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Mesquita na Mouraria é para avançar, mas Câmara vai negociar expropriação

Projeto de nova praça prevê a cedência de um espaço à comunidade islâmica para uma mesquita. Acarinhada por todas as forças políticas, a proposta não agrada ao dono de um prédio que foi expropriado.

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ANTÓNIO COTRIM/LUSA

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A Câmara Municipal de Lisboa está disponível para negociar com o proprietário de um prédio da Rua do Benformoso que terá de ser demolido para aí ser construída uma nova praça (que inclui uma mesquita). Isso mesmo disse Fernando Medina esta quarta-feira na reunião pública autárquica, informando os jornalistas e o dono do imóvel — presente na sala — que “há interesse em consensualizar” um valor para a indemnização a pagar pela expropriação. “Farei isto com gosto e com empenho”, acrescentou o autarca.

Fora de questão está a possibilidade de o edifício regressar às mãos de António Barroso, que o adquiriu em 2006 e que, mal Fernando Medina se calou, protestou contra o que o presidente da câmara acabara de dizer. “A reunião que o senhor vai marcar já vem muito tarde. Eu fui expropriado na segunda-feira às quatro horas da tarde”, disse, argumentando que “já se deviam ter feito as reuniões há muito tempo”. Medina retorquiu que “não há nenhuma novidade” nem “nenhuma surpresa de última hora”, uma vez que, alegou, o projeto de criação de uma praça entre as ruas da Palma e do Benformoso (na Mouraria) já remonta a 2009.

O diálogo não prosseguiu porque Medina teve de ir para um evento com o Presidente da República. À saída, junto aos jornalistas, deu ordem explícita ao seu chefe de gabinete para que agendasse a reunião prometida. Quanto a António Barroso, que tentou seguir o autarca, ficou no corredor a falar com um dos assessores da câmara.

É aqui, entre a sede do Bloco de Esquerda e o Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, que a câmara quer construir a futura praça

Uma mesquita que faz falta

Este projeto remonta a janeiro de 2012, quando a câmara aprovou, por unanimidade, a abertura de uma praça na Mouraria que aumentasse a “visibilidade física e visual” da Rua do Benformoso, explicou Medina esta quarta-feira. Um ano mais tarde, a câmara celebrou um protocolo com o Centro Islâmico do Bangladesh com vista à instalação, num dos edifícios da nova praça, de uma mesquita.

mesquita, Mouraria

A maquete do projeto da Praça da Mouraria (D.R.)

Dentro do multicultural bairro da Mouraria, a Rua do Benformoso é uma das mais diversas. São dezenas os estabelecimentos bangladeshis, chineses, paquistaneses, indianos e moçambicanos que ali se encontram. Durante muito tempo, a zona esteve associada à prostituição e a más condições de salubridade e segurança. A criação da praça, diz a câmara, é uma forma de corrigir isso.

Por outro lado, a criação de uma nova mesquita é uma necessidade sentida pelos muçulmanos do Bangladesh que habitam naquela zona. Atualmente existem dois espaços de oração islâmica por ali, separados apenas por uma rua. São ambos muito pequenos, como o Observador constatou. Às sextas-feiras e especialmente durante o Ramadão — com orações durante a noite — “não se consegue rezar porque a multidão é tanta que tem de ficar na rua”, diz Syed Ansar, que frequenta a mesquita do Beco de São Marçal.

Lá dentro, o espaço é exíguo. Depois de se passar um corredor repleto de prateleiras para os fiéis deixarem os sapatos, há apenas uma sala com uns 25 metros quadrados. E, garante Sayed Ansar, chegam a ser mais de duas mil as pessoas que se reúnem nas orações semanais. “Causa distúrbios aos vizinhos, que vêm à janela mandar-nos calar”, diz este natural do Bangladesh que está em Lisboa há três anos e meio, depois de já ter vivido em vários outros países europeus. “Não podemos fazer barulho para os vizinhos e rezar ao mesmo tempo. Nós queremos viver aqui e ter amigos portugueses”, diz Sayed, sentado a uma mesa do Restaurante Ruposhi, logo ao lado da mesquita e muito procurado por muçulmanos em dias de oração. “O principal para nós é a paz e a amizade.”

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O investimento de Barroso

Quem também quer paz é António Barroso, que nos últimos dias já repetiu dezenas de vezes a mesma história, tal é o rodopio de jornalistas que andam pela Rua do Benformoso. Para que a praça da Mouraria seja uma realidade, a câmara tem de demolir vários prédios. Alguns, os que viram para a Rua da Palma, são propriedade municipal. Os outros, no Benformoso, foram de António Barroso até segunda-feira, altura em que a autarquia tomou a posse administrativa dos mesmos.

Depois de quase três décadas a trabalhar numa loja de malhas então existente no prédio, António Barroso comprou todo o imóvel “com muito custo”. Foi em 2006. “Comecei logo as obras e terminei mais ou menos em 2009. As principais, porque ainda há coisas para fazer”, diz o alentejano. Atualmente, além de lá viver, António arrenda apartamentos a turistas e tem dois espaços comerciais também arrendados.

Um deles é a Moçambique Tour, agência de viagens de Mahomed Valimamade, que está ali há cerca de um ano, depois de muito tempo passado no Centro Comercial do Martim Moniz. “Uma loja de rua é diferente”, afirma o empresário, que na segunda-feira também foi formalmente informado de que tem de abandonar o espaço em breve. Também muçulmano, Valimamade frequenta a mesquita central de Lisboa, na Praça de Espanha, e não compreende porque é que o novo espaço vai ser gerido pela comunidade bangladeshi.

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Para António Barroso, o principal problema não é a existência da mesquita. É deitarem-lhe abaixo o prédio onde investiu milhares de euros. As obras de reabilitação do edifício tiveram de obedecer a uma série de regras patrimoniais — manutenção dos azulejos e lajes oitocentistas — e até chegaram a estar embargadas. Um dia, começaram os rumores. “Eu sabia que havia projeto desde 2012, mas ouvi falar disto mais a sério no fim de 2014, início de 2015”, quando a câmara o contactou, explica o proprietário. A autarquia, garante, “nunca fez qualquer reunião nem me perguntou a opinião”.

A câmara oferece-lhe agora cerca de 500 mil euros de indemnização por ficar sem o edifício, mas este valor “é uma proposta” com vista a “uma negociação amigável”, explicou Medina na reunião.

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