Rádio Observador

FC Porto

É raro, mas Pinto da Costa voltou a fazer o que não gosta

O adiós de Julen Lopetegui significa que o presidente do FC Porto despede um treinador a meio da época pela sexta vez em 34 anos. O basco apenas perdeu três dos 50 jogos que fez para o campeonato.

Julen Lopetegui foi o treinador que Pinto da Costa segurou durante mais tempo até o despedir a meio da época: o espanhol fez 77 jogos, repartidos por 53 vitórias, 15 empates e nove derrotas

MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images

Não está exposto numa tabuleta à entrada, a avisar quem chega, a forma como a casa se rege sob a vontade de quem nela manda. Mas é sabido que, no Estádio do Dragão, apenas uma pessoa decide o que faz ao homem que ensina à equipa do futebol o que deve ser feito em campo. Essa pessoa chama-se Jorge Nuno Pinto da Costa e desde 1982 que a sua palavra conta mais que as outras quando chega a altura de escolher, contratar, renovar ou dar um aperto de mão de despedida a um treinador. É desta última parte que o presidente do FC Porto não gosta, sobretudo quando lhe empurram o braço para o fazer a meio de uma temporada. Agarrar chicotes psicológicos nunca foi com ele.

Nem o era agora, quando se diz que há muito sabia dos narizes que Adelino Caldeira, Fernando Gomes e Reinaldo Teles torciam a Julen Lopetegui. Os restantes membros da administração do FC Porto achavam que o treinador já estava a mais no clube, mas nenhum podia fazer algo quanto a isso — este era o único ponto em que a democracia a quatro vozes é substituída pela autocracia de um homem. Lopetegui foi uma aposta de Pinto da Costa e agora estava no ponto de ser uma insistência solitária do presidente. Adeptos a assobiar, jogadores cabisbaixos, administradores descontentes, todos davam o tempo do treinador como contado. Mas o presidente segurou-o até à primeira semana de janeiro, até lhe dizer o que não gosta de dizer aos treinadores: acabou.

É a sétima vez que Pinto da Costa acaba com a aventura de um treinador a meio da época. Não deu “margem” para “Lopetegui dizer que não” ao convite que lhe fez no verão de 2014 e agora era o presidente que pouca folga tinha para manter o basco ao fim de 77 jogos. Esteve ano e meio no FC Porto e acaba por ser o técnico que mais partidas fez até o presidente ficar sem argumentos para o manter no clube. Não se sabe quais eram, mas um deles poderia ser o mesmo motivo que, ao final da manha desta sexta-feira, ainda mantinha Pinto da Costa e Julen Lopetegui a negociar a papelada da rescisão do contrato — a choruda indemnização que o treinador terá de receber. Porque o presidente fez o que não costuma e ofereceu um contrato de três anos ao basco que, por época, rendia três milhões de euros brutos ao treinador. Vínculo longo = indemnização choruda.

Porto's Spanish coach Julen Lopetegui palys with the ball during a training session at the Dragao stadium in Porto on November 23, 2015, on the eve of the UEFA Champions League football match FC Porto vs Dynamo Kiev. AFP PHOTO / FRANCISCO LEONG / AFP / FRANCISCO LEONG (Photo credit should read FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Foto: FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Lopetegui foi ficando como ninguém antes dele ficou. Julen é o oposto de Joaquim Duro de Jesus, o homem mais conhecido por Quinito, que não perdeu para o campeonato, mas foi empurrado para fora do FC Porto pelos 5-0 com que o PSV o derrotou na Liga do Campeões, em 1987/88. A temporada ia em novembro e o treinador só contou 16 jogos a mandar nos dragões. Ao primeiro treinador despedido a meio da época por Pinto da Costa seguiu-se o segundo, em 1993/94, quando o presidente fez Tomislav Ivic regressar ao FC Porto e o mandou embora no final de janeiro, com 15 vitórias, oito empates e quatro derrotas em 27 partidas. Ambos estavam no terceiro lugar do campeonato.

Mas Octávio Machado deixou os dragões no quinto posto em 2001/02, embora com uma Super Taça a mais na vitrina do museu do clube. O português sairia com 18 vitórias, seis empates e 11 derrotas e deixou o banco vago para José Mourinho, o treinador que mais sucesso teve este século no FC Porto. E foi na ressaca de tudo o que o português especial ganhou, que os dragões cambalearam e obrigaram Pinto da Costa a despedir outro técnico, em 2004/05. O espanhol Victor Fernández até se agarrou a outra Super Taça e foi ao Japão buscar uma Taça Intercontinental, mas uma equipa cheia de nomes de craque a jogar apenas como um conjunto de indivíduos abriu-lhe a porta em janeiro, ao fim de 29 jogos, 12 vitórias, 10 empates e sete derrotas.

Tantos jogos perdidos quanto os que Paulo Fonseca não ganhou em 2013/14. O treinador que sempre deu a sensação de chegar cedo demais a um dos grandes, ainda se manteve no FC Porto até março — nunca Pinto da Costa segurou alguém durante tanto tempo –, mas deixou-o no terceiro posto do campeonato (como Fernández) e a meio de uma caminhada na Liga Europa. Foram 21 vitórias, nove empates e sete derrotas em 37 jogos. Depois há os casos de Luigi Del Neri, italiano carrancudo que esperou umas semanas da pré-época até sair por vontade prórpia, em 2004/04, e Co Adriaanse, que fez o mesmo no arranque de 2006/07 após conquistar o título a jogar com três centrais e quatro avançados.

Agora o FC Porto está num segundo lugar com menos quatro pontos que o Sporting, com uns 16 avos de final da Liga Europa daqui a um mês contra o Borussia Dortmund e ainda na luta pelas duas taças internas. Agora não se sabe se é Rui Barros, o adjunto de Lopetegui, ou Luís Castro, que manda na equipa B, que ficam a tomar conta da equipa, e muito menos é conhecido se o substituto permanente do espanhol chegará no decorrer desta temporada. A verdade é que, a trocar de técnico a meio da época, o FC Porto não se agarra ao título há 57 anos. Só em 1958/59 é que o brasileiro Otto Bumbel foi capaz de agarrar nas rédeas largadas por Béla Guttmann e ser campeão com os dragões. Talvez seja por isto que Pinto da Costa não gosta de agarrar no chicote e se livrar de um treinador a meio de uma temporada.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)