É um cliché, sabemo-lo bem, mas Joaquín “El Chapo” Guzmán, o maior narcotraficante do mundo, e Sean Penn, ator e jornalista nas horas vagas, justificam que o lembremos: por vezes, a realidade supera a ficção. A prova está na reportagem assinada por Penn, onde o norte-americano conta as peripécias que o levaram a entrevistar um dos homens mais procurados do mundo poucos meses antes de ele ter sido, enfim, e de novo, apanhado pelas autoridades mexicanas.

O ator protagonista de filmes como “Mystic River” (2003) e “Milk” (2008), que lhe valeram dois Óscares para Melhor Ator, esteve com “El Chapo” no México em outubro, com o qual bebeu tequilha durante algumas horas. Falaram da infância do narcotraficante, sobre o seu negócio e até sobre Donald Trump. Sean Penn tinha acordado com o narcotraficante que seria feita, posteriormente, uma entrevista que resultaria num artigo para a Rolling Stone.

No sábado, a procuradora-geral da República mexicana, Arely Gomez, deu a entender que o encontro com Penn pode ter sido crucial na detenção do traficante de droga. “Um aspeto que permitiu precisar a sua localização foi ter-se descoberto a intenção de Guzmán de gravar um filme biográfico, para o qual contactou atores e produtores”, disse numa conferência de imprensa. No artigo assinado por Penn, é referido que “El Chapo” tinha “interesse em que a história da sua vida fosse contada num filme”. Ainda assim, não é certo que Penn fizesse parte dos “atores e produtores” que Arely Gomez referiu. Certo é que quatro dias depois de os dois de o ator e o narcotraficante se terem encontrado, as autoridades mexicanas estiveram à beira de apanhar aquele que era, à altura, um dos homens mais procurados do mundo.

A entrevista de Penn a “El Chapo”: como aconteceu

Comecemos pelo início. A história começa com Espinoza, um homem próximo de Penn e a quem o ator chama de seu “irmão de armas”, com o qual já “correu muita estrada”. Espinoza é uma espécie de facilitador. O que os levaria a juntarem-se num hotel de Nova Iorque a 28 de setembro de 2015 é o plano mais audacioso que engendraram até àquele momento: entrevistar o narcotraficante “El Chapo”, fugido das autoridades mexicanas e norte-americanas depois de ter fugido, pela segunda vez, de uma prisão de alta segurança a 11 de julho de 2015.

O caminho foi aberto por uma conhecida atriz mexicana, Kate del Castillo, que se tornou próxima do traficante de 61 anos (curiosamente, nascido no dia de Natal) depois de ter escrito um post numa rede social a tecer-lhe loas ao mesmo tempo que lhe fazia uma prece. Entre outras coisas, a atriz, que já fez o papel de uma narcotraficante na telenovela mexicana Reina del Sur, escreveu: “Senhor Chapo, não seria bom que começasse a traficar com amor? Com curas para as doenças, com comida para as crianças sem-abrigo, com álcool para os lares de terceira idade onde eles não deixam os mais velhos passarem o que lhes resta das suas vidas a fazer o que lhes dá na gana? (…) Seria um dos nossos heróis. Vamos traficar com amor. Você sabe como fazê-lo. A vida é um negócio e a única vida que muda é a mercadoria. Não concorda?”. Penn contactou a atriz, que aceitou servir de intermediária.

Ao mesmo tempo que Penn reunia com Espinoza num quarto em Nova Iorque (alguns nomes na reportagem são alterados, como poderá ser o caso do “irmão de armas” do ator), o Presidente do México estava alojado nesse mesmo hotel — mais tarde nesse dia, Enrique Peña Nieto viria a discursar na 70º Assembleia Geral das Nações Unidas, onde falou do tráfico de drogas à escala mundial. “A humanidade tem de reavaliar a sua visão do problema global das drogas”, disse.

Sob o olhar das autoridades

Poucos dias depois, a 2 de outubro de 2015, Sean Penn, Kate de Castillo e Espinoza subiram a um avião particular em Los Angeles. O destino era o México, onde “El Chapo” estaria à sua espera. “Não havia qualquer dúvida na minha cabeça de que a DEA [autoridade norte-americana de combate ao narcotráfico] e o Governo mexicano estavam a seguir os nossos passos”, escreveu Penn sobre aquela altura.

Primeiro, aterraram numa cidade na “região central” do país, e instalam-se num hotel. É lá que são recebidos por uma pessoa próxima do narcotraficante, que Penn mais tarde viria a perceber ser filho do homem que queria entrevistar. Surge um contingente de carrinhas blindadas, ao mesmo tempo que os acessos àquela rua são cortados. Os mexicanos pedem a Penn e à sua equipa que lhes entreguem todos os telemóveis e aparelhos eletrónicos. A viagem segue durante uma hora e meia, altura em que chegam a uma pista de aterragem de terra batida. Sobem para uma avioneta e viajam durante outra duas horas. E, depois disso, ainda mais tempo de viagem numa “selva montanhosa”. Já perto do final, passam por um posto de controlo com militares mexicanos. “Dois soldados com uniforme oficial, segurando armas prontas a disparar, aproximam-se do nosso veículo. Alfredo [o filho de “El Chapo”] abre a janela. Os soldados recuam, envergonhados, e fazem sinal para avançarmos. Uau. Então é assim, o poder da cara de um Guzman. E a corrupção de uma instituição. Quer isto dizer que estamos perto do homem?”, escreve Penn.

