Mundial 2018

Quaresma. As sete (ou oito, ou nove) vidas de um desalinhado com pernas tortas

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Depois de ter sido uma das grandes figuras do Euro'2016, Quaresma voltou a ser determinante neste Mundial: foi a sua trivela que colocou Portugal nos oitavos de final.

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Depois de há dois anos ter sido ele uma das grandes figuras do Euro’2016, eis que Quaresma volta de novo à ribalta neste Mundial. Se o livre de Ronaldo que valeu o empate frente à Espanha no primeiro jogo, a trivela do Harry Potter frente ao Irão, no jogo em que foi pela primeira vez titular na Rússia, valeu a passagem aos oitavos de final. Entre um e outro golo, é preciso fazer rewind várias vezes para escolher qual o melhor. Por isso vale a pena reler a história do ‘mágico’ que vai fazer 35 anos em setembro (publicada originalmente a 13 de junho de 2016 e actualizado esta segunda após a trivela que colocou Portugal nos oitavos do Mundial).

Quando todos pensam que Quaresma está “arrumado”, ele ganha uma nova “vida” pela Seleção. E não só.

Vida N.º 1: Sporting-Barcelona

Tocou o telefone. O miúdo de 17 anos, nado e criado no Casal Ventoso, em Lisboa, atendeu-o. Estávamos no verão, julho de 2001.

Na época anterior, ainda juvenil, não fez um só jogo pelos “seus” Sub-17, fez poucos ou nenhuns nos Sub-19, mas Jean Paul chamou-o a fazer um punhado deles (quinze ao todo) entre homens de barba rija, pelos bês do Sporting. Tinha apenas 16 nos, era campeão Europeu de Sub-16 por Portugal, o melhor jogador do torneio disputado em Israel, e, adolescente, jogava entre adultos como se adulto fosse. Não tinha “cabedal” para eles. E até à canela é pescoço na II Divisão B, já se sabe. Mas levantava-se. Levantava-se sempre. E enfrentava-os, aos defesas, fintando-os, um, dois, e mais viessem, sempre “provocador”, sem temores. O que eles tinham em “músculo”, ele tinha em técnica. Fina. Finíssima. Como a que de melhor Alvalade (na altura Alcochete não existia na formação do Sporting e os treinos faziam-se perto do velhinho estádio José Alvalade) produziu, de Futre a Figo – o tempo de Ronaldo ainda não era aquele.

Voltando à chamada. Atendeu-a. Queriam que se apresentasse no estágio de pré-época com os graúdos – e entenda-se por “graúdos” Beto, Rui Jorge, Paulo Bento, Pedro Barbosa, João Pinto, Sá Pinto ou Mário Jardel. Apresentou-se e não lhe tremeram as pernas. Logo num dos primeiros jogos que disputou, contra a Académica, em Taveiro, Coimbra, László Bölöni fê-lo entrar na segunda parte, ele pegou na bola, não a passou a ninguém quando todos lha pediam, avançou em dribles no ataque, da esquerda para o centro, rematou em arco ainda de fora da área, e a bola só parou no canto superior direito da baliza de Pedro Roma. Na “gaveta”. De trivela. Tinha 17 anos.

12 Aug 2001: Quaresma of Sporting Lisbon runs with the ball during the Portuguese League match against FC Porto played at the Estadio das Antas, in Porto, Portugal. Sporting Lisbon won the match 1-0. Picture taken by Nuno Correia Mandatory Credit: AllsportUK /Allsport

(Créditos: Nuno Correia/Getty Images)

Não voltou aos bês, quanto mais aos juniores. Era mais um no plantel que antes só via pela TV. O camisola “20” não fazia número: contava. Não, não foi sempre titular. Mas acabou a época de estreia no Marquês de Pombal, campeão, com mais de trinta jogos e cinco golos. Bölöni queria trabalhar-lhe o individualismo em excesso, colocá-lo ao serviço do todo – sem perder, com isso, a técnica, o rasgo, a alcunha que as bancadas lhe puseram: “Mustang”. Era um desalinhado, um espírito livre, dentro e fora do relvado. E “venceu” o treinador romeno, que na época seguinte o faria mais titular que suplente, mas sem nunca o conseguir “domesticar”. Ele não apoiava a defesa quando o Sporting perdia a bola, ponto final. E Bölöni deixou-o ser o que é: Quaresma. Ricardo Quaresma. Antes tê-lo a atacar como a atacava, com trivelas, pernas tortas, velocidade, dribles, cruzamentos e remates, potência, do que tê-lo “preso” em marcações e rigidez tática. Quaresma nunca foi de tática; a “tática” dele era resolver jogos. Sozinho.

