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Vamos brincar a um jogo. Está uma locomotiva humana em forma de músculo, 180 centímetros de altura e 94 quilos, a sprintar o mais rápido que pode. Acelera que nem um doido e faz os 100 metros em mais ou menos 10 segundos. Sem outro espaço por onde passar, vai mesmo a correr na sua direção, sem abrandar nem um pouco. Tem que o parar com o corpo, placando-o, agarrando-o ou colocando-se à frente dele, o que seja. Não valem rasteiras. O que fazia? O problema é que isto não é brincadeira nenhuma e acontece sempre que Bryan Habana tem uma bola oval nas mãos e quer marcar um ensaio. Os norte-americanos bem sabem o que é não arranjar maneira de o parar.

O sul-africano marcou três ensaios dos 10 ensaios que serviram para atropelar os EUA. Levaram pancada da grossa, perderam por 64-0 e garantiram que vão ficar no último lugar do grupo B. Os sul-africanos, mesmo perdendo o primeiro jogo com o Japão, lá asseguraram a passagem aos quartos-de-final, mas esta não é a notícia — os ensaios de Bryan Habana é que o são. Porque assim o ponta ficou com 15 marcados em Mundiais e igualou Jonah Lomu, o brutamontes neo-zelandês (tinha 1,96m e quase 120 quilos quando jogava) que tinha o recorde há 16 anos. E isto até podia nem ter acontecido.

Logo no arranque do jogo, Habana teve um choque feio com Blaine Scully, o arriêr norte-americano que saltou para agarrar uma bola no ar e levou o sul-africano à frente. Habana ficou vários minutos de fora a ser observado, regressou e, na segunda parte, conseguiu marcar os três ensaios em 18 minutos. Até podia ter feito o quarto, não tivesse largado a meio de um mergulho para a área de ensaio uma bola que estava a menos de um metro da linha. Ficou a rir-se, mas ainda terá pelo menos mais uma oportunidade no quartos-de-final, contra o País de Gales ou a Austrália (que se enfrentam no sábado para decidiram os dois primeiros lugares do grupo A). Estes foram o 62.º, 63.º e 64.º ensaios de Bryan Habana em 115 jogos pelos springboks.

O recorde, por enquanto, fica partilhado. Mas há umas quantas diferenças e a primeira é que Jonah Lomu marcou 15 ensaios em dois Mundiais, 1995 e 1999, enquanto Bryan Habana já vai no terceiro (2007, 2011 e 2015). Outra está nos adversários contra quem o neo-zelandês e o sul-africano andaram a marcar ensaios. Lomu, o ponta matulão que jogava com a cabeça rapada e apenas um tufo de cabelo no topo da testa, conseguiu-os contra a Irlanda, a Inglaterra, a Escócia, o Tonga, a Itália e a França. Ou seja, pelo menos três destes países têm seleções das fortes. Já Habana, o ponta que no seu auge daria luta a Usain Bolt nos 100 metros (até já o puseram a correr contra uma chita e contra um avião), marcou os seus 15 contra a Samoa, os EUA, a Argentina, a Escócia e a Namíbia.

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(os 15 ensaios que Jonah Lomu marcou entre os Mundiais de 1995 e 1999.)

Mas nada disto rouba o feito a Bryan Habana. Em boa hora o pai o enfiou no carro, em 1995, quando o obrigou a fazer-lhe companhia nos mais de 2.800 quilómetros que separam Joanesburgo da Cidade do Cabo, para irem ao jogo inaugural do Mundial de râguebi de 1995. O progenitor não quis saber que o filho, então com 11 anos, só ligasse a futebol e críquete e quis torná-lo numa das testemunhas do início de uma caminhada história que até já deu em filme — a África do Sul ganharia à Austrália e conquistaria depois a prova à primeira vez em que participava. Era a África do Sul acabada de sair do regime do apartheid, um país desunido onde Nelson Mandela viu no Mundial um fator de união.

O presidente foi o maior propagandista do evento desportivo que seria o primeiro catalisador de união num povo que durante décadas fora obrigado a conviver separado. E alguém quis que o então pequeno Habana levasse um pedaço dessa experiência. “Levar o Bryan a viver aquele momento foi importante, pareceu-me a coisa mais acertada. Queria que ele visse como uma causa comum pode ajudar. Porque antes de 1994 havia diferentes causas. Se lutasses pela liberdade chamavam-te terrorista, e se outros protegiam a sua liberdade também eram terroristas. De repente tínhamos união”, disse o pai de Bryan, ao The Guardian, em 2008. Foi o râguebi que Nelson Mandela tornou num íman para atrair a preocupação de todos (brancos, negros, o que fosse) que cativou Bryan Habana.

Até aí, nada na sua vida (nem um pai que em jovem também jogara râguebi, a pilar) o fizera querer jogar o desporto no qual viria a ser um dos melhores de sempre. O nome que os pais lhe deram prova-o: o primeiro nome de Habana vem de Bryan Robson e o do meio foi inspirado em Gary Bailey, ambos antigos futebolistas do Manchester United. Isto para mostrar que a relação entre Bryan Habana e o râguebi não foi por acaso, mas foi quase. Até com os ensaios foi assim, pois o sul-africano jogou durante anos a médio de formação (em caso de dúvida, isto ajuda) e só mais velho é que o passaram para a ponta do campo. A relação entre Bryan Habana e o râguebi apareceu tarde e a más horas. Mas hoje não é brincadeira nenhuma: é histórica.