Numa cidade, Lisboa, em que todos os dias abre um restaurante novo, às vezes mais, torna-se difícil, senão impossível, não perder o fio à meada, ou seja, memorizar todos aqueles sítios que vale, de facto, a pena experimentar ou, pelo menos, manter numa lista que possa servir de cábula quando se quer marcar um almoço ou um jantar.

Os dez restaurantes que se seguem podem compor essa mesma lista. São bons — muito bons até, nalguns casos — o que não os impede de estar menos em voga que outros, seja por uma ou outra razão que não interessa, para o caso, discorrer. O que interessa, isso sim, é comer. E comer bem, como se faz em cada um deles.

(nota: a ordem desta lista é apenas, e só, alfabética)

Apicius
O espaço que acolheu o Umai, de Paulo Morais e Anna Lins, transformou-se há pouco mais de um ano em Apicius. Essa transfomação, no que ao espaço diz respeito, foi subtil mas suficiente para tornar a sala bem mais acolhedora do que era até aí. Já a cozinha continuou a ser dominada por um casal, Francisco Magalhães e Joana Xardoné, cuja criatividade se dera a conhecer uns anos antes na extinta Taberna 2780, em Oeiras. As boas indicações dessa época não demoraram a confirmar-se. De há um mês a esta parte, a carta passou a compor-se, aos jantares, apenas de menus de degustação de três, cinco e sete pratos, a 20€, 35€ e 50€. Em cada um deles surgem produtos inesperados — da beterraba à couve-flor, do foie gras à língua de vitela — em criações que vão rodando de três em três semanas. O que só dá bons motivos para repetir a visita. Muitas vezes.

Rua da Cruz dos Poiais, 89 (São Bento). 21 390 0652. De terça a sexta das 12h30 às 15h e das 19h às 23h. Sábado das 19h30 às 23h30. www.apicius.pt. Preço médio: 25€/pessoa

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Apesar de a mudança no espaço não ter sido profunda, a sala está muito mais acolhedora que noutros tempos. (© Luís Ferraz / Apicius)

Aromas e Temperos
A prova de que os grandes restaurantes também não se medem aos palmos está na sala do Aromas & Temperos, que comporta menos de 20 pessoas. As dimensões reduzidas não impedem a chef brasileira Juliana Adjafre de ali unir de maneira original e bem sucedida os aromas e temperos (o nome até já existia, simplesmente calhou bem) de Portugal e Brasil. E de que forma o faz? Criando coisas como o “meu pastel de bacalhau”, uma mescla entre a receita típica portuguesa e os pastéis de vento, ou o “crocante da ilha”, cubos fritos de tapioca com queijo da ilha e uma geleia picante a acompanhar, entre outros. Tudo isto para partilhar, que o convívio é parte fundamental da experiência.

Travessa Rebelo da Silva, 2 (Arroios). 21 362 0119. De segunda a sábado das 19h30 às 23h30. facebook.com/AromasTemperos. Preço médio: 20€/pessoa

Boi Cavalo
Instalado num antigo talho de Alfama, o Boi Cavalo começou por ser um restaurante de uma dupla, Hugo Brito e Pedro Duarte. Entretanto, Pedro desligou-se do projeto, pelo menos a tempo inteiro, pelo que a responsabilidade de manter a criatividade no menu está a cargo de Hugo. É impossível aconselhar o leitor para que escolha este ou aquele prato, tal é a frequência com que vão saindo e entrando na ementa. A garantia é só uma — a matéria-prima escolhida é de valor e a forma como surge apresentada é surpreendente. Sempre.

Rua do Vigário, 70B (Alfama). 93 875 2355. De terça a domingo, das 20h às 02h. www.boi-cavalo.pt Preço médio: 25€/pessoa

Chimera
Adam Heller, Hugo Ferreira e Thomas Mancini são a prova viva de que três chefs na mesma cozinha não são demais, desde que trabalhem com o mesmo objetivo. E que objetivo é esse? De forma resumida: a diversão. Na sala, com música escolhida pelo melómano Thomas (quando o serviço o permite), mas também na cozinha, onde a tripla luso-brasileiro-americana mostra, com descontração, que a lula pode ir bem com chouriço e corn flakes, tal como o pombo vai com o mel ou o cordeiro com o nabo. E mostra, também, que uma cerveja feita em casa pode ser tão boa ou melhor que qualquer outra. Afinal, três cabeças pensam melhor que uma.

Rua do Salitre, 131 (Avenida da Liberdade). 91 871 7050. De segunda a sexta das 12h às 15h e das 20h às 23h30. Sábado e domingo das 20h às 23h30. chimera.kitchen. Preço médio: 25€/pessoa (jantar)

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No Chimera bebe-se cerveja produzida pelos próprios. (Facebook/Chimera)

Fumeiro de Santa Catarina
Aqui, a intenção anuncia-se para quem quiser ler/ouvir: provar que nem tudo o que sai do fumeiro é chouriço. Fazem-no de forma simples — qualquer dos pratos servidos neste pequeno restaurante tem, pelo menos, um elemento fumado. E a coisa resulta? Na perfeição. Recorrendo a inúmeros condimentos e a madeiras diversas, o fumeiro do Fumeiro, passe a redundância, consegue dar um toque original a toda a carne, peixe e doces — destaque, neste campeonato, para os incríveis sonhos com bacon fumado — que fazem parte da ementa. Porque aqui o fumo não polui, só enriquece.