Acabaria por sair do Sporting em 2003, a troco de 10 milhões de euros – e o empréstimo de Fabio Rochemback. O destino? A ciudad condal, Barcelona, e o Camp Nou. Seria, com Ronaldinho, a figura do novo Barça que Joan Laporta começava a erigir no pós-Louis van Gaal. O treinador que o acolheu também era holandês: Frank Rijkaard. E gostava de Quaresma, tanto ou tão pouco que rapidamente o fez titular. Logo no começo de época.

Na digressão dos catalães aos Estados Unidos em agosto, Quaresma partiu a loiça toda. E ganhou um epíteto na Catalunha: “Harry Potter”. Mas foi sol de pouca dura a titularidade e foi-se-lhe a magia das botas. Quaresma passou mais tempo no banco (e às vezes na bancada) do que no relvado, o cabelo que era à escovinha virou guedelha a reluzir de gel, descuidou-se, ganhou peso, perdeu uma “vida” das sete que parece ter. Porque é que deixou de jogar? Em parte, culpe-se o próprio Quaresma. Por outro lado, culpe-se um argentino, baixinho, muito baixinho, de 17 anos. Um tal de Leonel. Messi de apelido. Começava a escrever, por essa altura, a sua história em Barcelona. A ouro.

Vida N.º 2: FC Porto-Inter de Milão

Déjà vu. Onde é que os sportinguistas já viram isto? Um “menino bonito” que sai de Alvalade para o Camp Nou, que não dá uma para a caixa no Barcelona, e que regressa a Portugal, não para o Sporting, mas para um rival. Aconteceu o mesmo com Simão Sabrosa, em 2001, quando trocou o Barça pelo Benfica. Quaresma não seria contratado pelo rival da Segunda Circular, mas aterraria no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, com destino ao estádio do Dragão e ao FC Porto campeão europeu.

(Créditos: TORU YAMANAKA/AFP/Getty Images)

(Créditos: TORU YAMANAKA/AFP/Getty Images)

Em três tempos, Quaresma voltou ao penteado curto, a barriguinha saliente foi-se e deu lugar ao six pack, e a magia, desaparecida, reapareceu como por… magia. A época do clube foi para esquecer – mas Quaresma ainda venceu, apesar de tudo, a Supertaça e a Taça Intercontinental. O FC Porto teve três treinadores nesse ano: Luigi del Neri, que nem aqueceu o lugar, o espanhol Víctor Fernández e, por fim, José Couceiro. Mas Quaresma, que herdou a camisola “10” de Deco, não foi só “do mal o menos” entre maus reforços, como Diego ou Luís Fabiano; foi o melhor. E acabaria nas três temporadas seguintes por sê-lo também, com três títulos de campeão em Portugal no bolso. Depois, saiu. Em 2008/2009.

Mourinho pediu-o para o Inter, Mourinho teve-o. Os “românticos” pensariam que Quaresma seria parte de uma tríade (com Ibrahimovic e Adriano) que infernizaria o futebol europeu por anos a fio. Quem o pensou, enganou-se. Redondamente. O Inter, aquele primeiro Inter de Mourinho, foi Ibrahimovic e mais dez. Mas nos restantes dez nunca se leu o nome de Quaresma – e muito menos o do mal-amado (pelo treinador) Adriano, deposto do lugar de “Imperador” de um dia para o outro.

Quaresma haveria de falar daquele ano com Mourinho. Diria que o treinador o quis mudar, conseguir dele o que Bölöni não conseguiu, torná-lo mais do Inter e menos do “Quaresma”, mas que, chegado a casa, e vendo a gravação do que fez na TV, Quaresma não se reconhecia. Sentia que tinha “desaprendido de jogar”.

