Dark Mode 97 kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

"Preciso de sentir com tudo. De ver, de comer, de nadar"

Foi com sala cheia no CCB que Laurinda Alves apresentou a sexta edição das "Conversas" do Observador. Falou-se sobre "Os Sentidos", mas foi o sexto sentido o mais falado: afinal, o que é a intuição?

i

Observador

Observador

“Quando temos à nossa volta pessoas que nos inspiram — pessoas que fazem a diferença na nossa vida — nós voltamos a acreditar e achamos que é possível.” A frase, da moderadora Laurinda Alves, marcou o arranque da sexta edição das “Conversas” do Observador esta quinta-feira, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. A sala Luís de Freitas Branco encheu. E, com um painel rico e diversificado, conversou-se sobre Os Sentidos.

Joana Carneiro, maestrina principal da Orquestra Sinfónica Portuguesa e da Berkeley Orchestra, inaugurou a conversa e começou por explicar o seu papel: “Sou maestrina. O que eu faço é exprimir através do meu corpo qualquer coisa que deve ser clara — a mensagem de alguém, os sentimentos de alguém, [algo] que outra pessoa imaginou.” Para quê? “Para criar beleza, de uma forma uniforme, com um grupo de músicos, de almas únicas, que são a orquestra.”

Num encontro incontornavelmente marcado pelos atentados em Paris a 13 de novembro, Joana Carneiro não pôde deixar de recordar ainda outros “momentos difíceis” da história nos quais os artistas foram “veículos de beleza”. Deu os compositores como exemplo: ao longo dos tempos, “conseguiram transformar os momentos mais hediondos [da história] em momentos de beleza”. “A arte pode ser um veículo de beleza”, acrescentou, “mesmo tendo em conta um acontecimento tão horrível”. Que tem isto a ver com os sentidos? “O maestro é um veículo de emoção, de sentimentos, através de alguns sentidos”, disse. Consegue “afetar o som” através “do corpo” e através “das palavras”.

Desenvolveu, recorrendo às ideias de um outro maestro, Ricardo Muti, diretor musical da Orquestra Sinfónica de Chicago: “O maestro recebe uma partitura em casa. Tudo aquilo que se passa na orquestra está presente. Através da visão, o maestro lê a música. E essa leitura transmite-se no seu intelecto, no seu coração, em sons. Sons que só poderia conhecer e identificar, sem acesso a um piano, tendo escutado [outros] sons combinados ao longo da sua vida. Depois, o maestro não tem de dar só perceção a isto tudo. Tem de [lhe] dar sentido”, disse. “Para nós, maestros, sentidos são perceção e orientação”, indicou.

E depois? Como explica Joana Carneiro, “através do seu corpo, das suas mãos, [o maestro] tem de transmitir aquela caminhada que idealizou no seu coração e que pensa ser o desejo do compositor”, até chegar a um “universo vastíssimo”: a orquestra. Utilizando os sentidos, cada elemento do conjunto tem de ler a partitura e interpretar os gestos do maestro. Tudo isto para, “através dos seus outros sentidos”, transformarem esta receita “em som”. Em música.

Seguiu-se a intervenção do arquiteto português Camilo Rebelo, professor e também um dos responsáveis pelo projeto do Museu do Côa. Aliás, foi esse o ponto de partida: quem já esteve no Museu do Côa conhece-o porque já o experimentou “sensorialmente”. Sentiu “o vento, os pássaros, o rio a correr”, a “imensidão, a dureza da paisagem”. Mas quem “só viu fotografias” diz “que não percebe o museu”. “Durante muito tempo me pediram para explicar, de alguma maneira, o que era o museu”, conta o arquiteto.

