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Vinte e quatro. Mais dois ou três “meninos” (Raúl Gudiño, Igor Lichnovsky ou André Silva, por exemplo) que são mais da “B” que dos AA. Julen Lopetegui tem 24 futebolistas à sua disposição no plantel todos os dias no Olival. O que não falta lá é qualidade, nem quantidade.

Quando chega o Natal, correm os treinadores à direção para pedinchar um lateral-esquerdo que cruze bem (se não for pedir muito, que defenda tão bem ou melhor do que cruza) no sapatinho, um ponta-lança “pinheiro” no pinheirinho e, como até foram bem comportados e venceram mais jogos do que aqueles que perderam, se o menino Jesus deixar, que venha também um centralão lá para o meio da defesa.

Se Lopetegui for pedir tudo isto a Pinto da Costa ou Antero Henrique é um glutão, daqueles glutões que têm mais olhos do que barriga, pois ter uma solução por posição (às vez ter três ou mais) como ele tem, não é para qualquer um. Tivesse Paulo Fonseca tido a fartura que o espanhol tem. Ou Jesus no Sporting. Ou Rui Vitória no Benfica. Nenhum deles desdenharia ter um Imbula ou um Tello no onze — eles que até são mais suplentes do que titulares com Lopetegui.

Mas ter soluções a mais também dá em desperdício às vezes. Lopetegui, com as tais soluções a mais, põe-se a mexer no onze, jogo sim, jogo sim, dando ao onze rotação, mas tirando-lhe as rotinas. Hoje voltou a mexer. Como sempre. Mas mexeu pouco, pouquinho. Na defesa e no meio-campo nem pôs o bedelho. E a baliza é sagrada: é de San Iker Casillas.

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No ataque, Dani Osvaldo, que é mais de ver o jogo no banco do que no relva, hoje foi sentir-lhe o cheiro, pisá-la, sentando o habitualmente come-relva (como corre e luta Aboubakar) no seu lugar (pouco) cativo, e lá ficou o camaronês a tilintar de frio e com a manta a cobrir-lhe as pernas. Quem também entrou nas contas de Lopetegui foi Jesús Corona, que tem apelido de cerveja e chegou a Portugal a borbulhar de golos, mas rapidamente fechou a torneira e secou-se-lhe o “pé-quente” — mas é, ainda assim, o melhor marcador do clube na Liga (cinco golos em seis jogos) a par de Aboubakar. Quem de lá nunca saiu (leia-se: do onze) foi Brahimi, que quando as coisas correm mal, como em Aveiro com o Tondela correram, é ele o abono de família da família portista. E como a família portista gosta (e depende) dele.

Em Aveiro, nem de propósito, o FC Porto foi previsível. E amorfo. Mas teve a bola o tempo todo e isso satisfez (como sempre o satisfaz; ele que vê sempre num Tondela um Real Madrid e num União da Madeira um Chelsea) o seu treinador. Mas nem sempre soube fazer com a redondinha aquilo que os adeptos gostam que faça: verticalizar o jogo, ter ocasiões de golo e consumá-las. Os adeptos não ficaram satisfeitos como Lopetegui ficou. E Lopetegui sabe-o. Tanto sabe que hoje deixou-se de losangos no meio-campo, de avançados-centro a dobrar e pôs extremos. Extremos à antiga. Em 4-3-3. Corona e Brahimi, o primeiro à direita e o segundo na esquerda, puseram aceleração no jogo, verticalizaram-no, deram água pela barba no um-para-um e os golos surgiram uns depois dos outros.

Aos 22′ já ia a contagem nos três — e assim se chegou ao intervalo. De mexicano para mexicano, Layún cruzou da esquerda para o Dragão de Ouro Herrera fazer o primeiro, de cabeça, entre os centrais — mas até foi Joãozinho quem desviou o cabeceamento para a baliza na tentativa de cortá-lo. Brahimi fez o 2-0 depois de assistido por Maxi Pereira desde a direita. Os pozinhos de perlimpimpim do argelino fizeram o resto dentro da área. Por fim, e por falar nele, Corona, num golo em que não se sabe se queria cruzar ou se queria chutar, levantou o estádio. Ou pelo menos levantou os poucos adeptos (e as muitas moscas) que foram à Choupana esta noite.

Os adeptos e sócios portistas esfregavam as mãos de contentamento, tiravam a barriga de misérias e nada mais tinham do que se queixar para ter que puxar as orelhas a Lopetegui. Mas na segunda parte lá voltou o acabrunhamento de Aveiro, a bola ia e vinha mas não saía do lugar, andava ali pelo meio-campo, dava uma voltinha na defesa, os bons-dias aos atacantes, mas nada, nadinha de ir desempoeirar o fundo das redes. Foi uma pasmaceira pegada, como pasmaceira já tinha sido o jogo em Aveiro.

E com tantas veleidades dadas, via-se que o União da Madeira queria reagir. Mas faltavam-lhe unhas. O que é que Norton de Matos fez? Aos invés de dar unhas, roeu-as. De vez. Tirou os extremos, um por um. Não pôs um só médio ofensivo (o talentoso Filipe Chaby sentou-se no banco e no banco ficou) que assistisse o ponta-de-lança que entrou de início (Élio) e o que entrou no recomeço (o venezuelano Jhonder). E com isto a equipa fechou-se atrás e isolou-se na frente. Entre um setor e outro havia um Atlântico a separá-los.

Lopetegui, por sua vez, e vendo que a equipa estava amorfa, vendo o ponta-de-lança Osvaldo (que não só não fez esquecer Aboubakar, como ainda conseguiu que todos tivessem saudades do camaronês no jogo de hoje) ser expulso por agressão, ao invés de procurar mais golos, rodou. Rodou uma equipa que está sempre a rodar, mas que não tem rodagem de jogar junta. Nem tem tempo para isso. Lopetegui chegou a pôr Maicon na vez Corona, ficando sem extremos (Brahimi já tinha saído) e a jogar com uma defesa a cinco. Cinco defesas: três centrais e dois laterais. Isto contra um União da Madeira que mal atacava e que defendia mal.

O jogo terminaria com mais um golo. Foi Danilo Pereira a marcar e Bruno Paixão a deitar os olhos ao cronómetro, o apito aos lábios e dizer que nem um segundo mais se jogaria na Choupana. Foi aos 93′. A jogada foi daquelas de laboratório, ensaiadas vezes e vezes sem conta nos treinos, com Maxi a ameaçar que ia marcar, mas não marcando. Acabou por ser o outro lateral, Layún, a cruzar na sua vez, desde a direita e para a área. Surgiu lá Danilo, a saltar sozinho nas costas de Diego Galo e na frente de Paulo Monteiro, os centrais, desviando de cabeça para o 4-0.

O FC Porto começou com gás, mas perdeu-o todo ou quase todo na segunda parte. Mas nem tudo é mau: em Aveiro nem sequer se viu gás, um chama que fosse, que alumiasse a noite — o golo de Brahimi foi uma fagulha; uma fagulha memorável, mas uma fagulha. Hoje pelo menos o dragão foi eficaz, fez três golos nos seus primeiros três remates à baliza de André Moreira, mas não os fez por sorte: a eficácia deu muito, muito trabalho. Desde logo o trabalho de Lopetegui em não mexer no onze de ponta a ponta, apostando num que fosse mais vertical, com mais baliza em mira e menos obcecado por bola.

Contas feitas: bem ou mal, gostando-se ou não, os azuis-e-brancos só estão a dois pontinhos do líder Sporting. E os dois encontram-se daqui por três jornadas, à 15ª.