Mais um banco de investimento que foi apanhado de surpresa pelas negociações de António Costa com Bloco de Esquerda e Partido Comunista. O holandês Rabobank enviou esta quarta-feira uma nota aos seus clientes em que se mostra surpreendido por o PS se virar para a esquerda e avisa os investidores de que veriam “com muita reticência” a hipótese de investir em dívida portuguesa nesta altura.

“Na antecipação às eleições acreditávamos que a ameaça para as obrigações portuguesas era limitada, já que tanto o PSD-CDS como o PS apareciam, globalmente, como defensores da consolidação orçamental e acreditávamos que uma coligação das esquerdas era improvável. No entanto, essa possibilidade aumentou claramente e, para que o PS consiga fazer esta coligação terá de fazer cedências à CDU e ao BE”, escrevem os analistas do Rabobank, que dedicam a Portugal o título da sua newsletter matinal aos investidores.

Os analistas notam que “as notícias vindas de Portugal já levaram a um alargamento do prémio de risco de Portugal face à Alemanha em 5,5 pontos base”, apesar da certeza dos investidores de que o BCE está às compras de dívida pública, ao abrigo do seu programa de estímulos monetários. Apesar desse importante fator, o Rabobank alerta: “veríamos com muita reticência a possibilidade de entrar em posições longas [a apostar na subida dos preços – e descida dos juros] enquanto se mantiver esta incerteza política“.

O influente banco holandês acrescenta que “nos dias anteriores às eleições, havia poucas indicações de que os três partidos à esquerda poderiam chegar a um acordo conjunto, acreditando-se que os dois partidos mais pequenos tinham demasiadas diferenças ideológicas em relação ao Partido Socialista”.

Esta surpresa manifestada pelo Rabobank, na linha do que outros bancos de investimento já afirmaram, ajudará a explicar a razão por que a dívida portuguesa tenha invertido o seu desempenho face à dívida espanhola, que no início do mês sofria com alguma incerteza face às eleições na Catalunha. Nos últimos dias, essa evolução inverteu-se, como pode ver neste gráfico:

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Os juros de Espanha estão representados pela linha amarela, ao passo que os juros portugueses são a linha branca (com fundo azul). Fonte: Bloomberg

Os juros da dívida estão a subir 4 pontos-base, mantendo-se, contudo, no intervalo em que têm negociado – algo que o Rabobank atribui aos estímulos do BCE, que “favorecem o estreitamento dos prémios de risco de todos os países da periferia“.

Outros sinais de risco vêm do preço que custa comprar um seguro de incumprimento (credit default swap) de um banco português como o BCP. Os credit default swaps são medidos em pontos-base, sendo que 428 pontos-base significam que por cada 10 milhões de euros em dívida do BCP paga-se um prémio anual de 428 mil euros.

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Os “credit default swaps” do BCP estão a subir, sinalizando maiores receios dos investidores em relação a Portugal. Fonte: Bloomberg