Foram realizados vários trabalhos por fotógrafos profissionais, mas que “nunca conseguiam extrair a essência que os sentidos precisam para se compreender o que é aquele território e aquele museu naquela paisagem”, acrescentou. “Pedi a dois produtores de vídeo e disse-lhes: ‘preciso de um vídeo de dois minutos para pôr na Net e que consiga deixar essa mensagem'”, continuou. À partida, dada a complexidade do museu, disseram-lhe que “não era possível”. Mas a ideia seguiu em frente. O resultado final, que aqui reproduzimos, foi também projetado na conferência:

“A viagem para o arquiteto é absolutamente fundamental”, retoma Camilo Rebelo. “A viagem é muito importante para nós”, para “conhecermos o contexto”. “Eu preciso de sentir com tudo. Preciso de ver, de comer, de nadar. Preciso de me deixar envolver de todas as maneiras e mais algumas, para perceber o que é aquela cultura, o que é aquele sítio”, refere.

Sexto sentido. O que é?

Foi com essa envolvência que Camilo Rebelo apresentou alguns dos projetos em que tem trabalhado, projetando imagens e relacionando-os com os cinco principais sentidos. No fim, um extra: o “sexto sentido”. “Uma nova dimensão” humana, para além do homem vitruviano, para além do homem da máquina. Um “sexto sentido [que] está sempre associado à mulher”, à sua “intuição”. “Algo que a mulher não pode deixar cair”, acrescenta. Terminou com uma imagem, “uma dedicatória à mulher intuitiva”: uma medalha da sua autoria, em contraste com o pôr-do-sol. “Uma espécie de amuleto, de talismã, que potencia a fertilidade, a intuição. E que nos faz pensar no sexto sentido”, concluiu.

Com esse sexto sentido em mente, partiu-se para a apresentação do padre Nuno Tovar de Lemos. “Eu gostava de vos falar do sexto sentido”, começou o sacerdote jesuíta. Não aquela “capacidade de perceber emoções e intenções que não são óbvias”, mas um sexto sentido “muito terra-a-terra, muito próximo do senso comum”. “O sexto sentido está para nós, cá dentro. Aquilo que nós, na tradição cristã, chamamos de ‘alma'”. Assim como os cinco sentidos estão para o corpo. “[Esses sentidos] protegem-nos e guiam-nos”, defendeu Tovar de Lemos. Ilustrou com dois exemplos: quando percebemos que um ovo está podre pelo cheiro a enxofre, ou que vemos que um caminho na montanha é perigoso.

O sexto sentido atua de forma semelhante. É um sentido “que nos protege de maus negócios, de passos mal dados” e que “nos guia para coisas que são boas. Como pano de fundo? “A felicidade, a realização, aquilo que, na linguagem cristã, chamamos de salvação”, explicou o sacerdote. “É universal”, disse. Todos o têm. Voltou aos exemplos. O sexto sentido é, por exemplo, algo que nos faz perceber se um amigo está ou não está bem. Caso esteja, “a pessoa está a sair de si mesma e a avançar” para “coisas grandes”. Sem perder “muito tempo a queixar-se”, a atribuir culpas.

“Ultrapassando esses clichés todos que nos impingem, é descobrir a maravilha de eu, livremente, estar lá para o bem do outro. E estar lá para entrar em relações de dar e receber, de igual para igual, com o diferente de mim”, defendeu Tovar de Lemos. E, no fim, abriu a caixa de Pandora do que é, na realidade, o sexto sentido. Como? Dando-lhe um nome: o sexto sentido é “o sentido humano”.

conversas-espace-observador-sentidos

Padre Nuno Tovar de Lemos, durante a apresentação

O cérebro e os sentidos

A relação do cérebro com os sentidos partiu da investigadora e neurocientista Diana Prata, professora assistente no King’s College London. “Os cinco sentidos são como a porta para o cérebro e a porta para o ambiente. Para tudo o que se passa à nossa volta”, começou. “Nós, os cientistas, olhamos para os sentidos como coisas muito falíveis” e, por isso, “[trabalhamos com] instrumentos”, [repetimos] as experiências” e “[usamos] a estatística para comparar as medições”.

