Artigo originalmente publicado a 29 de dezembro

Tinha dito que nunca entraria na política mas essa viria talvez a ser a sua afirmação mais revogável. Chegou à liderança do CDS-PP em 1998, saiu sete anos depois, em 2005, mas manteve-se à tona e não resistiria a voltar em 2007. Até ontem. Dezasseis anos depois, Paulo Portas despede-se do partido que durante muito tempo foi visto como sendo de um homem só. O PP, de Partido Popular, ou de partido de Paulo Portas.

Depois de quatro anos no Governo onde cumpriu o sonho de ser quase primeiro-ministro, e nas vésperas de começar um novo ano, abre-se um novo ciclo político e, pela primeira vez em quase duas décadas, Paulo Portas não fará parte do elenco. Desta vez é mesmo irrevogável. Sai pela Porta grande e sossega os seus garantindo que deixará o partido em boas mãos, quem quer que venha a ser o seu sucessor. “Não tenham medo, confiem, o CDS vai ser capaz”, disse ontem à noite depois da reunião da comissão política em que comunicou aos seus e ao mundo que ia sair de cena. Frase bem diferente de outra que disse em 1998 quando começava a dar sinais de que queria voar mais alto: “O PP não tem emenda”.

Breve viagem aos 16 anos de one man show, algumas das vitórias e das derrotas do político das sete vidas.

As vitórias

Congresso ganho, o início de uma nova era

Militante da JSD desde os 12 anos, movido pelo fascínio a Sá Carneiro, Paulo Portas optou por trilhar os caminhos da política e da intriga política do lado de fora, enquanto diretor do jornal O Independente. Esteve na linha da frente do combate escrito ao cavaquismo até 1995, escrevendo inflamadas crónicas semanais ao mesmo tempo que ajudava Manuel Monteiro a chegar à liderança dos centristas. Foi assim que transformou o partido democrata cristão no PP (Partido Popular), à sua imagem e semelhança, e que se candidatou como deputado à Assembleia da República, mesmo depois de ter jurado não ter intenções de o fazer.

Em 1998, quando Manuel Monteiro, derrotado nas autárquicas e fustigado pelos ataques com receio da desagregação do partido, renuncia à liderança, Paulo Portas é o nome que se segue. Tinha começado por ser o mais direto apoiante de Monteiro mas acabaria por ser o seu mais direto rival. Em Braga, o ex-jornalista ganha a liderança do partido de forma mais ou menos surpreendente. Não tinha ainda o apoio dos históricos do partido, mas tinha as tropas alinhadas entre os jotas e a geração que se seguia. E tinha o carisma que o partido ansiava.

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Foi o suficiente. Ganhou e ganhou de forma esmagadora, derrubando Maria José Nogueira Pinto, que tinha o apoio dos históricos do partido e da maioria dos barões centristas. Começava ali uma nova era para o CDS.

16 anos ao leme, metade no Governo

Um dos maiores orgulhos de Paulo Portas é ter estado no Governo sensivelmente metade do tempo em que liderou o CDS. Levar o CDS de novo para o poder era um dos principais objetivos de Portas quando se candidatou a primeira vez ao partido e muitos duvidavam se iria efetivamente conseguir. Integrou o Governo em 2002 quando fez uma aliança pós-eleitoral com o PSD de Durão Barroso. E voltou à cadeira do poder em 2011 com Passos Coelho também com uma coligação pós-eleitoral. Nas legislativas de outubro, concorreram juntos.

Referendo ao aborto, os festejos do ‘não’

O primeiro referendo alguma vez realizado em Portugal caiu no colo de Paulo Portas, acabadinho de chegar à liderança do CDS-PP. Foi em junho de 1998 que Portugal foi chamado a pronunciar-se sobre a despenalização do aborto e, com uma abstenção recorde, ganhou o “não”, com 50,9% dos votos. Os democratas cristãos, claro, tinham feito campanha pelo “não” e no fim celebraram.

