Diz a sabedoria popular que um gesto vale por mil palavras. Certamente. Mas isto apenas vale se o gesto corresponder a uma verdade interior e não for mera encenação. Convencionou-se que as palavras não contam, que são superficiais e enganadoras. Mas é mentira. As palavras são o mais importante veiculo de comunicação, de troca entre humanos, e podem marcar tão profunda e duradouramente uma relação como um gesto.

Há palavras que são brutas como um soco na cara, mesmo se ditas com simpatia. Porém, há outras que abrem portas na nossa relação com os outros. Há palavras que são pontes. Fazem com que os outros fiquem mais próximos, criam cumplicidades em vez de inimizades. Sobretudo criam à nossa volta uma harmonia que só nos pode trazer felicidade. Aquilo que damos aos outros é-nos restituído sob a forma de felicidade e bem-estar. E isto não vale só para as relações amorosas. Vale para todas as relações que estabelecemos em sociedade.

Podem dizer-lhe que a sua aparência conta, que a sua cultura literária conta, que a sua educação conta. Mas de que adianta tudo isto se, num mundo construído sobre interações sociais, você se comporta de forma grosseira, não sabe veicular afetos profundos, não sabe ouvir os outros?

Como tudo na vida a gentileza, a empatia, a solidariedade também se aprende. Reunimos 12 palavras e expressões que farão de si uma pessoa, se não mais amada, pelo menos muito mais gostável.

1. “Fico feliz por te ver”

Nós, os portugueses, oscilamos entre relações de extrema formalidade, onde não se veiculam simpatias e gentilezas (isso será logo considerado “dar graxa”) e relações de extrema informalidade onde se usa o “tu” e se acredita que isso significa “ter intimidade” com os outros. Errado. O ideal é perceber que a intimidade não se faz pelo uso do “tu” mas pelo uso do tempo. Por isso nunca se iniba de ser gentil, de elogiar, de expressar um afeto mais profundo. Se encontra alguém de quem gosta, não se fique por um inócuo “olá”. Vá mais longe: diga “fico feliz por te ver” ou “fico sempre feliz por te ver”. Com esta expressão está a comunicar que a presença da outra pessoa não lhe é indiferente, que gosta dessa presença, que essa pessoa lhe evoca sentimentos de felicidade.

BERLIN, GERMANY - AUGUST 22: Two young women relax ona sunny day on grass near the Reichstag on August 22, 2011 in Berlin, Germany. Germany, which has thus far endured a summer marked by rain and cold, is seeing sunny skies and warm temperatures this week. (Photo by Sean Gallup/Getty Images)

As suas palavras devem comunicar um genuíno interesse pelo outro. (foto: Getty Images)

2. “Lembro-me que tu…”

Ao evocar uma situação, um gesto, uma atitude positiva dos outros acontecida no passado (pode ser uma piada divertida, uma peça de vestuário, uma pequeno ato de heroísmo do quotidiano) está a comunicar ao outro que se lembra dele, e está a reafirmar a capacidade dele ou dela de terem em si coisas positivas que merecem ser notadas. É provável que a outra pessoa vá também lembrar-se de qualquer coisa positiva a seu respeito que não tinha notado. Talvez até se surpreenda com algo que marcou os outros sem saber. Este “lembro-me que tu” ou “talvez não tenhas notado mas” deve ser sempre seguido de uma coisa positiva e não negativa. As pessoas que insistem em evocar coisas negativas, pequenos incidentes ou fragilidades nossas, querem apenas reforçar as nossas inseguranças e são para evitar.

3. “Estou impressionado!”

Esta expressão foca-se naquilo que a pessoa faz, ou acabou de fazer, e não no que fez. É uma expressão que visa reforçar a auto-estima do outro e deve ser usada com pessoas que acabaram de chegar a um novo local e trabalho, jovens estagiários, pessoas que parecem estar deslocadas ou isoladas dentro de um grupo. Muitas vezes essas pessoas estão aflitas, envergonhadas, inseguras. Ser a mão amiga que se lhe estende, com um elogio, uma chamada de atenção positiva, vai fazer de si um super-herói quotidiano, sem precisar de outros superpoderes que não a gentileza.

4. “Eu acredito em ti”

Todos nós temos inseguranças. E no ambiente altamente competitivo em que vivemos ou nas relações instáveis que mantemos com os outros as nossas inseguranças podem tornar-se numa dor crónica. A melhor forma de se ajudar é acreditando genuinamente nos outros, na força que cada um tem para superar os obstáculos. Por isso dizer “eu acredito em ti” pode ser fundamental para uma criança ou um adolescente ultrapassarem um bloqueio na sala de aula, na família ou com os amigos. Mas é igualmente oportuno usá-lo com adultos. Quem tem cargos de chefia, quem está a lidar com um colega de trabalho menos ágil, quem está perante um amigo ou amiga que perdeu o emprego, ou o namorado, pode reforçar a autoestima dos outros com estas quatro palavras. Este acreditar expressa uma confiança nas potencialidades do outro, vê as suas forças e destrezas até onde ele não consegue ver. Acreditar verdadeiramente nos outros pode ser o primeiro passo para acreditar em si mesmo.

5. “Olha só até onde já conseguiste chegar”

Esta expressão vem na linha da anterior, mas visa obrigar a outra pessoa a rever o seu percurso, ao mesmo tempo que demonstra que está atento a ela. Que registou os seus esforços, os seus sucessos, as suas conquistas. Dizer “olha só até onde já conseguiste chegar!” é, ao mesmo tempo, uma celebração do sucesso alheio. E isto é muito difícil (por isso a inveja é um pecado que mora ao lado) e, por isso, tantas vezes somos lestos a apontar as falhas mas nunca apontamos o êxito dos outros.

