FPF

“Zé Golo”, o felino a quem pedem paciência

José Gomes marcou sete dos 14 golos de Portugal no Campeonato da Europa de sub17. Ao Observador falou da Guiné, de futebol, dos sonhos e da final de sábado contra a Espanha.

Andre Sanano

Autor
  • Hugo Tavares da Silva
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Look, if you had one shot, or one opportunity
To seize everything you ever wanted. In one moment
Would you capture it, or just let it slip?

Se o futebol fosse como no BBC Vida Selvagem a coisa ficava mais ou menos assim: José Gomes é um felino que tem aquele sexto sentido dos tubarões para sentir o sangue a quilómetros de distância. Isto assim parece meio estranho, mas não há maior elogio para um avançado centro: rápido, cínico, com faro e implacável — a UEFA chamou-lhe “Zé Golo” nesta entrevista. Marca muitos golos, mas pedem-lhe paciência, no Benfica e na seleção.

O rapaz de 17 anos não esquece as origens na Guiné e isso funciona como a sua bússola. Quer ser jogador de futebol, acredita que chegará à equipa principal do Benfica, gosta muito do Manchester United e suspira por Thierry Henry — a letra da música no início deste texto fará sentido já a seguir. A seleção portuguesa está na final do Europeu sub17, no Azerbaijão, contra a Espanha (sábado, às 17 horas). José Gomes fez sete dos 14 golos do grupo na competição. O Observador falou com o avançado, mas ele não quis avançar quantos golos vai marcar na final…

A história deste miúdo começou aos soluços. O futebol é paixão de sempre, mesmo apesar dos seus tenros 17 anos, a coisa está mais do que enraizada. Ele queria muito, o pai torcia o nariz, mas a mãe fez força. José Gomes fala ao Observador diretamente de um quarto de hotel em Baku, na capital do Azerbaijão, e está meio desconfiado. Não há o cheiro a relva, não há uma baliza para mirar, nem colegas para ajudar. Mas ele vai-se soltando, culpa da Guiné e da sua infância: “Tenho uma história engraçada. Uma vez, à tarde, depois de almoço, a minha mãe costumava dizer que ia descansar um pouco. Certa vez não quis descansar e fui jogar à bola. Fingi que estava a dormir, esperei que ela adormecesse e fui jogar à bola. Acabei por me cortar no dedo do pé, ela nunca soube disso, eu tinha medo. Era para descansar, fui teimoso…”

O episódio é simples, talvez igual ao de tantas e tantas crianças. Mas aqui o que agarrou foi o tom, as palavras, os sorrisos desconfortáveis e orgulhosos ao mesmo tempo. Não é só por ser apenas um garoto, tem muito de África, daquela pureza e genuinidade que só se compreende ou vê quando se viaja para longe.

José Gomes começou a encantar nos relvados portugueses em 2011, quando foi jogar um Mundialito no Algarve. “Marquei muitos golos nesse torneio. Perdemos nas meias-finais [contra o Real Madrid]. Depois voltei para a Guiné”, lembra. Mas o futebol ficou ali a fazer tiqui-taca entre o coração e a cabeça. Ele queria, a mãe, que se mudara entretanto para Portugal, dava força, mas o pai achava muito cedo. Gomes voltaria em 2012.

“Voltei a Portugal e treinava no Povoense, numa escola do Sporting. Treinava com o Moreto Cassamá [já disputou um jogo pela equipa B do FC Porto]. Fiz alguns treinos na Cidade Universitária com os da minha idade, como o Leandro Tipote [joga nos juvenis e juniores do Sporting]. Depois não chegámos a acordo, porque eu queria ficar na academia.” O felino quase teve um leão ao peito, mas afinal eram umas asas que o esperavam…

“Depois surgiu o Benfica, fui à captação. Fiz torneio do Cartaxo, fui o melhor marcador. Depois fui o melhor marcador no Torneio do Sacavenense. Depois assinei pelo Benfica, era sub14. Nesse ano marquei 25 golos”, lembra. José Gomes era iniciado de primeiro ano e marcou esses golos todos na equipa principal do escalão, ou seja, no campeonato nacional. A partir daqui foi um festival de bolas a entrar na baliza. No ano a seguir, diz o zerozero.pt, o avançado marcou 24 golos. Nos juvenis meteu 21 batatas e este ano, ainda com idade de juvenil, fez 25 nos sub19 — sete golos foram marcados em cinco jogos da Youth League, a Liga dos Campeões dos juniores. Caso sério, hein?

