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A economia mundial vai crescer menos que o esperado este ano e os cenários pessimistas começam a ser cada vez mais os prováveis, alertou esta terça-feira o Fundo Monetário Internacional (FMI), que revê em baixa o crescimento económico previsto para este ano e pede aos países para fazerem um esforço coletivo e elaborarem planos de contingência coordenados para estimular o crescimento da economia mundial.

A mensagem do FMI no World Economic Outlook publicado hoje é clara: o que está a ser feito não chega. A economia deve crescer menos 0,2 pontos percentuais que o esperado em janeiro, o dobro quando se compara com as previsões feitas em outubro, ou seja, passa a prever um crescimento de 3,2%. Há meio ano, esperava-se que a economia mundial crescesse 3,6%.

“O crescimento tem sido demasiado lento, há demasiado tempo”, diz o economista-chefe da instituição. A revisão em baixa não é efeito de um bloco só, mas uma tendência generalizada que está a afetar quase todos os blocos. A economia norte-americana deve crescer menos duas décimas e igual redução é esperada na zona euro. No Japão, o efeito do aumento do IVA deve tirar cinco décimas ao crescimento. A recessão na Rússia deve ser elevada, mas em linha com o esperado, mas já o impacto nas ex-colónias soviéticas será mais pronunciado devido não só aos danos colaterais da situação russa, mas também à queda no preço do petróleo. Finalmente a China, cuja recomposição da sua economia é importante, mas o impacto no comércio internacional é significativo.

FMI projeções 2016

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O mundo, diz o FMI, está a entrar em território perigoso e para impedir que a economia cresça menos o Fundo defende que os países devem unir esforços e começar a desenhar planos de contingência, não apenas individuais, mas esforços coordenados para evitar mais impactos negativos pelos ajustamentos internos.

“[Os] países devem também cooperar desenhado medidas coletivas para implementar no futuro casos os riscos negativos se materializem. (…) Os governos podem criar já planos de contingência”, defende o FMI.

A margem de erro é cada vez menor, sublinha ainda o Fundo, que alerta para o círculo vicioso que o fraco crescimento pode criar. Quanto menos crescimento, maior a hipótese dos riscos negativos se concretizarem, trazendo consigo menos crescimento. A economia pode cair além da estagnação no ritmo de crescimento e chegar mesmo ao ponto de entrar numa estagnação secular.

Para que isto não aconteça, o FMI volta a receitar os mesmos remédios: a política monetária deve continuar flexível e os estímulos devem ser reforçados de forma criativa, numa altura em que as taxas de juro já estão em valores negativos e há vários programas de compra de ativos que injetam liquidez nas economias. Mas a política monetária não chega – o aviso de sempre -, por isso, os países têm de fazer mais no que diz respeito ao uso da sua política orçamental e na reforma das suas economias.

Quem tiver margem orçamental para investir, especialmente em infraestruturas, deve fazê-lo. É um tipo de investimento que o FMI tem vindo a defender, especialmente porque nesta altura as taxas de juro para obter financiar que pode ser usado para realizar estes investimentos estão baixas e estes investimentos podem ser benéficos para o crescimento económico no curto e no longo prazo. Mas também isto não chega. Os países devem fazer uso de políticas orçamentais mais amigas do crescimento, com reformas estruturais que promovam um crescimento da procura, como reformas fiscais neutras em termos orçamentais ou apoio à participação no mercado de trabalho.

O peso da China e dos preços do petróleo

Muito se tem falado das taxas de crescimento da economia chinesa e da sua recomposição. A crescer 6% ao ano, uma redução face a anos anteriores, mas ainda assim um crescimento robusto, há quem defenda, como é o caso do economista-chefe do Ministério das Finanças da Alemanha, que é uma recomposição natural e que não deve ser visto como uma fatalidade e uma desculpa para ser mais proativo e implementar mais estímulos económicos. Para o FMI, não é bem assim.

O Fundo admite que a transição para uma economia mais ancorada na procura interna e nos serviços era inevitável e será benéfica no longo prazo para a economia chinesa, mas também alerta para o impacto que está a ter no comércio internacional e em muitos países que são também eles afetados negativamente pela queda do preço do petróleo.

A China está entre os dez maiores parceiros comerciais de mais de 100 economias, que no seu todo correspondem a 80% do PIB mundial. Nos últimos anos, as importações chinesas dos principais blocos – Estados Unidos e Europa – aumentaram consideravelmente, o que deixa estes países numa situação delicada. Segundo as contas do FMI, por cada redução de 1% no PIB chinês que seja resultado da queda do investimento, há uma queda de 0,25% do PIB no grupo dos 20 vinte países mais ricos do mundo, os países que compõem o G20.

Acresce a esta análise que a China é um muito importante importador de matérias-primas, especialmente metais, e, só em 2014, foi responsável por 40% da procura mundial. A queda no investimento chinês está a ter um impacto considerável nos preços destas matérias-primas (o preço dos metais caiu cerca de 60% desde 2011), o que tem um impacto considerável nos países mais dependentes do mercado chinês, como são alguns países do sudeste asiático, a África do Sul e o Brasil.

O impacto das mudanças na China pode observar-se nas estimativas para o comércio mundial, que o FMI espera que cresçam menos 0,3 pontos percentuais este ano e no próximo face ao que previa em janeiro, ou mais 1 pontos percentuais e 0,8 pontos percentuais em 2016 e 2017, respetivamente, que o previsto há meio ano.

Legado da crise continua a pesar na zona euro

A retoma na zona euro deverá continuar a ser moderada, diz o FMI, que também revê em baixa as previsões para este bloco. De Portugal já se sabia – o ritmo de crescimento da economia deve cair este ano e no próximo, para 1,4% e 1,3% do PIB, respetivamente -, mas o diagnóstico geral é que a economia dos países que partilham a moeda única vá ser ainda mais afetado pela deterioração da economia internacional, com menor procura pelas exportações e pelo investimento estrangeiro na área do euro.

Outro dos pontos recorrentes do FMI, e que é cada vez mais tema de discussão em Portugal, é o problema do legado da crise. A divida destas economias – pública e privada – continua alta e os países têm de fazer um maior esforço para a reduzir. No caso da dívida privada, em que o FMI tem insistido muito no caso português para a necessidade de uma solução, o Fundo volta a sublinhar a necessidade de se fazer mais para evitar que o excessivo endividamento continue a impedir estas economias de crescer, não havendo capacidade de os bancos para darem mais financiamento e podendo também assim colocar a estabilidade financeira em causa, e as próprias empresas estarem demasiado endividadas para conseguirem financiamento através de outras fontes.