Os ventos, na verdade, eram favoráveis, já que surpreendentemente o PS, no poder, também estava pelo “não”, movido pelo catolicismo do líder e primeiro-ministro António Guterres. Em todo o caso, com uma abstenção de mais de 68% a consulta popular não teve efeitos vinculativos.

2007, a reconquista

Em 2005, na sequência de um desaire eleitoral, Portas demite-se da presidência do partido. Tinha cumprido sete anos à frente dos centristas e decidiu encerrar o primeiro ato do seu one man show. “Pedi sempre a Deus que me fizesse ver o tempo em que deveria sair. O tempo em que um ciclo termina. E que não ficasse nem mais um segundo para além desse tempo. Eu acho que terminou o ciclo político em que eu presidi ao CDS ao longo de sete anos”, disse quando se demitiu. Foi o mea culpa pelos maus resultados eleitorais e um adeus ao partido que em dois meses passou a ser liderado por Ribeiro e Castro.

Seguiram-se dois conturbados anos de Ribeiro e Castro na liderança dos centristas, e um ensaio de afastamento de Paulo Portas, que chegou mesmo a sair do país. Mas o segundo ato do show estaria para breve. O regresso foi visto como um assalto ao poder, e levou a que alguns nomes sonantes batessem com a porta (foi o caso de Maria José Nogueira Pinto), embora os seus mais fiéis seguidores clamassem a sua intervenção imediata. Nuno Melo, então líder da bancada parlamentar, disse mesmo que o partido sentia “a falta” da liderança de Portas, e que esperava que 2007 trouxesse “ano novo, vida nova” ao partido. E trouxe. Paulo Portas candidatou-se formalmente à liderança do CDS em março e disputou as eleições com Ribeiro e Castro em abril, vencendo com 75% dos votos. Mais uma vitória esmagadora.

O sonho de ser vice-primeiro-ministro tornado realidade

Crise política. Austeridade. A crise do irrevogável, uma mancha no currículo e um governo por um fio. Mas mesmo assim o verão de 2013 acabaria por ser uma espécie de número da sorte pessoal para Paulo Portas. Foi o ano em que cumpriu o sonho de se tornar vice-primeiro-ministro e de reformular o Executivo dando mais peso aos centristas.

A vitória começou por ser a aliança pós-eleitoral que fez com o PSD de Pedro Passos Coelho em 2011 e que permitiu ao CDS regressar ao poder, depois da era socrática, mas a aliança com Passos viria a ser um último marco na sétima vida política de Paulo Portas. Contornaram o cabo da troika, sobreviveram a quatro longos anos de austeridade mas não sem antes Portas dar um murro na mesa e ameaçar bater com a porta. Ou bater mesmo, na mais famosa irrevogabilidade da história política.

Passos aguentou a coligação e Portas manteve-se no Governo, com novas funções. Perdia a batalha das Finanças (Portas não queria Maria Luís no lugar de Vítor Gaspar), mas ganharia o lugar de número dois do Executivo, vestindo a pede de vice-primeiro-ministro e ganhando a diplomacia económica.

Finalmente, a Economia

A pasta que Portas não conseguiu para o CDS no Governo de coligação com Durão Barroso conseguiu-a com Passos: a Economia. E entregou-a a um dos seus maiores amigos e homem de confiança no partido, António Pires de Lima. Foi mais uma moeda de troca na crise do irrevogável, que haveria de o marcar politicamente. No Governo de Barroso, o CDS teve as pastas da Defesa, Justiça, Agricultura e Segurança Social. Com Santana, experimentou ainda as Finanças, Turismo, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território. Com Passos, repetiu algumas destas pastas e Portas estreou-se ainda nos Negócios Estrangeiros.

As derrotas

AD falhada

Pouco depois de ganhar o CDS, Paulo Portas tenta reeditar a AD. A aliança pré-eleitoral tinha em vista as eleições europeias de 1999 e esse acordo foi feito com o então líder do PSD que era Marcelo Rebelo de Sousa. As listas conjuntas chegaram a ser feitas, eram encabeçadas por Leonor Beleza, mas houve um único comício.

