A tradição do fado no Porto pode ter raízes débeis, mas, no primeiro dia da segunda edição do festival Caixa Ribeira, foi o fado que tomou conta da zona mais tradicional da cidade. E aqui família quer dizer artistas e público, distinto nas idades e nos gostos. Houve de tudo, do fado mais tradicional e corrido até às fórmulas mais livres de Ana Moura ou Zambujo, que protagonizaram alguns dos melhores momentos do festival. Também Paulo de Carvalho – que nem nasceu no fado, mas o foi adotando ao longo da carreira – ajudou António Chaínho a conquistar o palco principal.

Os aperitivos

Mas não só de Palco Caixa se fez este festival, bem pelo contrário. São dez espaços distintos de apresentação e começámos a noite numa cave do Cais da Estiva, um espaço pequeno (com um cheiro a bafio que não permitia uma permanência muito longa) em que artistas menos conhecidos tentavam chamar a atenção da assistência. Era esse o caso de Nádia Bastos, que apanhámos a interpretar “Rosa Branca”, de Mariza. Uma boa parte do público quer apenas ouvir boas vezes e fados conhecidos, à procura de conforto. Mas a frase que mais se ouvia era “O que é bom é fazer o circuito”.

E esse circuito, feito por entre muitas turistas espanhóis ou franceses, levou-nos à escadaria da Igreja de S. Francisco, onde Maria do Sameiro usava “Estranha Forma de Vida” para exibir o seu vozeirão e conquistar aquela que foi provavelmente a primeira grande ovação da noite. “Sou do Porto, sou do Norte, sou tripeira, sim senhor”, exclamou. “Ah, linda”, alguém respondeu da escadaria, onde, um pouco mais acima, André Pereira (ou Tó Fado, nome artístico) criava uns versos na hora, para os anónimos que se sentassem durante uns minutos em frente à sua máquina de escrever. O senhor Fernando quase lhe contava toda a vida, mas Tó Fado é paciente. “Há muita pressão. Não acredito em inspiração, mas sim em transpiração. Os tiques das pessoas ajudam e até agora ninguém voltou atrás para me bater”, contou. O texto deste spin-off do projeto “O que te quero dizer” é entregue em envelope fechado, com solenidade.

Os veteranos e as promessas

José Gonçalez começava a cantar na Igreja de S. Francisco: será um palco inusitado para os católicos mais conservadores, que poderão ver traços evangélicos nas palmas em compasso. Mas “Até Deus gosta de fado”, cantava Gonçalez, e Maria da Fé — que se seguiria neste palco mais tradicional e visitado por uma faixa etária mais elevada – confessou que nem “se atrevia” a cantar ali certas coisas. De qualquer forma, os concertos relativamente curtos não permitem grandes hesitações: o primeiro atacou logo de início “O Rapaz da Camisola Verde”, Maria da Fé – dona de um estilo saltitão e corrido — optou por “Valeu a Pena” e Tudo isto é Fado” no arranque. Emocionada por cantar na sua cidade natal, “que ama”, a proprietária do lisboeta Sr. Vinho deu ainda tempo de antena a um talento que tem promovido no seu restaurante, Ana Margarida. Cantou “Gosto de ti” e ficou aprovada, a medir pelos aplausos. Será a next big thing do fado?

Nos palcos ditos secundários, destaque igualmente para o concerto de Joana Amendoeira, mais um nome da nova geração que encheu o Salão Árabe do Palácio da Bolsa. No mesmo edifício, mas no Pátio das Nações, Pedro Moutinho teve muito menos público do que desejaria, mas o problema é que António Zambujo tocava à mesma hora no palco principal.

Os pratos principais

Os nomes do Palco Caixa eram claramente os que mais ordenavam. António Chaínho começou com 25 minutos de atraso, mas trouxe consigo as belas vozes de Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho. Este último mostrou que a idade não manda: com o à-vontade de décadas de palco e sem pretensiosismos, deu humanidade ao virtuosismo do decano guitarrista. Com “Meninos do Huambo”, a tal cantiga passada à volta da fogueira, e um bem conseguido medley que incluiu “O Homem das Castanhas”, “Os Putos” e “Lisboa Menina e Moça”, criou o tal ambiente familiar que neste festival faz a diferença. “Quem quiser cantar sirva-se”, atirou, para se despedir com o humorístico “O polidor de calçadas” e um lastro de boa disposição.

Quem também canta como respira é António Zambujo, que teve a ousadia de deixar de fora do alinhamento a requisitada “Lambreta”. Acompanhado por guitarra portuguesa, trompete, clarinete, percussão e contrabaixo, o alentejano soube levar a água ao seu moinho, em velocidade de cruzeiro, perante uma plateia claramente conhecedora. Não faltaram êxitos como “Valsa de um pavão ciumento”, “Zorro” e “Pica do 7”, e as reações provam que Zambujo está em estado de graça.

Ana Moura encerrou a noite e não desiludiu, tendo apresentado um concerto completo, que começou com alguns dos temas mais exóticos do mais recente álbum: em “Moura Encantada”, “O meu Amor foi para o Brasil” e “Fado dançado” sente-se uma aproximação à pop e alusões a sonoridades latinas e africanas. Depois regressou ao fado tradicional, proporcionou ao excelente Ângelo Freire o momento certo para que este mostrasse o seu virtuosismo na guitarra portuguesa e não esqueceu os êxitos “Dia de Folga” e “Desfado”, já no encore, colecionando até ao fim elogios, aplausos e piropos.

Este sábado há mais, a partir das 20h00 e nos mesmos locais. O cartaz inclui Simone de Oliveira, Helder Moutinho, Aldina Duarte, Maria Armanda, Jorge Fernando e Raquel Tavares, entre muitos outros.