Um abraço de compadre com “El Chapo”

Pouco depois, finalmente, “El Chapo” e Penn encontraram-se. “Virou-se para mim com um sorriso acolhedor, estendendo a sua mão. Aceitei-a. Ele puxou-me para um abraço de compadre, olha-me nos olhos e cumprimenta-me durante algum tempo num espanhol demasiado rápido para os meus ouvidos”, escreve o ator. Por fim, o narcotraficante compreende que o norte-americano não fala espanhol. Riem-se todos, inclusive “El Chapo”, vestido com uma camisa de seda e um bigode.

Seguiram-se horas de conversa em que a atriz Kate del Castillo serviu de intérprete dos dois homens. “Eu forneço mais heroína, metanfetaminas, cocaína e marijuana do que qualquer pessoa no mundo. Tenho uma frota de submarinos, aviões, camiões e barcos”, gabou-se. Mais tarde, Penn pergunta-lhe de Donald Trump, o candidato às primárias do Partido Republicano dos EUA que tem um conhecido problema com o México e os mexicanos. “Ah! Mi amigo”, respondeu-lhe “El Chapo”.

Numa conversa regada a tequilha, que o narcotraficante decidiu beber só para acompanhar os seus convidados, o narcotraficante teve uma resposta que revela tanto a sua auto-confiança como a extensão da sua rede. Penn perguntou-lhe, entre todos os sítios para onde já traficou droga, qual era o país ou cultura mais difícil para o negócio. “El Chapo” ri-se e responde: “Nenhum”.

O encontro ficou por aí, mas ficou a promessa de ser feita uma entrevista mais demorada daí a oito dias. Penn acedeu e foi deitar-se, enquanto o narcotraficante saía juntamente com a sua comitiva daquele local que, durante o seu encontro, estaria a ser protegido por mais de cem homens com armas automáticas.

A noite de Penn, Espinoza e da atriz del Castillo foi interrompida por uma tempestade tropical que os obrigou a evacuar o local de forma inopinada. Por fim, cada um voltou à sua base, tendo Penn regressado a Los Angeles.

“El Chapo” quase que foi apanhado depois de estar com Penn

Poucos dias depois, enquanto o ator esperava que passassem oito dias para assim poder entrevistar o narcotraficante, a história mudou de rumo. A 6 de outubro, “El Chapo” quase fora apanhado pelas autoridades mexicanas no noroeste do país, depois de um telemóvel de um dos homens da sua comitiva ter revelado a sua posição. O barão de Sinaloa escapou ileso, tirando um ferimento na perna.

As condicionantes mudaram. “El Chapo” achou por bem que a entrevista não devia ser presencial, por motivos de segurança. Penn acedeu, enviando-lhe uma lista de perguntas, às quais o narcotraficante responderia enquanto seria filmado por um telemóvel. “Das várias perguntas que eu mandei para ‘El Chapo’, um cameraman fora do plano pergunta-lhe algumas diretamente, parafraseia outras, suaviza muitas delas e evita outras”, escreve o ator na Rolling Stone. O bigode que o mexicano tinha no dia em que esteve presencialmente com o ator já tinha desaparecido.

Aos seis anos vendia laranjas, aos 15 droga

Na entrevista, onde o narcotraficante deixa respostas curtas, por vezes até mais pequenas do que as perguntas que lhe são feitas, falou da sua infância. Cresceu numa “família humilde, muito pobre”. “A minha mãe fazia pão para sustentar a família”, diz. Para ajudar, o pequeno Joaquín começou a vender laranjas, bebidas e doces aos seis anos.

Não muito depois, aos 15 anos, começou a sua carreira no tráfico de droga. “Eu fui criado num rancho chamado La Tuna, e naquela zona, até hoje, não há trabalho. A única oportunidade para ter dinheiro para a comida, para sobreviver, é cultivar papoila, marijuana, e com essa idade eu comecei a cultivar isso tudo e a vender”, recorda.

Na entrevista, o mexicano diz que não se considera uma pessoa violenta. “Veja, o que o eu faço é apenas defender, só isso. Agora, se eu levanto problemas? Nunca”, disse. Mais à frente, desculpabiliza-se: “Bom, o tráfico de droga é uma coisa que faz parte da cultura dos nossos ancestrais. E não é só no México. É no mundo inteiro”.

Por fim, deixou uma resposta algo profética, como as notícias da sua detenção na sexta-feira vieram a confirmar. Sean Penn diz-lhe que o Governo norte-americano acha que o Governo do México não queria prendê-lo, mas sim matá-lo. “O que acha disso?”, pergunta-lhe. A resposta: “Não, acho que se eles me encontrarem vão prender-me, é claro”.