Na abertura das jornadas parlamentares do PS, Carlos César atirou ao PSD, respondeu à letra aos ataques saídos do encontro de deputados sociais-democratas, afirmou que o Governo não precisa do PSD ao mesmo tempo que se dizia disponível para falar com os sociais-democratas se eles mudarem “a sua conduta democrática”. Mas tudo sem que os socialistas queiram ou proponham “alianças ou conjugações espúrias”. No palco das jornadas, o presidente do partido sacudiu as críticas de asfixia democrática por causa da guerra com o Banco de Portugal e afirmou que o que “não é normal nem natural” foi o confronto permanente do anterior Governo com o Tribunal Constitucional. Num dia em que as notícias mais quentes saíram dos partidos da esquerda, César passou por cima e desvalorizou o assunto.

Nas vésperas da votação do Orçamento do Estado para 2016, os dois partidos colocam-se em lados opostos da barricada. Perante uma plateia de deputados do PS, que se foi enchendo devido a atrasos por causa de visitas a concelhos de Vila Real, Carlos César decidiu usar boa parte do discurso para responder aos “velhos do Restelo” e àqueles que são “dessa estranha qualidade de portugueses que tanto desejam e apregoam para que tudo nos corra mal”. Ou, para sintetizar ao PSD.

Aos socialistas, garantiu que o Governo não precisa do PSD nem lhes vai propor alianças ou “conjugações espúrias”.

“Chamaram-nos de vergonhosos – já é tempo de falarmos mais e melhor uns com os outros. Não queremos – é bom que saiba e se reafirme – não queremos nem propomos ao PSD alianças ou conjugações espúrias, apenas espreitamos a oportunidade que nos deram se eles determinarem a sua condita pelo interesse nacional e melhorarem a sua conduta democrática”.

E acrescentou: “Não precisamos do PSD para o apoio parlamentar ao Governo – mas já é tempo de o PSD perceber que o país está à espera que o PSD regresse à realidade política nacional, sem o despeito, a depressão e o azedume desde que perdeu o seu lugar no Governo”.

As tricas não vêm de hoje, mas acentuaram-se com as palavras de Luís Montenegro nas jornadas parlamentares do PSD sobre a guerra do PS e do Governo contra o Banco de Portugal. César falou por mais de uma vez das palavras do líder parlamentar: “Nem o Governo nem o PS querem controlar o Banco de Portugal – ou o Tribunal Constitucional ou nem outra instituição que deva ser preservada. Ao PS e ao Governo cabe o direito e o dever de pedir soluções rápidas – como ainda ontem o líder parlamentar do PSD reconhecia ao mesmo tempo que nos criticava de o pedir”, disse.

Foi a deixa que aproveitou para fazer tiro ao alvo: “É normal e natural pedir uma solução rápida. O que não é normal nem natural, nem próprio de um Estado direito e revela falta de cultura democrática, foi afrontar o Tribunal Constitucional nestes últimos anos. O que não é normal nem natural, nem compatível com o Estado de direito é negar a legitimidade de um Governo que foi instituído, apoiado e será sucessivamente sufragado por apoio parlamentar na Assembleia da República”.

Num dia marcado por notícias sobre movimentações dos dois partidos que suportam o Governo – a iniciativa de discussão da dívida pública do PCP e o documento interno do BE revelado pelo jornal i – Carlos César não falou deste assunto. Tal como de manhã, o PS desvaloriza o assunto. No discurso, quis no entanto deixar um toque, que pode ser lido também pelos parceiros. Disse César que no exercício orçamental, o Governo vai manter “o devido equilíbrio do cumprimento dos compromissos internos com os externos. Se os fizermos temos toda de atingir as metas traçadas. É um desafio que assumimos à margem dos velhos do Restelo e dessa estranha qualidade de portugueses que tanto desejam e apregoam para que tudo nos corra mal”. E esta postura de equilíbrio, acredita César, é compreendida pelos partidos da esquerda. “O OE que propomos, se é menos audacioso do que desejávamos, é melhor do que o OE referenciado por PSD e CDS em Bruxelas. Sei que os nossos aliados, que connosco trabalham no Parlamento, o entendem”.