O sistema imunitário combate as bactérias e outros agentes patogénicos que tentam atacar o organismo, mas ao mesmo tempo tolera que o intestino esteja carregado delas. As bactérias do intestino são importantes não só para o funcionamento do sistema digestivo, mas para a regulação de várias funções do corpo. Agora, uma equipa de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (Oeiras) verificou que os indivíduos que não têm um sistema imunitário a funcionar plenamente, também não têm uma flora intestinal regular, conforme publicaram esta quarta-feira na revista científica Nature Communications.

Usando ratos de laboratório normais e ratos de laboratório sem linfócitos (um tipo de glóbulos brancos que faz parte da resposta imunitária), os investigadores do IGC verificaram que, quando eram sujeitos a uma mudança na dieta, os ratos normais se adaptavam rapidamente, enquanto os ratos com o sistema imunitário debilitado tinham mais dificuldade em adaptar-se. Além disso, os ratos normais apresentavam o mesmo tipo de adaptações benéficas, enquanto os ratos doentes apresentavam uma grande diversidade entre indivíduos.

“Nós observámos que esta característica se deve a mudanças na composição da comunidade de bactérias no intestino, que é mais semelhante em indivíduos com um sistema imune saudável e bastante mais diversificada em animais com um sistema imune comprometido”, disse João Batista, estudante de doutoramento e primeiro autor do artigo, em comunicado de imprensa da instituição.

Mas porque é que isto é importante? Se a recuperação da flora intestinal nos indivíduos com um sistema imunitário deficiente é imprevisível, isso pode comprometer o tratamento de problemas intestinais nesses indivíduos. “O uso de terapias generalistas para tratar pessoas que sofrem de patologias intestinais resultantes de um sistema imunitário deficiente, como é o caso da doença inflamatória do intestino, pode não ser a melhor abordagem”, explicou Isabel Gordo, uma das coordenadoras da investigação e líder do grupo de Biologia Evolutiva do IGC. “Em vez disso, devem ser consideradas terapias baseadas em medicina personalizada, que tenham em conta a composição de bactérias do intestino de cada pessoa.”

Este trabalho beneficiou da colaboração de duas equipas do IGC, uma de evolução liderada por Isabel Gordo, e outra de imunologia, liderada por Jocelyne Demengeot.

Os medicamentos também prejudicam as populações de bactérias do intestino

O uso de medicamentos também pode provocar alterações na flora intestinal, conforme mostrou esta quarta-feira, uma equipa de investigadores do consórcio MetaHIT, com um artigo publicado na revista científica Nature. O medicamento Metformin, frequentemente usado no tratamento da diabete tipo 2, tinha mais efeitos negativos nas bactérias do intestino que a própria doença.

“É surpreendente que uma única droga provoque uma mudança tãoo grande nos nossos microrganismos”, disse Peer Bork, investigador no Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EMBL na sigla em inglês), em comunicado de imprensa da instituição. “Agora pensem quantos medicamentos existem e quantas pessoas tomam vários comprimidos diariamente: mesmo que apenas uma pequena parte destas tenha impacto, podem ainda assim provocar alterações dramáticas no intestino das pessoas.”

Esta descoberta pode ajudar a explicar os efeitos secundários deste medicamento e a justificar porque é tão difícil caracterizar a flora intestinal das pessoas que têm diabetes – pode depender do tipo de medicamento e da quantidade que tomam.

Atualizado com o segundo artigo da Nature às 18h30.