Caro Presidente,

Acabou de ser eleito. Não lhe dou os parabéns, nem talvez os devesse dar. É muito cedo para celebrar o que seja. Ainda falta muito para a senhora gorda cantar — “Until the fat lady sings” –, como dizem os americanos. Sim, os norte-americanos, as pessoas do país que chama soccer ao desporto em que agora o senhor manda, por há muito que acharem que o futebol a sério é o que eles inventaram. É verdade que agradeceu às associações de futebol que lhe deram um voto, também o ouvi agradecer às que não o fizeram, mas o maior obrigado que deve seja, quiçá, aos americanos.

Foram eles que, em maio de 2015, deram uso aos seus tribunais para fabricarem os mandados de captura que detiveram 14 dirigentes da FIFA. Uns estavam na sede da FIFA, em Zurique, Suíça, outros andavam por outros lugares e foram detidos depois. Começaram a amassar a bola de neve que, mesmo assim, não impediu Joseph Blatter de ser eleito para um quarto mandato. Obrigou-o, isso sim, a demitir-se do cargo, dias depois. Foi a queda do suíço que lhe permitiu a si, Sr. Infantino, levantar-se — mais as trafulhices que se foram sabendo assim que o antigo presidente caiu, com estrondo, no chão.

Os quase 140 milhões de euros espalhados por contas bancárias, nos quais se mexia para subornar. Os votos que, assim, terão sido comprados para fazer um Mundial passar pela África do Sul, em 2010, e colocar dois a caminho da Rússia, em 2018, e do Qatar, em 2022. A investigação que é feita durante 18 meses, por um juiz norte-americano (deve-lhes um thank you, não se esqueça), ao processo de atribuição desses Campeonatos do Mundo, mas cujas conclusões foram manipuladas e cujo relatório a FIFA não quis divulgar publicamente.

As promessas que candidatos fazem, de que enviarão euros da FIFA (assim que sejam eleitos presidentes) a associações de futebol das Ilhas Maurícias, do Sri Lanka ou das Ilhas Cook, onde escasseia o dinheiro que abunda nas federações europeias. Os contratos que são assinados com empresas de sobrinhos, primos, afilhados ou conhecidos de membros da FIFA, quando é preciso construir coisas nos países que acolhem Campeonatos do Mundo. A denúncia que até a France Football, revista que organiza a Bola da Ouro com a FIFA, fez sobre o esquema de corrupção, subornos e pagamentos que deu um Mundial ao Qatar.

Lembrá-lo de tantas coisas más serve para indicar tudo o que deverá impedir que aconteça. Só isso já será bom. Como o foi a decisão do Comité Executivo da FIFA em aprovar, esta manhã, um conjunto de reformas para tornarem a FIFA — sabia que na sede, em Zurique, os vidros do edifício são espelhados? — mais transparente para quem olha para ela de fora. Uma delas, aliás, fará com que o Sr. Infantino, no máximo, fique na presidência até 2028, ano até ao qual vai o limite de três mandatos. Não chegará sequer perto dos 24 anos de João Havelange (1974-98) ou dos 17 de Joseph Blatter (1998-2015). Até poderia pensar em mais reformas, como tornar públicos os votos em eleições ou processos de atribuição de Mundiais. E, já agora, ver o que realmente se passou com a votação que levou a competição para o Qatar.

ahead of tomorrow's Extraordinary FIFA Congress to elect a new FIFA President at Hallenstadion on February 25, 2016 in Zurich, Switzerland.

Bom também seria que não se aproximasse de Blatter em outras coisas. Que não diga que o racismo é coisa que não existe no futebol, quando ele existe. Que não sugira que as mulheres deviam jogar com menos roupa para o futebol feminino ser mais interessante. Nem que alegue que não pode controlar todas as pessoas a toda a hora. Lidere pelo exemplo e não pela chefia. Lembre-se que os estatutos da FIFA ditam que nada que o secretário-geral da entidade, o Comité Executivo ou o Congresso queiram fazer tem de passar pelo seu aval. E aí deve pensar no bem do futebol e não no seu. Nem em subornos, pagamentos ou esquemas de favorecimento.

Oiça os clubes, os treinadores, os jogadores e tenha um ouvido aberto, sobretudo, para os adeptos. Só vale a pena a bola rolar se houver alguém que goste de a ver. Ou acha que é um acaso o facto de, entre 2011 e 2014, a maior fatia (2,2 mil milhões) do bolo de 5,1 mil milhões de euros de receita da FIFA, nas provas que organizou, tenha vindo dos direitos televisivos? Adeptos, fãs do futebol. São eles que interessam. E por eles devia também tornar públicos os votos de eleições, processos de atribuição de Campeonatos do Mundo e tudo o que a FIFA escurece e devia ser transparente como água num copo de vidro. Que tal criar um comité que reúna representantes de adeptos de cada país, puxando pelas federações nacionais de futebol, incentivando-as a criarem associações que juntem apoiantes dos clubes, por que não?

Dê corpo, voz e trabalho às frases que a FIFA tem espalhadas pelo seu site oficial. Personifique-as. “A FIFA é uma estrutura livre e democrática” e “A FIFA é o guardião global do futebol” devem ser mais do que apenas palavras bonitas para descrever uma organização cujos últimos cinco anos de 112 de história foram marcados por escândalos, pelo descrédito e pelas críticas exteriores. Se o conseguir, o Sr. Infantino será o clube mais apoiado do mundo — não terá apenas os 209 membros da FIFA atrás, mas os milhões e milhões de pessoas que gostam de futebol neste planeta redondo.

Boa sorte.