O Futebol Clube do Porto e o Vitória de Guimarães subiram ao relvado do Estádio do Dragão com um peso sobre si. Já? Em agosto? Isso não é só lá para o fim do campeonato, em maio? A verdade é que não, o peso estava lá, sentia-se, mas por razões diferentes, num e noutro clube.

O Vitória de Guimarães está fora da Liga Europa. Ou melhor, nem chegou à fase de grupos, e viu-se eliminado, somando por derrotas os dois jogos da terceira pré-eliminatória da prova, contra uns austríacos de nome impronunciável — daqueles em que se carrega o “rrrrr” no final — e quase desconhecido entre nós: Altach. O treinador do Vitória, Armando Evangelista, ainda mal aqueceu o lugar (que era de Rui Vitória) e os adeptos vitorianos já querem correr com ele de lá para fora.

O Futebol Clube do Porto, por sua vez, também sente um “peso”, mas o peso de não vencer o campeonato vai para duas temporadas, o que, para os lados do Dragão, é coisa raramente vista. Julen Lopetegui teve um voto de confiança de Pinto da Costa, recebeu os craques que pediu, viu-se livre dos que não quis (Quaresma e Quintero, por exemplo), e vai ter que vencer a Liga, de lá por onde der.

Futebol Clube do Porto: Casillas; Maxi, Maicon, Marcano e Alex Sandro; Danilo, Herrera e Imbula; Tello, Aboubakar e Varela.
Vitória de Guimarães: Douglas; Pedro Correia, João Afonso, Josué e Luís Rocha; Cafú; Bouba e Tozé; Alex, Tomané e Henrique.

Os dragões começaram o jogo com quatro reforços e meio no onze inicial: Iker Casillas foi o portero na baliza; Maxi Pereira ficou com a lateral direita da defesa; Danilo foi o “Casimiro” do meio-campo defensivo; Giannelli Imbula, o francês que veio do Marselha e custou 20 milhões aos cofres do clube, fez de “10”, ainda que seja mais um “8”. O outro “meio” reforço foi Silvestre Varela, que na última época não serviu para Lopetegui, andou emprestado, primeiro ao West Bromwich Albion, de Inglaterra, e depois ao desaparecido Parma, em Itália, mas agora já serve, e tanto serve que renovou, ficou com o “7” que era de Quaresma, e até o lugar no ataque “roubou” ao Mustang.

O começo de jogo do Futebol Clube do Porto — ou não estivéssemos em agosto, e agosto, em Portugal, é tempo de romarias e de festas na aldeia — fez lembrar um carrossel. Faltou-lhe, talvez, a música ligeira para embalar o pé, um hit de verão, nada que o público do Dragão, sedento de futebol e de vitórias, não solucionasse. Os azuis e brancos, ao ritmo das palmas e dos cânticos da claque, lá foram trocando a bola, desde a defesa, sempre a sair de Casillas para um dos laterais, sempre a cruzar o meio-campo de ponta a ponta, de pé em pé, e ora seguia para as desmarcações dos avançados, ora voltava atrás, à defesa, e recomeçava o carrossel de Lopetegui.

Mais uma moedinha, mais uma voltinha. O Guimarães não paga, mas também não entra! Não foi Lopetegui, num castelhano com “toque” da Invicta, a dizê-lo, mas até que podia ter sido, pois é dele o carrossel azul e branco. O Vitória de Guimarães não pressionava, deixava o “Degolador” Henrique (ganhou o epíteto quando foi o goleador do Palmeiras, no Brasileirão) sozinho e desamparado lá na frente, e atrás dele duas linhas: quatro na defesa, cinco no meio campo — com os extremos Tomané e Alex a fechar, como conseguissem, as subidas de Maxi e Alex Sandro.

Cedo, logo aos seis minutos, mas já com umas quantas voltas e voltinhas dadas com a bola de pé para pé no carrossel, Cristian Tello recupera-a a meio-campo ao lateral Luís Rocha, sai disparado, qual flecha, pela direita, e cruza para a área. Vincent Aboubakar recebe a bola no peito, olha para a baliza, tira-lhe as medidas, mas, ao invés de rematar, deixa-a redondinha para Imbula, que atira por cima, para a bancada. E é de lá, da bancada, que alguém terá exclamado: o Jackson tinha rematado! Não vai ser fácil para Aboubakar fazer esquecer o colombiano que saiu no Verão para o Atlético de Madrid.

Lopetegui não gostou. Encharcado com a chuva miudinha que ia caindo no Dragão, deitou o polegar e o mindinho aos lábios, soprou, priiiiiiiiii, ao assobio seguiu-se um berro, um espernear, mais um esbracejar, e Aboubakar sentiu a reprimenda. Aos oito minutos, Varela combina com Alex Sandro na esquerda do ataque, tudo ao primeiro toque, o internacional brasileiro cruza, e Vincent Aboubakar, não fosse de novo alguém lembrar-lhe como Jackson faria bem e melhor do que ele, rematou. O rematou saiu enroscado, mas ainda tocou em João Afonso, e enganou Douglas. 1-0 para o Futebol Clube do Porto.