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José Gomes levanta um adversário austríaco, depois de ele marcar três golos (5-0)

Em abril de 2015, José Gomes e mais dois colegas (João Carvalho e Diogo Gonçalves) assinaram contrato profissional com os encarnados. A camisola do avançado dizia tudo: “Crème de la crème”. E o que dizia ele: “O primeiro contrato é sempre aquela coisa… vou ter de contar aos meus filhos”. Mais um dado novo, o rapaz quer ser pai.

Mas a t-shirt do luso-africano continuaria a falar verdade também nos escalões jovens da seleção nacional. Foram “apenas” 23 golos em 33 internacionalizações. Se olharmos apenas para os sub17, José Gomes marcou 19 golos em 27 presenças. Este Europeu, que está a decorrer, mostra bem o killer instinct do rapaz: dois golos ao Azerbaijão (5-0), um à Escócia (2-0), três à Áustria (5-0) e mais um à Holanda (2-0).

Se a sua vida tivesse uma banda sonora, era coisa para se ouvir “La Vie En Rose” de Edith Piaf, mas nem sempre foi assim. “A adaptação a Portugal foi muito difícil. Tive muitas saudades, do pai e amigos. Isso tornou as coisas mais complicadas. Queria agradecer ao Benfica porque teve um papel muito importante na minha adaptação. No ano a seguir foi muito mais fácil, conheci muita gente.”

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O sorriso voltou a abrir e os olhos a brilhar — a conversa foi via vídeo de Facebook — quando teve a oportunidade de regressar a casa, cinco anos depois de deixar tudo para trás em nome do sonho. “Voltei à Guiné há cinco meses. Fui com a equipa B do Benfica. Estive com a família, foi um momento muito especial para mim.” E ele explica por que é difícil deixar tudo para trás e, ao mesmo tempo, tão importante saber agarrar essa lembrança.

“Não nos podemos esquecer de onde viemos. Há pessoas que esquecem as raízes. É sempre bom lembrar o que já passámos. Quando fui à Guiné foi muito importante, porque estão lá milhares de pessoas que queriam estar no meu lugar e não têm essa possibilidade. Isso acaba por ser uma motivação extra para mim.”

“Os misters lá no Benfica dizem que eu não gosto de ficar muito tempo sem bola”

Vamos lá ao que é bom, então: o futebol. Quem é o ídolo de José Gomes? “Agora gosto de ver o [Luis] Suárez [avançado do Barcelona], o uruguaio. Mas o meu ídolo de sempre é o [Thierry] Henry”, diz, sem hesitar muito. E com quem é parecido o Zé Gomes? “Ah ah ah! Essa é a parte mais difícil”, fugiu assim, como foge aos centrais. Vamos lá complicar então: defeitos e virtudes do Zé Gomes?

“Hmm, vou começar pelos defeitos. Tenho de melhorar a meia distância, ser mais possante fisicamente, porque é muito importante para a minha posição. E tenho de ter mais paciência. Digo isso porque às vezes os misters lá no Benfica dizem que não gosto de ficar muito tempo sem bola. É por isso que baixo muito para buscar jogo, acho que posso melhorar isso. Ter mais paciência”, analisa, também ele, implacável consigo mesmo.

E o outro lado da moeda? “Jogo bem no espaço aéreo e finalizo bem. Gostava de melhorar o pé esquerdo [lá está, implacável, até nas virtudes]. Tecnicamente também [estou bem]”, conta. E no segundo a seguir foge-lhe a boca para o coletivo: “Se a equipa ganhar e ganharmos todos, é o que interessa, por isso tento fazer tudo pela equipa, tento dar o máximo. Posso marcar dois golos, mas se o jogo chegar ao fim e perdermos, isso para mim não interessa. Todo o esforço que fizemos não serviu para nada… As grandes equipas é que fazem os grandes jogadores, não são os grandes jogadores que fazem as grandes equipas.” A frase é forte e, ensaiada ou não, é uma demonstração de que a bússola está ou quer estar sempre calibrada.