Mas nem por isso Diana Prata descarta a importância dos sentidos. “A verdade é que, durante milhões de anos em que não houve ciência nem laboratórios, os nossos sentidos serviram-nos muito bem para compreendermos o mundo à nossa volta”, explicou. Apesar dessa falibilidade dos órgãos que captam os sentidos — e das “incongruências” dos próprios sentidos –, “o que está bem feito é o nosso cérebro”, defendeu a cientista. “O nosso cérebro interpreta tudo o que vem dos sentidos”, afirmou.

Ou seja, se é o cérebro que faz a “integração dos sinais”, os cientistas podem criar, por exemplo, “coletes que dão audição a pessoas surdas”. Através “de elétrodos”, estes coletes “são sensíveis ao ruído e aos estímulos auditivos ao nosso redor”, permitindo a alguém surdo ter a capacidade de ouvir. “Porque é o cérebro que nos dá a audição, a visão, etc.”, referiu Diana Prata.

Regressando ao sexto sentido, a investigadora contou também que os cientistas “contrapõem a intuição com a deliberação”. Para explicar, lançou a pergunta à sala: “É mais provável que a mãe ter olhos verdes se a filha tiver olhos verdes”, ou o contrário? São estes os “intuitivos”, pois “os deliberativos” são “quem acha que não há diferenças”. “É igual a probabilidade”, referiu.

Partilhar emoções e cheiros, numa garrafa de vinho

“Na vida é importante também a partilha e dar sensações a outras pessoas”, começou por dizer Sandra Tavares da Silva, enóloga portuguesa e gerente da empresa Wine & Soul. “Ter um produto final numa garrafa de vinho é fabuloso, porque estamos a partilhar emoções, cheiros, paladares. Foi por isso que enveredei por enologia”, explicou na sua intervenção.

“A enologia é uma ciência muito completa, porque temos de ter os sentidos muito apurados”, afirmou. Não só o paladar e o olfato mas também a visão, para “analisar o vinho” ou até mesmo para olhar e “interpretar a vinha”. Deu o exemplo de uma prova de vinhos que, por norma, é “feita em três fases”. Começa-se por colocar o vinho no copo — onde se avalia “a cor, a tonalidade, a limpidez e a opacidade do vinho”. Segue-se a parte olfativa, do cheiro do vinho. E termina-se com o paladar e o tato — “ao pormos o vinho na boca, nós, com a língua, estamos também a ter o tato”, que permite avaliar, por exemplo, “a textura, a concentração, os taninos”.

E a audição? Como se relaciona ela com o vinho, com a enologia, com esse “partilhar de emoções”? “A audição está muito presente em nós quando trabalhamos numa adega, onde estamos constantemente a ouvir”, sejam os “barulhos estranhos” que podem representar “um problema com alguma máquina”, seja “a cinética da fermentação” do vinho. “Ser enóloga é uma profissão supersensorial”, afirmou Sandra Tavares da Silva.

Para fechar, novamente a música

Foi David Santos — ou melhor, Noiserv — quem encerrou a conferência. O músico português subiu ao palco não para cantar mas para explicar que “o intuitivo também se trabalha. Quando gostas [do que fazes, isso] passa a ser intuitivo ao fim de um tempo”, defendeu. A música de David Santos tem corrido o mundo e concentra em Portugal uma legião de fãs bastante significativa.

Contudo, não é só pela música que David Santos é conhecido. Noiserv rege-se sob o princípio de que tudo o que produz som pode ser usado como instrumento musical. “É perceber até que ponto um som que não é a guitarra ou o baixo comum, dentro da sensibilidade que determinada música tem, pode ou não dar mais à música”, referiu. E trouxe alguns desses objetos para o CCB, que mostrou à plateia. O músico optou ainda por partilhar mais um ponto de vista sobre o que pode ser o sexto sentido tão falado nesta conferência: “é aproveitar melhor os outros [sentidos] todos”, concluiu.

Esta conferência fecha assim o primeiro ciclo de “Conversas”, uma iniciativa que aproximou a comunidade de leitores do Observador numa série de seis conferências no CCB. “Foi uma grande conferência”, disse Laurinda Alves.

Editado por Diogo Queiroz de Andrade.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.