Travessa do Alcaíde, 4C (Santa Catarina). 92 640 9775 /21 347 1002. De terça a sábado, das 19h às 00h30. facebook.com/fumeirosantacatarina. Preço médio: 20€/pessoa

Go Juu
Abriu de forma discreta e sem direito a reportagens porque, segundo os seus responsáveis, a intenção seria transformar-se, em pouco tempo, num clube exclusivamente privado. O clube existe, de facto, mas o restaurante continua aberto ao público todos os dias ao almoço e periodicamente aos jantares. Ainda bem. Trata-se, possivelmente, do melhor local no centro de Lisboa para apreciar a verdadeira gastronomia japonesa. Sim, gastronomia japonesa e não apenas sushi — os seus responsáveis são discípulos do saudoso Takashi Yoshitake, responsável pelo antigo Aya, na Rua das Trinas, e o primeiro grande embaixador da cozinha do Sol Nascente entre nós. Domo arigato.

Rua Marquês Sa Da Bandeira, 46 (São Sebastião). 21 828 0704. Todos os dias das 12h às 15h. De quinta a sábado também abrem ao jantar, embora, como dizem, “essencialmente para membros do Clube Go Juu”. facebook.com/gojuu. Preço médio: 30€/pessoa

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Destaque, no Go Juu para o espaço sóbrio e para as câmaras instaladas por cima dos sushimen, que permitem acompanhar o processo de corte do peixe.
(© José Cardigos / Go Juu)

Leopold
Nma antiga padaria na Mouraria, com balcão de mármore e azulejos Viúva Lamego, nasceu um dos restaurantes de conceito mais arrojado em Lisboa, este Leopold. E arrojado porquê? Porque na cozinha do chef portuense Tiago Feio não entram fogões nem grelhadores. Isso mesmo: a maioria dos pratos são confecionados com ajuda do Roner, uma máquina que coze os produtos fechados em vácuo numa espécie de banho-maria, durante várias horas. O resultado chega a mesa sob a forma de um menu degustação muito cuidado, do empratamento à louça utilizada, toda ela Bordalo Pinheiro. E nunca desilude.

Rua de São Cristóvão, 27 (Mouraria). 21 886 1697 / 96 636 3770. De quarta a domingo das 19h às 23h. facebook.com/restaurante.leopold. Preço médio: 30€/pessoa

Mr. Lu
A história de Mr.Lu dava um filme. Considerado um dos melhores cozinheiros da China em 1997, acabou por emigrar para Portugal no final da década passada. Depois de uns tempos no Porto a lavar pratos acabou por vir para Lisboa onde decidiu fazer da sua casa, na Mouraria, um restaurante clandestino que rapidamente ganhou fama. O dinheiro que juntou permitiu-lhe, no ano passado, abrir um restaurante a sério — escrevamos assim — onde mostra que a distinção que faz questão de exibir na decoração da casa não veio por acaso. Mais genuínos que os pratos típicos do Nordeste da China que ali serve só mesmo os sorrisos com que brinda os clientes cada vez que vem à sala saber se está tudo bem. E está sempre tudo bem, Mr. Lu.

Rua António Pedro, 95 (Arroios). 21 352 0613 / 96 94 16756. Todos os dias, das 11h às 15h e das 19h à 00h. Preço médio: 15€/pessoa

Lisboa , 01/11/2014 - Restaurante Mr. Lu, Lu é um chef que ganhou vários prémios de gastronomia na China, emigrou para Portugal, lavou pratos, juntou dinheiro e finalmente abriu um restaurante seu, com comida tradicional da sua região na China. (Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

A cozinha de Mr.Lu é típica da região de Shandong, no Nordeste da China.
(©Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

Stanislav Avenida
O Stanislav de que se fala aqui deve a existência a um outro Stanislav, que muitos conhecem como o “russo de Cascais”. Correndo o risco de tornar o início do texto ainda mais confuso, acrescente-se que tanto um como o outro devem o nome a Stanislav Rotar, filho do casal que abriu o restaurante original, já lá vão 15 anos. Este Stanislav, o lisboeta, abriu no início de 2014 e tem todos os clássicos — e mais alguns — da cozinha da Rússia, Ucrânia e restante antiga União Soviética. Coisas como Frango à Kiev, Golubsi, Shashlyk, a sopa Borsch e, não menos importante, o bolo Napoleão, uma espécie de mil-folhas que celebra a vitória sobre o Imperador francês na guerra de 1812. Para acompanhar não falta, claro, vodka, a solo ou em cocktail, nem a excelente cerveja russa Baltika.

Rua de São José, 182 (Avenida da Liberdade). 21 353 0140. De segunda a sábado, das 12h30 às 15h e das 19h30 às 23h30. restaurantestanislav.com. Preço médio: 25€/pessoa

The Food Temple
Lisboa pode ter uma quantidade assinalável de restaurantes vegetarianos mas contam-se pelos dedos de uma mão os que são realmente bons, capazes de agradar, inclusive, a quem não se impõe qualquer restrição alimentar. O The Food Temple é um deles. Este projeto de Alice Ming, uma canadiana que veio para Portugal a conselho de uma taróloga, não é apenas um restaurante: ali também se dão workshops e organizam jantares comunitários. Mas também é um restaurante. E dos bons. Não só pelo que sai da cozinha — que segue os princípios vegan e cujas propostas vão mudando com frequência –, como pelo cenário caseiro, com a cozinha à vista, e o ambiente descontraído, em que, não raras vezes, se acaba a partilhar mesa com desconhecidos.

Beco do Jasmim, 18 (Mouraria). 21 887 4397. De quarta a domingo, das 19h30 às 23h30. thefoodtemple.com. Preço médio: 15€