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Olhos cansados. Dores no pescoço. Falta de ideias. Horas e horas em frente ao computador agarrado à cadeira e ao teclado. Pausa para um café e para esticar as pernas? Nada disso. Não há tempo e há trabalho por fazer. Bem, há quem veja nisto um profundo disparate. Na Suécia, as empresas estabelecem uma pausa obrigatória diária para que os trabalhadores possam descansar por uns momentos, conversar com os colegas, beber um café e comer uma fatia de bolo, por exemplo. Sabendo que os nórdicos são exemplo no que diz respeito a índices de produtividade, será este o segredo para o sucesso?

O conceito é conhecido como Fika – que, numa tradução não literal, pode significar qualquer coisa como beber café, comer doçarias e conversar – e chegou aos ouvidos da BBC. Os jornalistas britânicos foram procurar perceber esta realidade e chegaram à conclusão de que a pausa obrigatória para descontrair e relaxar é uma rotina tão comum nas empresas suecas como responder a emails ou participar em reuniões.

“Está profundamente enraizado na nossa cultura. A maioria dos suecos têm [estas pausas] várias vezes ao dia, seja no fim de semana, seja durante a semana. O objetivo é passar tempo com as pessoas, comer bolos cozinhados em casa e beber café. É [para nós] o mesmo que ir ao café noutros países”, explicou à BBC Matts Johansson, fundador da Da Matteo, uma cadeia de café sueca.

Esta pausa para o café é tão importante para os suecos que mesmo o gigante Ikea aconselha os seus trabalhadores a seguirem esta filosofia, como lembra a cadeia de televisão britânica. “Mais do que uma pausa para o café, a fika é uma altura para partilhar experiências, fortalecer laços e relaxar com os colegas. Algumas das melhores ideias e decisões acontecem durante a fika“.

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Habituada a estar sempre entre os países com maior índice de produtividade, a Suécia parece estar pronta a dar mais um passo nesse sentido: está a introduzir faseadamente o horário laborar de seis horas, com o objetivo de aumentar a produtividade e a felicidade dos trabalhadores.

Na verdade, já existem muitos estudos científicos que parecem dar, em parte, razão aos suecos: trabalhar mais horas por dia não significa necessariamente maior produtividade. Em 2013, numa altura em que se discutia o aumento do horário de trabalho semanal para as 40 horas, um estudo da Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP) dizia “não haver uma relação consistente entre o número de horas trabalhadas e a produtividade”.

Mais: com base em análises feitas nos últimos 20 anos, o mesmo estudo lembrava que “à medida que se avança no número de horas trabalhadas durante o dia, a produtividade vai-se tornando gradualmente mais baixa”.

A verdade é que, e voltando ao fika, esta tendência está a alargar-se a outras partes do globo e já chegou a cidades como Sydney, Londres e Nova Iorque. E em Portugal, haverá algum dia tempo para fikar?