Depois de 17 anos a ouvir e ver Joseph Blatter como presidente da FIFA, e nove meses depois de o suíço se ter demitido do cargo com a pressão de tanta trafulhice, a entidade que manda no futebol mundial escolheu um novo presidente. Chama-se Gianni Infantino e foi eleito esta sexta-feira para liderar o que se espera que será uma nova era na FIFA, sem nada que as anteriores tiveram — suspeitas de corrupção, subornos, esquemas de favorecimento e pagamentos ilícitos. O ex-número dois da UEFA, que apenas se tornou candidato no momento em que uma suspensão impediu Michel Platini de o ser, quer alargar o Mundial a 40 equipas e distribuir cerca de 25% das receitas da FIFA pelas 209 membros que a compõem.

Mas teve que esperar horas e horas para ter a certeza de que tem os próximos quatro anos para mudar a imagem da entidade que manda no futebol internacional.

Às 8h, já os dirigentes da organização que junta mais membros do que as Nações Unidas estavam na sede da FIFA. Os representantes das 209 associações de futebol (que são 207, porque as do Kuwait e da Indonésia estão suspensas) cedo abandonaram o hotel Baur au Lac, plantado à beira do lago de Zurique, na Suíça. O mesmo onde, há nove meses, as cinco estrelas sofreram um raide das autoridades helvéticas, que a mando da justiça norte-americana detiveram 14 dirigentes da FIFA, acusados de corrupção. Dias depois, Joseph Blatter demitia-se, uns quantos sóis postos depois de ser reeleito para um quinto mandato como presidente.

Foi essa decisão, mais tudo o que se saberia depois — subornos, pagamentos ilegais, suspensões a Blatter, Michel Platini e Jérôme Valcke, etc. –, que precipitou o Congresso Extraordinário da FIFA que se realizou esta sexta-feira. Era preciso eleger um novo presidente, alguém de cara lavada, que personificasse um tempo de mudança na entidade hoje tem o descrédito como melhor amigo. Eram cinco candidatos. Mas, antes de um sufrágio colocar uns à frente dos outros, havia um conjunto de reformas por aprovar, para mostrar que a FIFA, de facto, quer mudar.

Delegates vote for a new FIFA president during the extraordinary FIFA Congress at the headquarters of the world's governing body of football in Zurich on February 26, 2016. AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI / AFP / FABRICE COFFRINI (Photo credit should read FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images)

Um de cada vez, durante quase duas horas. Entravam por um lado, punham um tique no papel, e saiam por outro. Foto: FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images

As medidas passaram com 89% de votos a favor. Cento e oitenta e quatro associações acharam bem que um presidente da FIFA fique limitado a três mandatos de quatro anos no cargo. Que o Comité Executivo seja substituído por um Conselho, com mais membros, que fique com o poder político, deixando a área comercial para o secretário-geral. Que, anualmente, os salários do líder da entidade e de todos os membros do Conselho sejam divulgados publicamente. Que pelo menos uma mulher represente cada confederação de futebol (há seis) da FIFA no Conselho. E que os direitos humanos sejam, por fim, incluídos nos estatutos da organização. É um bom sinal, que abafa o mau que é não perceber como 23 países não quiseram que estas reformas fossem aprovadas.

É o início de um caminho em que haverá mais dias para mudar outras coisas. Como os processos de votação serem transparentes. Saber-se quem votou em quem. Evitar que antes de quatro candidatos irem a votos — eram cinco, mas o sul-africano Tokyo Sexwale acabou os seus 15 minutos de discurso anunciando que se retirava da corrida, dizendo que “agora, é um problema vosso” — se oiça o secretário-geral da FIFA dizer “por favor, não tirem fotografias ao vosso boletim de voto, tanto antes como depois, e ponham o vosso telemóvel no tabuleiro que vos será providenciado”.

Talvez por isso, e por ser um voto em papel e sem algo de eletrónico, só a primeira volta tenha durado cerca de uma hora e cinquenta minutos. O tempo passou com o embalo de música de elevador ou de hall de entrada de hotel, até a contagem dos 207 votos colar uma dezena de homens à volta de uma mesa, no centro do auditório. Outra meia hora passou até chegarem à conclusão de que teria que se teria de repetir todo o processo. Nenhum candidato reuniu os 138 votos (dois terços) necessário para ganhar à primeira volta — Gianni Infantino ficara com 88, Salman Al-Khalifa com 85, Ali Bin al-Hussein com 27 e Jérôme Champagne com sete.

Rebobinou-se a cassete e seguiram-se quase outras duas horas com a voz monocórdica de Markus Kattner, secretário-geral da FIFA, a chamar de volta, um a um, os representantes das 207 associações. Desde 1974, nos tempos de João Havelange, que não se precisava de uma segunda volta para descobrir quem seria o novo presidente.

No final soube-se que o cargo era para o suíço, de 45 anos, que para quem terão ido quase todos os sete votos de Jérôme Champagne, seu amigo e conterrâneo, e a maioria dos 27 que o Príncipe Al-Hussein tinha recebido. Ouviram-se palmas, tanto de alívio como de festa, porque se dali não saísse um candidato com pelo menos 104 votos, então ter-se-ia de repetir tudo de novo. Talvez com mais pressa, porque à meia-noite local (23h em Portugal), uma escultura de gelo começaria a ser erguida no auditório — sim, é mesmo verdade — e o espaço teria de ser libertado. Não foram precisas pressas. Por volta das 17h ficou a saber-se que os próximos quatro anos serão dirigidos por Gianni Infantino. “A FIFA passou por tempos de crise, tempos de tristeza. Esses tempos acabaram”, disse o suíço, com lágrimas nos olhos, no discurso de vitória.

Esperemos que tenha razão.