«Scaleup» significa, literalmente, reajustar-se a uma escala. Se uma startup está obrigatoriamente no início de uma viagem, uma scaleup pressupõe que alguns objetivos foram já bem-sucedidos. Entre uma e outra estão alguns zeros: as startups que já angariaram um financiamento superior a um milhão de dólares (equivalente a quase 900 mil euros) e que passaram, pelo menos, por uma ronda de investimento nos últimos cinco anos passam a ter a designação de scaleup.

Um novo estudo, intitulado «Portugal Rising: Mapping ICT Scaleups», publicado pelo Startup Europe Partnership (SEP) em conjunto com o CrESIT e com o apoio da Microsoft Portugal e da inicativa Ativar Portugal Startups, fez uma radiografia a este ecossistema de empreendedorismo em Portugal. E os números são animadores, confirmando que o setor está em franco crescimento.

Nos últimos cinco anos, 40 scaleups em Portugal quebraram a fronteira de um milhão de dólares. Juntas, arrecadaram mais de 156 milhões de euros de financiamento de venture capitals, das quais 36 receberam um financiamento entre 945 mil euros e 9 milhões e meio de euros.

São boas notícias para Portugal que, segundo o estudo, está a recuperar da crise económica e financeira a que esteve associado nos últimos anos. Hoje, está quase em condições de competir com outros países do Sul da Europa, como Espanha e Itália; embora se mantenha afastado da realidade de outros países incluídos no estudo, como Alemanha, França e Reino Unido: o produto interno bruto (PIB) português é 16 vezes menor do que o alemão, 12 vezes inferior ao inglês e francês, nove vezes inferior ao italiano e seis vezes menor do que o espanhol.

Uma tendência clara destas scaleups é a sua juventude: 75% nasceram depois de 2010 e 48% depois de 2012. Além disso, todas as scaleups analisadas sofreram processos de fusão e/ou aquisição a nível internacional: 66% com empresas norte-americanas, algumas bem conhecidas do público português, e 22% com empresas europeias, dados que indicam que o ecossistema português de startups tem boas relações internacionais e que o empreendedor tem no seu ADN o desejo de levar a sua startup além-fronteiras.

Entre 2010 e 2015, nove startups portuguesas foram adquiridas por gigantes internacionais. A Digisfera, focada na experiência fotográfica a 360º, foi adquirida pela Google, em 2015. A Best Tables, serviço de reservas de restaurantes online, foi adquirida, também em 2015, pela Trip Advisor.

A Webdetails, que desenvolveu uma ferramenta para a visualização de dados complexos, integrou em 2013 a não menos conhecida norte-americana Pentaho. No campo da inovação em anúncios de publicidade online, a Fixe Ads conquistou, em 2012, o grupo sul-africano Naspers. Flipside, anubisnetwork, Fibersensing, Tarpipe e Blip completam a lista.

Lisboa é a cidade portuguesa com maior número de scaleups portuguesas (42% do total), seguida do Porto, a segunda maior hub do país. As áreas de software solutions, business analytics e saúde ocupam o topo, seguidas da educação, serviços empresariais, turismo e mobile.

Até ao momento, não há ainda nenhum «unicórnio» em Portugal. Este termo foi cunhado por Aileen Lee, fundador da Cowboy Ventures, para designar uma startup que tenha sido avaliada, desde a sua fundação, em mais de mil milhões de dólares.

No entanto, a Farfetch, uma plataforma de e-commerce que reúne 400 boutiques de luxo e que cresceu pela mão do empreendedor português José Neves, em Londres, foi avaliada, numa última ronda de investimento em 2015, em 918 milhões de euros. É a única empresa com sangue português a entrar no The Billion Dollar Startup Club, promovido pelo The Wall Street Journal, liderado, até abril de 2016, pela Uber. Tem sede em Londres, mas emprega no Porto mais de mil pessoas, onde concentra a maioria das operações.

CARLOS COSTA PINA,

CARLOS COSTA PINA

Scaleups portuguesas que cresceram no mundo

A internacionalização é um fator crucial para uma startup passar o almejado patamar de um milhão de dólares de financiamento. Por vezes, acabam por crescer precisamente além-fronteiras, acabando por deslocalizar a sede e mantendo a presença operacional e tecnológica em Portugal.

A Feedzai é uma dessas scaleups. Orginalmente com sede em Coimbra, moveu-a para o célebre Silicon Valley, na Califórnia, fato que contribuiu para que tivesse conseguido angariar mais de 25 milhões de euros em vários círculos de financiamento. Tem hoje delegações em Portugal e em Londres.