Um elemento da Federação Portuguesa de Futebol não tem meias palavras quando fala em Zé Gomes: é um jogador maduro, humilde, sabe o que quer fazer e o que é bom para o conjunto.

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E quem é o melhor jogador dos sub 17?

E esta caminhada tem sido assim tão fácil como parece? José Gomes sorri. “Não tem sido fácil, nada é fácil. Nós estamos a tornar as coisas mais fáceis. O grupo e a união tornam as coisas mais fáceis”, diz. Bom, então e os defesas centrais, já estão a marcar mais perto e a pisar os calcanhares ou nada disso? “Isso é sempre… As equipas têm respeito. É assim que nos valorizamos, é a respeitar o adversário e a tentar fazer tudo para ganhar. Acho que todos os adversários nos respeitam. Quanto a mim, as coisas que tenho feito acabam por ser uma algo que deve ser respeitado”, diz, trocando gargalhadas com um elemento da Federação Portuguesa de Futebol que está por perto.

José Gomes talvez não saiba, mas faz parte da segunda seleção com mais canecos de Campeonatos da Europa. Portugal venceu em 1989, 1995, 1996, 2000 e 2003, altura em que a seleção de João Coimbra, Márcio Sousa e Paulo Machado enganaram a Espanha de David Silva, Adán e Jurado (2-1). A Espanha já jogou em oito ocasiões. Zé Gomes nunca viu esse jogo, nem os golos. Mas o Observador conta-lhe uma coisa ou duas, como por exemplo que Coimbra era top e Moutinho sentava-se no banco, pouca gente sabia quem era — um ano depois o médio do Sporting estaria na equipa principal. “As coisas mudam muito rápido no futebol”, diz o elemento da FPF a Zé Gomes, num tom pedagógico. Por isso, quem é o melhor jogador da geração? “[Pausa] João Filipe!”

E na carreira de José Gomes, o que vai acontecer? “Quero ser futebolista profissional. Acredito que posso vir a chegar à equipa principal do Benfica e tenho noção que falta algum tempo. Tenho muito que evoluir como jogador e isso faço-o todos os dias, treinando, para tentar estar entre os melhores. O futuro só a Deus pertence”, diz o avançado, que tem um carinho especial pelo Manchester United que, curiosamente, sofria muito com o seu ídolo. Henry fartou-se de marcar golos e dar dores de cabeça aos red devils.

Para finalizar, tratemos da manchete dos jornais de sábado: Quantos golos vai marcar na final? “Vamos ver, ah ah ah. Isso escreve-se depois!” O Observador não vai arrancar nadinha sobre o derradeiro jogo. Okay, e conselhos e dicas do mister Hélio? Será paciência? “É mesmo isso!!”, gargalha um pouco mais. A desconfiança do início da conversa já estava mais longe do que o cometa Halley, mas é tempo de acabar, que em Baku são mais quatro horas do que em Lisboa. “Nós pensamos jogo a jogo, vamos ver o que vai dar. Vamos fazer tudo e vemos depois dos 80 minutos”, diz o miúdo que gosta de hip hop e música dos Camarões e Nigéria. E rap, porque Eminem surgiu logo no top of mind.

Por essa razão, este artigo termina com uma música que dirá muito a aventureiros como José Gomes, que mudaram de vida e têm o mundo e o destino na ponta da bota. A música de Eminem “Lose Yourself”, do filme “8 Mile”, fala sobre essa única oportunidade que só aparece uma vez na vida; grita o sucesso como única saída. Apesar dos nervos, dos joelhos fracos, das palmas das mãos suadas, dos braços pesados e dos músculos tensos, está na hora de fazer história. A final do Campeonato da Europa sub17 é sábado, em Baku, no Azerbaijão.

“Would you capture it or just let it slip?”

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