John Kessler começou a trabalhar na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos depois de passar uma temporada a estudar as borboletas dos Alpes. Era lepidopterologista na altura, um nome complicado para quem explora estes insetos. Para tentar encontrar relações entre as várias espécies alpinas olhava para as asas e tentava encontrar diferenças e semelhanças: quanto mais parecidas em formato, maior seria a proximidade da espécie.

O que têm as borboletas e os mapas antigos em comum? É que nos primeiros tempos a trabalhar como especialista em cartografia moderna na instituição cultural mais antiga dos Estados Unidos, Kessler deparou-se com um mapa de 1559 tão preciso que ainda seria possível navegar hoje a partir dele. O mar Mediterrâneo estava representado de forma muito semelhante aos mapas de hoje, a costa italiana era fiel à realidade e o estreito de Gibraltar também. Mas como foram desenhados estes mapas numa altura em que a tecnologia não permitia ter perfeita noção das dimensões e das fronteiras dos continentes? Foi com esta pergunta em mente que Kessler decidiu comparar os mapas antigos com os modernos através de um método parecido ao que usava quando estudava borboletas.

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Este é o mapa portulano mais antigo da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. Foi desenhado no século XIII e mostra o mar Mediterrâneo e a zona ocidental do Mar Negro. Créditos: Library of Congress Geography and Map Division

O mapa que Kessler encontrou na Biblioteca do Congresso é portulano. Os mapas portulanos, explica a James Ford Bell Library da Universidade de Minnesota, são cartas de navegação criadas a partir do século XIII com uma precisão estranhamente alta para um tempo em que os cartógrafos não tinham acesso a meios fiáveis de analisar a geografia da Terra. São diferentes dos modernos, ainda assim: têm cores acastanhadas, linhas rústicas e algumas lacunas na geografia interior dos continentes. Mas parecem ter sido feitos por um cartógrafo a bordo de uma nave espacial enquanto orbitava a Terra.

Aquele que Kessler encontrou, do século XVI, lançou-o numa aventura para descobrir métodos matemáticos que os cartógrafos utilizaram na época para desenhar os portulanos: “Mesmo com toda a informação que ele teve, com os apontamentos de todos os marinheiros e todas as descrições dos jornais eu não saberia fazer o mapa que ele fez”, admitiu ele à Discover Magazine.

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O primeiro mapa portulano data do século XIII e foi desenhado em pele de bezerro. A partir destes mapas, os comerciantes tinham noção das distâncias entre os principais portos na Europa e em África.

#1 Como foi que um cartógrafo do século XVI conseguiu desenhar a Terra numa superfície plana?

Conforme explica o especialista em cartografia, um dos primeiros desafios de quem desenha um mapa da Terra é transpor para uma folha plana algo que se encontra numa esfera. Hoje, esse obstáculo é ultrapassado através de um método chamado “projeção Mercator”, indica o Wolfram MathWorld, que transforma as linhas de latitude e de longitude numa grelha com linhas horizontais e verticais.

Ora, este foi um problema que também se apresentou aos cartógrafos do século XVI. E também eles o contornaram, mas através de outro método. O que Kessler concluiu é que os cartógrafos de mapas portulanos utilizavam um sistema de 16 direções (norte, sul, este, oeste, noroeste, sudeste e por aí adiante) que tinham uma função semelhante à grelha que vemos nos mapas modernos: serviam de referência para a projeção da Terra para o tecido onde era desenhada.

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Mapa Portulano da Península Ibérica e norte de África. Créditos: Giovanni Scorcioni

#2 Como é que um cartógrafo desenhou as costas dos continentes com tanta precisão?

Quando começou a analisar o primeiro mapa portulano, John Kessler julgava que o primeiro cartógrafo deste tipo de mapas se tivesse guiado por apenas duas fontes de informação: os apontamentos de um único marinheiro e as apreciações tiradas de uma única viagem, em que o barco saira de um determinado porto e dava uma volta completa até voltar ao mesmo ponto. Mas depressa percebeu que esta não seria uma solução viável: bastava que uma corrente estragasse os planos para a rota da viagem se alterar e o desenho sair defeituoso. Portanto, nunca haveria mapas iguais e com localizações certas.

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Mapa desenhado com as indicações de Ptolomeu, publicado em 1482. Créditos: Hain Collection , Library of Congress Geography and Map Division

Por isso, decidiu mudar de estratégia: o especialista pegou nos mapas modernos e desenhou as localizações dos portos do Mediterrâneo nos mapas portulanos de pele. Claro que não coincidiam. A não ser que se girassem as localizações dos mapas modernos 8.5º no sentido contrário ao ponteiro dos relógios. Esta descoberta só trouxe mais dúvidas. Depois de analisar um livro de modelos matemáticos da época, descobriu que a resposta estava nas bússolas: o norte magnético não era o verdadeiro (indicado pela Estrela Polar) e a diferença entre os dois podia variar no tempo e no espaço. Os mapas modernos corrigem esta diferença. Os antigos não.

Mas a diferença não era uniforme em todo o mapa: em alguns sítios só variava seis graus do norte verdadeiro, noutros chegava quase aos 8.8º. Esta era a pista que Kessler precisava para estar mais seguro de que o mapa havia sido desenhado através de observações em tempos diferentes: dos livros contemporâneos a outros mapas portulanos. Portanto, os cartógrafos só utilizaram os dados mais precisos que tinham nas suas mãos, provavelmente com recurso a mapas anteriores e confrontando-os com os dados matemáticos em vigor na altura para o estudo da geografia.

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Mapa portulano do Mediterrâneo do século XVI, com maior precisão que o desenhado no século anterior. Créditos: Library of Congress Geography and Map Division