Vida N.º 3: Inter de Milão-Chelsea

Pelo Natal, e cansado de ver os jogos sentado no banco de suplentes, Quaresma teve de Jorge Mendes, seu empresário, uma notícia, por fim, feliz. O Chelsea queria-o por empréstimo. Ou melhor, Scolari, de quem foi “o menino”, que o defendeu num Portugal-Sérvia com um soco em Dragutinović, chamava-o.

Mas a época dos londrinos era mesmo para esquecer, não havia volta a dar. Pouco depois de Quaresma aterrar em Londres, o treinador brasileiro foi despedido pelo “patrão” Roman Abramovich, que contratou para o seu lugar o holandês Guus Hiddink. Com ele, Hiddink, Quaresma fez cinco jogos. Cinco. Todos como suplente. 130 minutos na Premier League. Voltaria ao Inter na época seguinte. E venceu a Liga dos Campeões. Bem, “venceu” é um eufemismo aqui. Se na primeira temporada com Mourinho fez 19 jogos e um golo, na segunda só participou 13 e nem molhou a sopa.

Assim sairia do Inter. Com menos uma “vida”. O destino: a Turquia. E as liras turcas do Besiktas.

Vida N.º 4: Inter de Milão-Besiktas

A chegada ao aeroporto Atatürk, em Istambul, foi apoteótica para Quaresma. Adeptos aos milhares vestidos de branco e negro, tochas, cânticos numa língua que ao extremo era estranha, palmadas nas costas, sorrisos. Sentia-se feliz. Importante. Novamente importante.

Bernd Schuster, o treinador, deu-lhe “carta branca” em campo. E o Besiktas suportava-se nas costas de Quaresma. Durante dois anos foi assim. Quaresma não sentiu o peso e carregou-a. Fez golos de levantar a multidão no Vodafone Arena, fintou como só ele sabe, assistiu, a trivela estava bem oleada, no ponto, mas não venceu nada. Ou melhor, venceu: uma Taça da Turquia. Era pouco.

(Créditos: KIMMO MANTYLA/AFP/Getty Images)

(Créditos: KIMMO MANTYLA/AFP/Getty Images)

Naquelas duas temporadas, entre 2010 e 2012, apesar de tudo, da forma de Quaresma ser inegável, Paulo Bento não contava com ele. Talvez por estar longe, na Turquia, e afastado dos holofotes das principais ligas europeias. No apuramento para o Euro 2012 jogou pouco ou nada, acabou por ser convocado para a fase final, mas, apesar de Portugal ter chegado às meias-finais, nem do banco saiu.

Era um caso estranho, Quaresma. Nas camadas jovens, nas do Sporting e de Portugal, nunca ficou a dever nada a Cristiano Ronaldo. Aliás, fizeram uma dupla de extremos nos Sub-21 que encantava a Europa – quem viu, não mais se esquecerá de um Portugal-Inglaterra em Rio Maior –, e o “7” sempre se viu nas costas de Quaresma, empurrando ele para as de Cristiano Ronaldo um mero “11”.

A diferença sempre esteve nas escolhas de um e de outro — ou em como um e outro as aproveitaram. Ronaldo escolheu o Manchester e escutou Alex Ferguson; Quaresma, com Rijkaard ou Mourinho, o que lhe entrava pelo ouvidos saia com tanta ou mais velocidade do que aquela que tinha no relvado: mil à hora. O talento estava lá. Viu-se no Sporting e no FC Porto. Na Turquia também. Mas na Seleção, não. Não pela experiência no Besiktas, mas sobretudo pela não afirmação internacional, foi-se-lhe outra “vida”. A quarta.

Vida N.º 5: Besiktas-Al Alhi

Tinha 29 anos.

Estava na flor da idade. E como futebolista, no fina flor da maturidade. Nem velho, nem novo; no ponto. E quando a notícia começou a circular, quando se soube por uma fotografia nos jornais (daquelas com a camisola na mão e o presidente do clube ao lado) que Quaresma tinha assinado pelo desconhecido Al Ahli dos Emirados Árabes Unidos, a reação de todos era a mesma, estupefação, e a palavra que lhes saia da boca era só uma: “Acabou”.