A Feedzai junta, desde 2011, engenheiros aeroespeciais e cientistas especializados em dados complexos na missão de detetar fraudes relacionadas com o e-commerce ou a banca eletrónica através do desenvolvimento de algoritmos de aprendizagem automática. A sua tecnologia anti-fraude é cobiçada em todo o mundo.

Originalmente sediada em Aveiro, a Musikki tem hoje sede em Londres e o centro de operações no Porto. O que começou por ser um simples agregador de conteúdos de música é, hoje, um scaleup que ultrapassou a barreira de um milhão de euros em financiamento através de business angels e firmas de capital de risco.

Esta plataforma de música, que aposta em dois segmentos – consumidor final e indústria – agrega toda a informação sobre um artista, um álbum ou música. Reúne também os principais serviços que permitem ao consumidor comprar música, como o iTunes ou a Amazon, ou ouvi-la em streaming, através do Spotify, Deezer ou Rdio.

Outra scaleup portuguesa que se tem destacado no Silicon Valley é a Talkdesk, uma empresa criada em 2011 por dois ex-alunos de Engenharia de Telecomunicações e Informática do Instituto Superior Técnico: Cristina Fonseca, que lidera o projeto em Lisboa nas vertentes do design, atendimento ao cliente e engenharia; e Tiago Paiva, que lidera a equipa de marketing e vendas nos EUA.

Juntos, desenvolveram um software inovador que permite a qualquer empresa criar em minutos, através da Internet, um call-center sediado numa cloud. A startup arrecadou um total de 24, 5 milhões de dólares em quatro rondas de financiamento, a última das quais em outubro de 2015, onde atingiu a fasquia dos 6 milhões de dólares.

A Unbabel foi a primeira empresa portuguesa a entrar na aceleradora californiana Ycombinator e a sua forma de competir quer com o Google Translate, quer com as empresas tradicionais de tradução passa por aliar a tradução automática a uma comunidade online mundial de nativos de diversos idiomas que corrige essa tradução. Desde a sua fundação, em 2013, captaram cerca de 2,4 milhões de euros em investimento.

Nascida de uma parceria entre o Instituto de Telecomunicações, a Universidade de Aveiro e a Universidade do Porto, com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, a UPTEC e o programa Carnegie Mellon Portugal, a portuense Veniam tem hoje sede em Mountain View e uma delegação em Singapura.

Com a missão de criar a «Internet das coisas em movimento», a Veniam transforma veículos em hotspots Wi-Fi ligados à bateria do carro, permitindo a qualquer pessoa em redor ligar-se gratuitamente à Internet. É hoje responsável pela criação e gestão da maior rede veicular do mundo que abrange, só na cidade do Porto, 600 veículos. O objetivo é chegar aos mil milhões de veículos e outros objetos em movimento.

Radiografia às startups portuguesas

Estas 40 scaleups representam, no entanto, uma minoria no tecido empreendedor português, embora 24 startups sejam também fortes candidatas a esta designação: o financiamento médio ronda já os 500 mil euros. Segundo os últimos dados disponibilizados pela consultora Informa D&B, entre 2007 e 2014 foram criadas 271.430 startups. Em 2014, nasceram mais de 35 mil empresas, número mais alto de sempre e que reflete a tendência que já tinha sido registada em 2013.

As startups – designação que cabe às empresas com menos de cinco anos de atividade, que possui elementos de inovação e trabalha em condições de extrema incerteza – representam já 34% do tecido empresarial nacional, asseguram 46% do emprego gerado pelo universo empresarial português e 9,6% do volume total de negócios.

Quase 50% das empresas são constituídas com um capital mínimo, inferior a cinco mil euros; é, aliás, possível desde 2011 constituir uma empresa com um capital social de um euro por sócio. Números baixos são também os respeitantes ao volume médio de negócios, que baixou de 86 mil euros para 74 mil euros entre 2007 e 2013, acompanhados da redução do número médio de empregados de 2,7 para 2,1, no mesmo período.

O maior número de nascimento de empresas registou-se nos setores de serviços (27,2%) e retalho (17%), seguidos do alojamento e restauração (11,2%). Os setores da agricultura, pecuária, pesca e caça, de telecomunicações e alojamento e restauração registam o maior crescimento anual de novas empresas.

Quanto à distribuição geográfica, Lisboa deixou de ser a região do país mais empreendedora, assegurando agora o segundo lugar com 32% do tecido de startups. O pódio pertence ao Porto, que representa 36% do ecossistema.

O perfil do empreendedor continua a ser predominantemente masculino e muito jovem: em 66% dos casos, trata-se da primeira experiência como empresário. Alguns vão precisar de falhar e tentar novamente, dado que criar uma startup não é sinónimo de automático sucesso: se cerca de 50% sobrevivem ao terceiro ano de vida, apenas 39% passam a barreira dos cinco anos.