Os doentes sujeitos a cirurgias ou tratamentos de quimioterapia tomam preventivamente antibióticos antes das intervenções – profilaxia – de forma a evitar infeções bacterianas. A equipa de Aude Teillant, investigador no Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva na Universidade de Princeton (Estados Unidos), decidiu avaliar que impacto pode ter a perda de eficácia dos antibióticos profiláticos. As conclusões, publicadas na revista The Lancet Infectious Diseases, são um alerta tanto para a prática clínica como para a comunidade científica.

Problemas identificados: “Prevalência crescente de estirpes [de bactérias] resistentes a múltiplas drogas [bactérias superresistentes] e falta de desenvolvimento de novos antibióticos que tenham como alvo estes organismos”.

Os antibióticos tomados antes das cirurgias, transplantes ou certos tratamentos, como quimioterapia, têm como objetivo evitar uma infeção durante ou após a intervenção médica, mas quando o organismo do doente já aloja bactérias superresistentes, o uso de antibióticos pode acabar por potenciar o seu crescimento. Explicando melhor: um antibiótico de largo espetro (“contra tudo”) matará a generalidade das bactérias do organismo, incluindo “bactérias boas” que ajudam a controlar o crescimento das “más”. Sem adversários no caminho, as bactérias que resistiram ao antibiótico provocam um infeção generalizada ou até a morte do doente.

“Estimamos que entre 38,7% e 50,9% dos patogénicos que causam infeções depois das cirurgias e 26,8% dos patogénicos que causam infeções depois da quimioterapia são resistentes aos antibióticos profiláticos padrão nos Estados Unidos”, referem os autores do estudo.

Os investigadores fizeram uma revisão dos estudos sobre resistência a antibióticos profiláticos publicados entre 1968 e 2011 e depois criaram um modelo que mostrasse as consequências da redução da eficácia dos antibióticos profiláticos na prevenção de infeções após tratamento. Os autores tiraram conclusões específicas em relação aos Estados Unidos, mas as conclusões genéricas podem também ser aplicadas à Europa: “A crescente resistência aos antibióticos é uma potencial ameaça à segurança e eficácia dos procedimentos cirúrgicos e quimioterapia imunossupressora”.

Mapa interactivo da Europa e da resistência das várias estirpes de bactérias aos antibióticos usados (aqui).

Para os Estados Unidos, os autores concluíram que, nas dez cirurgias mais frequentes no país e na quimioterapia para cancro do sangue, “uma redução de 30% na eficácia dos antibióticos profiláticos” significaria “120 mil infeções adicionais por ano” e “6.300 mortes relacionadas com essas infeções”, quando comparadas com os dados de 1968 a 2011. O modelo permitiu ainda fazer outras previsões, igualmente em relação aos dados conhecidos: com 10% de redução de eficácia haveria mais 40 mil infeções e 2.100 mortes e com 70% de redução de eficácia haveria mais 280 mil infeções e 15 mil mortes (previsões por ano, para os Estados Unidos).

“Apesar de as infeções locais causadas por bactérias resistentes aos antibióticos profiláticos padrão terem aumentado, não existem dados que apoiem ou desencorajem o uso de regimes de largo espetro para procedimentos cirúrgicos e quimioterapia em caso de cancro”, alerta a equipa de Aude Teillant. Acrescentando que novas abordagens, como a deteção precoce das bactérias superresistentes que já vivem com o indivíduo de forma a usar antibióticos mais específicos pode ser uma solução. “Porém, ainda é preciso aferir a exequibilidade e a relação custo-benefício desta estratégia.”

“Mesmo que regimes modificados possam trazer benefícios a curto prazo, vão contribuir para o problema da resistência a longo prazo”, nota Joshua Wolf, investigador no Hospital de Investigação em Crianças St. Jude (Estados Unidos), que não participou no estudo.

Num comentário ao artigo publicado pela equipa de Aude Teillant, Joshua Wolf diz que se deve começar a pensar já no problema da resistência aos antibióticos antes que seja “tarde demais”. A profilaxia personalizada pode ser uma solução, mas o investigador propõe também que em pacientes com cancro se acabe de uma vez com os antibióticos profiláticos. Apesar de o risco das bactérias superresistentes ser conhecido, Wolf refere que “a maior parte dos países continuam sem ter uma estratégia coordenada para diminuir a resistência antimicrobiana”.

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Apesar dos resultados alarmantes, a equipa de Aude Teillant admite que o relatório ainda apresenta várias limitações, começando pela dificuldade em comparar estudos tão diferentes, ao longo de um período de tempo tão vasto, em que tanto a resistência antibacteriana como as técnicas cirúrgicas sofreram modificações. Além disso, metade dos ensaios clínicos foram feitos na Europa, outros no Canadá ou noutros países. Logo, o modelo criado pode não ser absolutamente fidedigno e comparável com a situação atual norte-americana, mas é a melhor aproximação neste momento.

“São precisos ensaios clínicos para assegurar de que forma as recomendações em relação aos antibióticos profiláticos devem ser modificadas numa situação de resistência crescente”, recomendam os autores no artigo. “Precisamos urgentemente de estratégias nacionais e internacionais para limitar a ameaça crescente da resistência antimicrobiana e para desenvolver novos antibióticos.”

O plano de ação a cinco anos da Comissão Europeia, nomeadamente da Direção-Geral de Saúde e Segurança Alimentar, inclui a luta contra a resistência antimicrobiana: promovendo o uso correto de antibióticos tanto em pessoas como em animais, prevenindo o aparecimento e dispersão de infeções, aumentando a vigilância e incentivando a investigação e desenvolvimento de novos antibióticos ou tratamentos alternativos. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças partilha as mesmas preocupações em relação ao mau uso dos antibióticos e ao aumento da resistência das bactérias.