6. “Gostava de saber o que pensas sobre…”

Já reparou que, por estes dias, ninguém ouve ninguém? As pessoas fazem perguntas por mera cortesia social e antes que você esboce uma resposta elas já estão a falar de outra coisa. Em geral já estão a falar de si mesmas. Dizer a alguém “gostava de saber o que pensas sobre…” ou “gostava de ouvir a tua opinião sobre…” é uma forma de comunicar ao outro que o considera inteligente, idóneo para se pronunciar sobre um assunto qualquer (seja uma decisão de vida, seja um mexerico). O importante é que esta frase acolhe o outro na sua vida, ou no grupo de trabalho, ou numa decisão familiar. Mas seja sincero quanto ao seu desejo de ouvir o outro. Se o fizer por obrigação social isso vai notar-se e vai apenas mostrar o quão autocentrado você é.

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As pessoas mais influentes e carismáticas são aquelas que empatizam com os outros.
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7. “Diz-me mais”

Vamos clarificar uma coisa: esta frase não é apenas para ser usada para engatar miúdas (e miúdos). Querer saber mais sobre a outra pessoa que se senta ao nosso lado na faculdade, no trabalho, ou à mesa do jantar é o mínimo que podemos fazer para estabelecer ligações sólidas e duradouras. Mais uma vez é uma forma de aceder à vida, ao pensamento, aos sentimentos do outro. “Diz-me mais”, ou “diz-me mais coisas sobre ti, sobre o que pensas de…”, é também um cumprimento, um elogio, é uma forma de comunicar que o outro diz coisas inteligentes, pertinentes, singulares. Isto é particularmente válido com as crianças: ao mesmo tempo que as integra no grupo familiar ou escolar, dá-se-lhes a tarefa de as obrigar a pensar, a usar recursos do seu mundo interior que ainda estão a aprender a gerir.

8. “Bem-vindo”

Há quem compre tapetes de porta com a expressão inglesa welcome, mas que seja completamente incapaz de lidar com a expressão portuguesa: “seja bem-vindo”. Para além das confusões com a ortografia da palavra (tantas vezes escrita como substantivo, “benvindo”), há um certo medo de parecermos pomposos ou teatrais. Por isso acabamos por cair no vulgar e adolescente “olá, tudo bem?”. . Dizer a alguém que ele/ela é “bem-vindo”, seja na nossa mesa de café, na nossa casa, na nossa empresa ou na nossa vida é uma forma de dignificar a pessoa que recebemos e de lhe mostrar que estamos felizes com a sua chegada.

9. “Posso ajudar?”

No país que ensina as crianças a rirem quando veem alguém cair, que fez da humilhação alheia forma tradicional de celebração académica a expressão “posso ajudar?” pode parecer um óvni na nossa vida social. Mas ela existe e faz maravilhas. Todos nós já experimentámos a sensação de, no meio de uma aflição, alguém nos oferecer ajuda sem querer nada em troca. Seja porque deixámos cair as compras no chão do supermercado, porque caímos na rua, porque simplesmente não sabemos o que fazer numa determinada situação. “Posso ajudar?” é uma demonstração de empatia com a insegurança momentânea de alguém e é, ao mesmo tempo, uma confissão averbal de que também nós, por vezes, somos desastrados, inseguros.

10. “Desculpa!”

Eis outra expressão da qual se abusa mas que raramente se usa: ou seja diz-se “desculpa” por qualquer coisa. Há mesmo quem comece frases com a palavra “desculpa” como se tivesse medo de existir, mas raramente a usa como demonstração de um genuíno arrependimento. Porque à palavra “desculpa” tem que corresponder uma consequência que é a nossa mudança de atitude. Pedir desculpa é colocarmo-nos nas mãos de alguém, é saber que seremos julgados mas que acreditamos poder ser absolvidos. Dizer “desculpa!” é ainda uma forma acreditar que o outro confia em nós, na nossa capacidade de sermos melhores. Portanto, como dizem os ingleses “say it just when you mean it!“.

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“Desculpa” e “Obrigado/a” são provavelmente as palavras mais importantes de uma língua. (foto: AFP/Getty Images)

11. “Não”

Com três letrinhas apenas… pois é, esta palavra pode parecer destoar do tom deste artigo, mas ela é fundamental para a nossa sobrevivência social. O “Não” não deve ser pensado como sinónimo de humilhação dos outros, mas como sinal de que “nós merecemos respeito”. Naturalmente há quem saiba usar todas as expressões acima apenas para manipular os outros, para conseguir alguma coisa do seu interesse. Por isso, aqueles que têm a empatia, a gentileza, a humanidade de dizer todas estas frases têm também que estar aptos a dizer “não” àqueles que não as têm com os outros. Querer fazer o bem não pode deixar-nos à mercê da maldade. Porque ela existe, não obstante as declarações bem intencionadas de Rosseau.

12. “Obrigado/a”

Antes de tudo, é importante esclarece uma questão com a qual os portugueses e as portuguesas continuam a não atinar: as mulheres dizem obrigada (feminino) e os homens dizem obrigado (masculino). Posto isto, a palavra “Obrigado/a” é uma das mais importantes de uma língua. É o selo de uma troca na qual ambos os lados deram algo. Na verdade, todas as expressões de que falámos anteriormente podiam resumir-se à palavra “Obrigado”. Ela é uma bomba de sentimentos positivos, de empatia, de assunção da nossa fragilidade, das nossas falhas e, ainda assim, da aceitação e da generosidade do outro que nos recebe. Deve usar-se sem parcimónia, desde o empregado do café que nos prepara o galão, até alguém que segura a porta para passarmos. Agradecer a gentileza reforça no outro a vontade de ser gentil. (Já agora, obrigada por lerem e ajudarem a partilhar este artigo).