgação científica do Observatório Astronómico de Santana, nos Açores, conta que as atividades deste tipo, que pretendem também criar um espaço de convívio ao ar livre, costumam juntar mais de 250 pessoas. Os astrónomos presentes nesta atividade vão apresentar o fenómeno e ajudar os participantes a encontrar certos planetas com o telescópio. Na Madeira, as atividades decorrem no dia 12 e 15 e, além da observação da chuva de meteoros, os organizadores – Associação de Astrónomos Amadores da Madeira – esperam também observar outros astros, como Saturno.

Atividades de observação do céu noturno:

Local Data Hora  Organizador
Braga, praia da Apúlia 14/08  21:45 Orion-Sociedade Científica de Astronomia do Minho
Constância, Ruínas Romanas da Cidade de Escora
12, 13 e 14/08
 24:00 Centro Ciência Viva de Constância
Covilhã, Quinta de Santa Iria
12, 13 e 14/08
24:00 Centro Ciência Viva de Constância
Lousal, Centro Ciência Viva do Lousal 15/08 20:30 Observatório Astronómico de Lisboa e Centro Ciência Viva do Lousal
Porto, Centro de Astrofísica da Universidade do Porto 13/08 21:00 Planetário do Porto
Açores, Ilha de São Miguel 12/08 21:00 Observatório Astronómico de Santana
Madeira, Chão da Lagoa
12 e 15/08
21:30 Associação de Astrónomos Amadores da Madeira

As estrelas do salvador de Andrómeda

A chuva de meteoros das Perseidas deve o nome à constelação de Perseus, de onde parecem sair. Não que seja preciso estar a olhar para esse ponto, chamado radiante, para ver as estrelas cadentes, mas quando se prolonga o trajeto dos meteoros que cruzam o céu, pode definir-se o ponto de origem.

Estes meteoros entram na atmosfera terrestre quando a Terra cruza a cauda do cometa Swift–Tuttle que passou junto ao Sol em 1992. Com uma órbita de 133 anos, só se espera que volte a passar junto do astro-rei em 2125, mas, até lá, em todos os meses de agosto será possível a chuva de meteoros. Este cometa foi descoberto em 1862 de forma independente por Lewis Swift e Horace Tuttle (daí ter ficado com o nome de ambos) e desde 1865 que Giovanni Schiaparelli descobriu que este cometa era a origem das Perseidas.

Constelações de Perseus, Andrómeda e Cassiopeia, com a identificação do radiante das Perseidas -  Rick Scott & Joe Orman/NASA

Constelações de Perseus, Andrómeda e Cassiopeia, com a identificação do radiante das Perseidas – Rick Scott & Joe Orman/NASA

Perseus era uma personagem da mitologia grega, um semideus filho de Zeus. Diz-se que o herói cortou a cabeça à górgona Medusa – que tinha serpentes em vez de cabelos -, a pedido de um rei. No regresso, quando ouviu uma donzela em apuros, Andrómeda, tentou salvá-la e acabou por petrificar o monstro que a mantinha prisioneira apresentando-lhe a cabeça decepada. Andrómeda, filha de Cassiopeia, foi feita prisioneira por Posídon, porque a mãe ousou dizer que a filha era mais belas que as nereidas, as ninfas do mar.

Qualquer semelhança com a realidade não é totalmente ficção. As constelações contam histórias, como lembrou Máximo Ferreira, e as constelações de Perseus, Andrómeda e Cassiopeia, têm localizações próximas na esfera celeste.