No dia da marcha lenta dos taxistas contra a Uber, o Observador solicitou um dos motoristas para uma viagem de teste. Logo ao aceder à aplicação recebeu uma mensagem de alerta a informar que, por causa da “paralisação organizada pelas associações de táxi portuguesas”, “as opções de mobilidade” seriam “mais reduzidas”.

O aviso confirmou-se logo de seguida. A aplicação informou que o tempo de espera previsto para a chegada do motorista à Rua dos Caetanos (onde fica a redação) era de 21 minutos.

“O dia está a correr bem mas como há muito tempo de espera tem havido muitas pessoas a cancelar as viagens”, começa por dizer Morais*, o motorista que nos foi atribuído para a viagem desta sexta-feira. “Cheguei a pensar que talvez fosse cancelar também”, diz-nos ainda.

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O primeiro destino escolhido foi a Praça de Espanha com o objetivo de circular pela cidade e perceber como estava o trânsito em dia de protesto de taxistas. Morais trabalha para a empresa que presta serviços à Uber há apenas seis meses, começou depois da anterior manifestação de taxistas de setembro passado. Antes era vigilante, “não sabia bem o que era a plataforma da Uber”, e teve que fazer formação para poder trabalhar como motorista.

Nessa formação aprendeu que é preciso “ter cuidado com a condução, o cliente não pode ficar agarrado ao banco durante a viagem”. E conta que desde que é condutor da Uber, alterou muito a sua forma de conduzir. Não faz uma “condução agressiva” e “nas rotundas é devagar e nada à pressa”. Outra recomendação que recebeu foi para se “desviar dos buracos, mas em Lisboa é difícil!”, diz a rir.

Sobre o tema quente do dia, a manifestação contra a plataforma à qual presta serviços – Morais é funcionário de uma empresa que, por sua vez, fornece serviços à Uber – diz que “devem ter os seus motivos” mas que “muitos nem sabem porque se estão a manifestar”. O condutor refere-se em especial ao facto de muitos taxistas fazerem referência à ausência de faturas relativas aos serviços da Uber, por desconhecimento.

Para o condutor, a manifestação não faz muito sentido. Até porque, diz, já existem “taxistas que se mudaram para a Uber”. “Não conheço nenhum pessoalmente, mas sei que existem”, assegura.

Tal como acontece com muitos taxistas, Morais não é dono do carro Uber que hoje conduz. Aliás, a empresa para a qual trabalha tem mais do que um veículo e ele muda de carro “de três em três dias”. Trabalha por turnos, normalmente faz o horário da manhã (das 6h às 16h) de segunda a sexta-feira. O salário que recebe tem uma parte fixa e outra que “depende da faturação”, ou seja, dos clientes que transporta.

“Já tive clientes franceses que me disseram que têm o seu carro, trabalham diretamente para a Uber e recebem o dobro”, contou ao Observador. Pessoalmente, Morais diz que ainda não pensa nessa hipótese, até porque “para isso, a legislação tem que mudar”. O condutor da Uber não sabe se isso algum dia vai acontecer, mas em dia de protesto contra a plataforma, não quis deixar de “vestir a camisola”.

Mais de uma hora depois e de algumas ruas congestionadas pelo trânsito, o fim da viagem aproxima-se. Apesar das “voltinhas” que deu com o Observador, o motorista continua tão cortês e afável como no início da viagem. E prevê que o resto do dia continue a correr bem: “Tenho a certeza que quando o protesto terminar vou ter mais clientes.”

E relembra o que aconteceu depois do último protesto dos taxistas, em que a aplicação da plataforma bateu recordes de instalações nos smartphones. Na sua opinião, a manifestação anterior beneficiou a Uber, porque “muitas pessoas que não conheciam passaram a conhecer”.

“Sabe uma coisa? Isto é publicidade à borla para nós,” disse Morais em jeito de despedida. A viagem de 14 quilómetros às voltas pela cidade custou 18 euros e 47 cêntimos. A fatura chega pouco depois, por email.

Fatura Uber

Imagem da fatura da Uber da viagem realizada pelo Observador recebida por email (o NIF da empresa que presta serviços para a Uber e do cliente final foram omitidos por razões de privacidade)

Imediatamente após assinalar o fim da viagem, o motorista recebe a informação de que foi solicitado por outro cliente. Apesar da manifestação a Uber continua a circular.

* Morais é um nome fictício, o condutor preferiu não se identificar.