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O Vitória tinha que reagir. E reagiu por Alex. O miúdo tem pinta de “hipster”, cabelo à escovinha, franja a reluzir de gel, barbudo, tatuado, mas a canhota dele não engana: é craque. O “14” do Vitória — que até andou pelos juniores do Porto — fugiu da ala para o meio, à Messi, rematou em arco, mas o arcou saiu frouxo, e Casillas segurou, no chão. O aviso foi dado, com 15 minutos de jogo. Aboubakar, quem mais?, aos 18′, respondeu a Alex, aproveitou uma subida do lateral Pedro Correia, ficou com o corredor esquerdo todo para si, correu, fintou, uma, duas vezes, cruzou para Imbula, que surgiu à ponta-de-lança na área. Falhou, o francês. Mas se fosse ao contrário, nesta noite “sim” de Aboubakar, talvez desse golo.

No Vitória de Guimarães, Bouba Saré, costa-marfinense, foi quem mais deu à perna, fazia dobras sobre dobras no meio-campo e na defesa, mas, para assustar Casillas, só Alex servia. Aos 27′, trocou as voltas ao outro Alex, Alex Sandro, disse que ia para dentro mas foi para fora, e rematou cruzado. Casillas defendeu, mas teve que ir sujar os calções. Em cima do intervalo, de novo e sempre Aboubakar a causar perigo. Recuperou a bola no meio campo, fez um “túnel” por entre as pernas de Cafú, e lançou o tal carrossel — que teimava em continuar a festa. A bola andou pelo meio campo todo, até que Imbula a lançou para Aboubakar, que centra, tenso, para a área, mas Herrera, que se esticou todo, ficou a um palmo do desvio para golo. Intervalo no Estádio do Dragão.

O jogo recomeçou como terminou, com o Porto a ter bola e o Vitória a vê-la circular. Mas ao 51′, Tozé, que chegou a Guimarães via Futebol Clube Porto (ao contrário de Licá e Otávio, emprestados pelos dragões, foi cedido a título definitivo, e pôde jogar esta noite no Estádio do Dragão), correu o que as suas pernas curtas o deixaram, mas deixaram-no, pelo menos, chegar à área e rematar cruzado. Casillas voltou a defender na relva. O Porto sentiu o susto e reagiu logo depois, aos 53′. Varela cruza da direita, Aboubakar, o “omnipresente”, salta com o guarda-redes Douglas, atrapalha-o, e Douglas dá um soco na bola, que sobra para Tello. O catalão só não fez porque João Afonso se redimiu do auto-golo que fez na primeira parte (a Liga acabou por atribuir o golo a Aboubakar) e tirou a bola em cima da linha.

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Aos 61′, Aboubakar bisa no jogo. Maxi Pereira, que se estreou em jogos oficiais de dragão ao peito, desmarca o camaronês, desde o meio-campo, em velocidade. Aboubakar faz uso do físico — que é coisa que não lhe falta –, ganha a frente a Josué na corrida, e remata, na passada, para o 2-0, um remate sem hipóteses de defesa para Douglas. A noite era dele: Vincent Aboubakar.

Logo a seguir, aos 68′, com os foguetes estourados, as canas apanhadas e o carrossel em ritmo lento, Aboubakar, ainda assim, quase fez o hat-trick. Cristian Tello centrou da esquerda para dentro da área, o “9” portista recebeu, fez o que quis e o que não quis dos centrais Josué e João Afonso, rodopiou, e ficou cara a cara com Douglas. O brasileiro levou a melhor, defendeu o remate, mas só agarrou a bola à segunda.

Silvestre Varela voltou aos golos no Futebol Clube do Porto. O avançado dos dragões fez o 3-0 aos 84′. O internacional português correu lado a lado com Maxi Pereira na direita, endossou-lhe a bola para a linha de fundo, Maxi “pica-a” sobre Luís Rocha, que foi à queima no corte, e deixa-a para trás, para ele, Varela, que remata forte e rente ao ponte direito de Douglas.

Aos 88′, Aboubakar tentou de novo o hat-trick. O camaronês recebeu uma bola de Evandro, uma bola que “pedia” um remate de primeira, e rematou, dali mesmo, de fora da área, na passada, em arco e rente à relva. A bola saiu pertinho, pertinho do poste direito do Vitória de Guimarães, mas foi para fora. Que golo que seria! O jogo terminou logo depois, com “olés” vindos da bancada, e o Vitória nas cordas. O Futebol Clube do Porto, com três partidas da primeira jornada já disputadas, é líder, em igualdade com o Sporting, mas com melhor diferença de golos. No próximo sábado, visita o Marítimo, no Funchal. O Vitória de Guimarães recebe o Belenenses, domingo, no Estádio D. Afonso Henriques.