A desconfiança entre os dois partidos era muita com o caso Moderna no auge. Marcelo critica em público Portas e foi o fim da primeira tentativa de reeditar a AD desde Sá Carneiro e Freitas do Amaral. A coligação foi desfeita a dias das eleições europeias, Marcelo demite-se e PSD e CDS concorrem em separado ao Parlamento Europeu.

O orçamento do Queijo limiano

Apesar do pulso de ferro no partido nem tudo correu como planeado por Portas. Um dos episódios mais dramáticos foi quando um deputado do CDS, Daniel Campelo, furou a disciplina partidária e viabilizou dois Orçamentos do Estado (2001 e 2002) do Governo minoritário de António Guterres.

Mais tarde, contudo, Portas e Campelo fazem as pazes. O autarca foi chamado para secretário de Estado das Florestas em 2011.

O desaire em Lisboa

Em 2001, Paulo Portas foi candidato à Câmara de Lisboa e o CDS teve um dos piores resultados de sempre na capital. Mais: os seus votos nem sequer foram determinantes para ajudar à vitória de Pedro Santana Lopes (PSD). Nessas eleições, o CDS perdeu algumas autarquias, ficando apenas com a presidência de três câmaras.

O slogan “Eu fico” com que concorreu acompanharia Portas para sempre: o político que assume os lugares e não vai embora. Até agora.

O efeito Sócrates

Nas legislativas de 2005, o CDS obtém apenas 7,2% dos votos e Portas demite-se. O PS consegue nessas eleições a sua primeira maioria absoluta com José Sócrates. No congresso seguinte, José Ribeiro e Castro vence a candidatura da ala portista, encabeçada por Telmo Correia.

Portas sai do país, vive nos EUA, mas continua a acompanhar à distância tudo o que se passa no CDS. É constantemente encorajado pelos seus ex-dirigentes a voltar. Só consegue estar longe dois anos. No congresso seguinte, em 2007 regressa.

A crise do irrevogável

Em 2013, Paulo Portas teve os piores dias da sua vida. Demite-se de ministro dos Negócios Estrangeiros devido à escolha, por Passos Coelho, de Maria Luís Albuquerque como sucessora de Vítor Gaspar nas Finanças. Torna pública a carta de demissão mas e forçado a ficar por pressão do primeiro-ministro e do Presidente. A demissão que dissera ser “irrevogável” torna-se piada.

Dois fundadores passaram para o lado do PS

Foi ainda durante a liderança de Portas que dois dos fundadores do CDS passaram a ser apoiantes do PS. Trata-se de Basílio Horta, ex-candidato presidencial que concorreu pelo PS à Câmara de Sintra e ganhou e Freitas do Amaral, que aceitou ser ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates.

Caso Moderna e os submarinos

Ao longo de 16 anos, Portas foi perseguido por dois casos de justiça que afetaram a sua reputação embora não tenha chegado a ser acusado em qualquer dos processos. O caso Moderna estalou em 1999, pouco tempo depois de Portas ter sido eleito líder do CDS. Envolveu corrupção, gestão danosa e associação criminosa na Universidade Moderna e envolveu Portas por este ter sido diretor do centro de sondagens embora nunca tenha sido acusado de nada.

O caso dos submarinos tem a ver com alegadas luvas que terão sido pagas no concurso público para aquisição de dois submarinos da classe Tridente ao Germain Submarine Consortium. A compra foi feita em 2004 quando Portas era ministro da Defesa. O centrista foi ouvido apenas como testemunha neste caso que foi recentemente arquivado. A investigação arrastou-se cerca de 10 anos e Portas costumava dizer que cada vez que havia campanhas eleitorais (enfrentou 24) “os submarinos emergiam”.

Durante o seu consulado, assistiu-se ainda à polémica dos 1,06 milhões de euros em notas depositados por funcionários na conta do CDS no final de 2004. O valor foi justificado pela direção do partido como donativos recolhidos em festas e jantares do partido, que estavam guardados nos cofres da sede nacional.

*artigo corrigido com as pastas ocupadas pelo CDS nos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes.