– Olá.
– Alô. Td bem?
– Tudo. Estou a experimentar a aplicação pela primeira vez. Ainda a dar os primeiros passos nisto.”

Assim começa a primeira conversa de uma nova aplicação de encontros. Não é de nada de extraordinário, apenas a interrogação habitual de quem não conhece quem está do outro lado do ecrã. É uma espécie de “Oi, ddtc?” (de onde teclas) dos tempos modernos, até porque, ao contrário do mIRC — que já leva 20 anos de existência –, na Happn é possível escolher com quem queremos falar consoante as imagens que completam o respetivo perfil.

As semelhanças com o Tinder são evidentes, mas há uma ressalva: enquanto o Tinder, criado em 2012 nos Estados Unidos, permite conhecer pessoas num raio de distância previamente selecionado, a Happn apenas mostra com quem nos cruzámos na vida real. A aplicação quer funcionar como uma segunda oportunidade para os acasos da vida: quantas não foram as vezes que alguém despertou o nosso interesse na paragem de autocarro, no comboio (não é por acaso que existe a página de Facebook Vi-te no Comboio), na fila para o café ou simplesmente do outro lado da rua? Esta é uma maneira de corrigir a timidez de um primeiro encontro ocasional e não perder o contacto de quem nos cativou à primeira vista.

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Como funciona?

A Happn é uma aplicação criada por mãos e mentes francesas. Foi lançada em fevereiro de 2014 — já conta com oito milhões de utilizadores –, mas só em dezembro do ano passado chegou a Portugal, diz Marie Cosnard, responsável pela comunicação, ao Observador. É ela quem nos garante que, de lá para cá, a aplicação conquistou cerca de 40 mil portugueses, sendo que a idade média de utilizadores é de 26 anos. Ao contrário da realidade nacional, em que há cerca de mais meio milhão de mulheres do que homens, na app eles estão em ligeira maioria, representando um rácio de 60/40%. E a cidade mais popular do país, tendo em conta a frequência de uso da Happn, é, sem surpresas, a capital.

Mas como funciona, então, a aplicação que se afirma responsável pela “primeira experiência de encontros 100% móvel”? A Happn é gratuita e faz uso da geolocalização e do tempo real: sempre que nos cruzamos com outro membro, o perfil dessa pessoa aparece de imediato numa espécie de feed, onde é possível aceder às respetivas fotografias, bem como saber o local e a hora em que duas pessoas passaram incógnitas uma pela outra (caso para dizer “big brother is watching you”).

6 fotos

Tendo os perfis à disposição, a ideia volta a assemelhar-se ao Tinder — não é que seja necessário deslizar o botão sobre a fotografia para a direita ou para a esquerda (em sinal favorável ou desfavorável, respetivamente), antes carregar no like (botão em forma de coração) caso a pessoa nos interesse. Depois, é esperar que sejamos correspondidos. Não há “match”, mas sim “crush”. Na equação entram ainda os “charmes”, que permitem enviar uma notificação para que a outra pessoa repare em nós (é gratuito para elas, custa um crédito para eles).

Vamos a testes

O Observador entrou na Happn de modo a testá-la. Carregada e instalada a aplicação, cria-se o perfil que vai buscar a devida informação ao Facebook — embora prometa não publicar nada daquela rede social –, escolhem-se as fotografias a dedo, seleciona-se o sexo que nos interessa (se estamos à procura de homens ou de mulheres; neste caso, homens) e a faixa etária pretendida. Segue-se um scroll finito de perfis de sujeitos com os quais aparentemente nos cruzámos, embora estejamos sentados à secretária desde que fizemos o download da aplicação.

“Como é que estes homens estão aqui e eu não os encontro na rua?”, pergunta uma colega com alguma perplexidade enquanto passa os olhos por fotografias de sujeitos bem parecidos na casa dos 30. É ela quem nos ajuda a escolher e a carregar no botão que, apesar de ser em forma de coração, até se quer discreto. Vai daí que passados alguns minutos recebemos o primeiro “crush”, significando que a pessoa do outro lado gostou das nossas fotografias. Automaticamente a aplicação abre uma janela de conversa e, tal qual uma mulher de espírito casamenteiro, fica à espera de um primeiro passo. Em três conversas, duas das vezes foram eles que escrevem um “olá” mais ou menos tímido. Dessas conversas, duas foram relativamente interesses, ainda que fugazes — e no seu seguimento, um convite para um encontro era bastante provável –, a outra morreu logo porque a pessoa demorou muito tempo a responder.

É certo que a Happn faz-nos tomar mais atenção ao percurso que fazemos de casa para o trabalho (e vice-versa) e funciona a favor da nossa curiosidade, mas nem por isso se livra de alguns bugs:

  • Apesar de termos selecionado uma faixa etária específica, dos 25 aos 35, chegaram a aparecer pessoas no feed com 40 e 50 anos (sem contar com aqueles em que a imagem de perfil inclui crianças e bebés…);
  • A orientação sexual também foi definida (neste caso com preferência para homens), não que isso impedisse uma Carla de 27 anos de marcar presença na homepage da aplicação;
  • A geolocalização também apresentou algumas falhas, com um dos utilizadores a garantir-nos que “enganou” a aplicação — disse estar pelo Bairro Alto quando, na verdade, nunca saiu de Cascais;
  • Ao contrário do Facebook, não é possível identificar se uma pessoa nos está a escrever ou se já leu as mensagens por nós enviadas (ou que pode ser ou não positivo).

Na Happn não há chamas laranjas a fazer lembrar a cor de paixões tórridas, mas também não é essa a intenção. Apesar de ainda não ter sido feito nenhum estudo formal sobre os seus utilizadores, os responsáveis pela app garantem que o feedback que têm recebido é positivo, no sentido em que a aplicação permite encontros com base na vida real ao mostrar apenas as pessoas com quem nos cruzámos. “Os utilizadores gostam porque é mais poética do que outras aplicações”, diz Marie Cosnard, que acrescenta que quem a usa com frequência fá-lo porque “está curioso para ver quem poderia ter conhecido”.