Quaresma foi fazer o seu pé-de-meia. Alourou o cabelo. Nos Emirados joga-se pouco. E Quaresma andou uma temporada inteira para fazer 11 jogos, sempre a duas velocidades, devagar ou parado, e arrumar as botas em seguida. Certo? Errado. A “vida” perdeu-a nesta arcade do futebol. Mas ainda teria mais algumas para gastar. De volta a casa.

Haveria de dizer, sobre esta aventura das arábias: “Não sei o que me passou pela cabeça.”

Vida N.º 6: Al Alhi-FC Porto

Voltou ao FC Porto em 2013. Então, e aquela história de não se voltar ao lugar onde se foi feliz um dia? Quaresma não quis saber de provérbios e assinou.

Os milhões do Dubai já ninguém lhos tirava. Era tempo de voltar a desfrutar do futebol de primeira. E desfrutou. Com Paulo Fonseca, enquanto Fonseca se aguentou no banco portista, desfrutou. Mas desfrutava quase sozinho. Quaresma não desaprendera de jogar, o talento estava lá todo, puro como aos 17 anos, mas os azuis-e-brancos acabariam a época em terceiro lugar na Liga. Esse primeiro ano foi para esquecer.

Chegou Lopetegui ao Dragão no ano seguinte. E a relação entre os dois, sabe-se hoje, nunca foi a melhor. Quaresma queixa-se de “falta de honestidade” por parte do basco. Se não gostava dele, que lhe dissesse. Se o seu “desalinho” trocava as voltas ao tiki-taka (salvo seja; cedo se viu que não era), que lhe dissesse. Nunca disse. E Quaresma sairia do Dragão sem qualquer campeonato mais. E sairia dispensado. Não oficialmente, mas na cabeça do treinador sim.

A “vida” foi-se. E voltou ao Besiktas. Lá longe, na Turquia, nunca foi verdadeiramente feliz em títulos. Pelo que o provérbio não seria um problema.

Vida N.º 7: FC Porto-Besiktas

Sétima e derradeira “vida”, futebolisticamente falando. O sim ou sopas para Quaresma.

Não se esqueceram dele, os adeptos turcos do Besiktas – nem os adeptos rivais. Quando se soube que o Galatasaray estava interessado (Vítor Pereira também o queria no Fenerbáhce) em Quaresma, quase intimaram o presidente Erdal Torunogullari a contratá-lo. Aceitou? Claro que aceitou. É que os adeptos na Turquia não são bem, bem como os do Sporting — quando Quaresma assinou pelo FC Porto. Eles não ficam desagradados só; eles fazem rolar cabeças. Adiante.

Finalmente, à sétima “vida”, Quaresma foi feliz no Besiktas. Venceu a Liga turca — e contribuiu com quase tantos golos como assistências para Mario Gómez. O Besiktas era campeão sete anos depois. E isso valeu a Quaresma o “MVP” na Turquia, uma vida extra. Mais a mais, voltara a ser opção na seleção com Fernando Santos. Sempre saído do banco, mas sempre utilizado.

Está feliz, Quaresma. Sorridente. Solto. E quis “desfrutar”  — palavras do próprio no final do jogo com a Estónia mo Euro, no qual (tal como contra a Noruega, pouco antes) “pintou a manta” — do seu derradeiro Euro.

Vida N.º 8: o último Mundial?

Depois de ter voltado a ganhar o campeonato turco o ano passado (2016/2017), tendo feito 29 jogos e dois golos, este ano o seu Besiktas foi apenas quarto (a quatro do primeiro, o Galatasaray), com Quaresma a jogar 26 partidas e a marcar mais quatro golos, a que se junta mais um na Taça da Turquia (em três jogos). E ainda fez sete jogos da Liga dos Campeões (onde ficou em branco).

No apuramento para o Mundial, Quaresma foi titular em quatro jogos, mas não macou em nenhum… até que esta segunda-feira em Saransk n os meteu nos oitavos com aquela trivela do costume… Pode vir aí uma despedida, ou Quaresma terá nove vidas como os gatos?

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